Mordida na Grande Maçã

Roberto Muggiati fala de Ivo Perelman, um músico que pensa e que também se interessa por literatura e artes plásticas

Para ser lido ao som de The Apple in the Dark com Ivo Perelman

Ivo viu a maçã. Primeiro, mordeu A Grande Maçã – como os jazzistas chamam Nova York. Depois, leu A Maçã no Escuro, de Clarice Lispector. Radicado nos Estados Unidos, o saxofonista brasileiro Ivo Perelman teve a ideia ousada de lançar quatro CDs baseados na obra de Clarice. Atualmente com 57 anos, filho de polonês e russa (professora de piano clássico), aos nove anos Ivo era já um prodígio do violino, tocando de Bach a Villa-Lobos; aos 15, experimentou violoncelo, piano, trombone e clarineta, até se encantar pelo som vigoroso do saxofone tenor, que o levaria finalmente a Nova York, com escalas no Canadá, em Israel e Los Angeles. O álbum inaugural, Ivo (1989), com a participação dos brasileiros Flora Purim, Airto Moreira e dos americanos John Patitucci (baixo) e Peter Erskine (bateria), escancarou para ele as portas de uma carreira vitoriosa.

Ivo Perelman é um músico que pensa. Além de iniciar uma carreira paralela de artista plástico, com exposições em várias cidades do mundo, colocou no papel algumas reflexões sobre sua atividade principal: o jazz. “Essa tem sido a maior dádiva que recebi do processo artístico. Um sentimento quase religioso de fé nos mecanismos naturais que regem o cosmos. Improvisar é brincar de ser Deus e perpetuar assim o impulso criativo do universo”.

O tributo a Clarice surgiu quando, ao ouvir textos da escritora em saraus literários de Nova York, se aprofundou na leitura “e alguma coisa me emocionou”. Nenhuma influência das raízes judaicas comuns, esclarece. (Clarice nasceu em 1920 na Ucrania, quando a família fugia da perseguição aos judeus na Guerra Civil russa.) Em sua releitura de Clarice, Ivo inspirou-se apenas na obra da escritora. Ele opera em dois contextos distintos: em Near to the Wild Heart (Perto do Coração Selvagem) eSoulstorm (CD duplo, cujo título vem de uma edição de contos em inglês), contrapõe seu saxofone a dois instrumentos de cordas – violino e baixo no primeiro; cello e baixo, no segundo. Em The Apple in the Dark (A Maçã no Escuro) e The Stream of Life (Um Sopro de Vida), Ivo joga o sax contra a bateria de Gerry Hemingway e Brian Willson, respectivamente. Como novidade, The Apple traz Ivo também ao piano em seis das dez faixas – um piano ora concreto e bartokiano, ora impressionista e jobiniano, num contraste lírico com o implacável free-bop do tenor, que evoca o Coltrane da fase mais gutural e raivosa. Dos CDs com baterista, Bill Meyer, a revista Down Beat diz que “ambos são expressões envolventes e frequentemente emocionantes de um espírito inquieto e criativo”. Já sobre o trabalho do sax com cello e baixo, escreve Jason Bivins, da Signal to Noise: “A música evolui com muita urgência, os intérpretes se fundem maravilhosamente (…) A química é superlativa”.

Existe algum sopro de Clarice nesta empreitada? O título de algumas faixas pode indicar que sim: The Apple in the DarkIndulgencesGreen SettingsThe Way of the CrossLisboa. Ivo garante que não foi sua intenção fazer uma tradução musical de Clarice. “Sua obra surge como uma amálgama de que brotam os sons, numa visão bem pessoal e abstrata do músico”. No erudito, a música programática, ou descritiva, teve seus momentos – um caso extremo sãos canhões da Abertura 1812 de Tchaikovski. No jazz, existem tentativas, principalmente de Duke Ellington, que em 1957 fez um belo álbum baseado em personagens de Shakespeare, Such Sweet Thunder. Ouvir esse tributo a Lispector exige concentração e tempo – cada vez mais raro em nossos dias. Afinal, são 5 horas e 16 minutos de audição. Uma novidade para aqueles que conhecem o trabalho de Ivo é a nova atenção que ele dá ao som do saxofone em si, à exploração das suas alternativas de timbre. É o que ele chama seu “projeto maluco”, o de soprar regularmente uma série de saxofones sem chaves e sem furos, que construiu com a ajuda de um artesão brasileiro. O instrumento sem dedilhado só tem capacidade de emitir uma mesma nota, “o som puro”, segundo Ivo, a ser trabalhado incansável e obsessivamente pelo sopro. O que Clarice chamaria “um sopro de vida”.

(Texto cedido pelo autor e publicado originalmente no Estadão em janeiro de 2011.)

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