Textos e imagens celebram o centenário do mais inquieto e revolucionários dos músicos de jazz

Encontros e desencontros
Márcio Pinheiro
Para ser lido ao som de Miles Davis em Bags Groove
Miles Davis – que completa 100 anos neste 26 de maio de 2026 – é lembrado por ter promovido muito encontros entre músicos de muitos estilos, de muitas gerações.
E também por um desencontro.
Em 1954, na véspera de Natal, época em que os corações estão mais abertos, o trompetista se preparava para gravar o disco que por contrato ainda devia para a gravadora Prestige, Miles Davis and the Modern Jazz Giants. No registro, Miles pretendia reunir em estúdio músicos que simbolizassem aquele momento de afirmação do jazz, como os três fundadores que integravam o Modern Jazz Quartet. Milt Jackson, vibrafone; Percy Heath, contrabaixo; e Kenny Clarke, bateria estavam lá. Apenas o pianista John Lewis estava ausente. E em seu lugar foi chamado Thelonious Monk.
Monk, já então um nome das internas do jazz, um músico dos músicos, muito respeitado desde os primeiros anos da década anterior – e Miles, então uma estrela ascendente, sabia disso.
Não se sabe ao certo porque Monk aceitou participar da gravação – falta de dinheiro seria um bom motivo, pois ele vivia uma fase de dificuldade pelo menos desde 1945 – mas o fato é que já era previsível que tanto ele quanto Miles jamais se afinariam. Miles, inclusive, fez questão de deixar claro desde o primeiro momento que Monk deveria “ficar quieto”, ou seja, tocar o mínimo possível durante os solos do trompetista. Ira Gitler, que estava presente na sessão e foi o responsável pelos textos que fazem parte do encarte do álbum, confirmou que o clima entre os dois foi o pior possível. Em determinado momento, inclusive, Miles questionou ao produtor Bob Weinstock porque ele havia optado por contratar um “músico nulo” como Monk, “que iria arruinar seus solos de trompete”. Com explicou ao repórter Nat Hentoff, Miles admitiu que Monk era um grande músico, mas que “era impossível suportá-lo atrás de mim, pois ele não me dá nenhum apoio”.
O curioso era que tanto Miles quanto Monk eram dois músicos que haviam conseguido converter suas limitações técnicas em vantagem, com ambos criando um estilo de tocar que valorizava a economia de notas e dispensava qualquer elemento supérfluo. Sabiam dar às pausas o efeito dramático que queriam obter.
A tensa sessão de gravação por pouco não acabou em tragédia. O mal-estar entre os dois, agravado pelas reclamações e troca de insultos quase deu origem a uma briga. Entre pessoas ligadas ao estúdio e alguns repórteres que ocorrerá uma briga, com o trompetista – numa versão muito provavelmente divulgada pelo próprio Miles – partindo para cima de Monk. Ao saber que corria a história que Miles (1m68cm de altura) teria dado um soco em Monk (com 1m91), o pianista foi o primeiro a desmentir. E com poucas palavras, como era o seu estilo, espantou-se: “Bateu em mim? Não teria sido bom para ele”.
Estranho no ninho
Roberto Muggiati
Para ser lido ao som de Miles Davis em Stella By Starlight
Quando chegou a Nova York, aos 18 anos, com o trompete na mão em busca do ídolo Charlie Parker, Miles Dewey Davis era um autêntico “estranho no ninho”. Não tocava segundo o estilo oficial do bebop, com escalas vertiginosas, rajadas de notas e efeitos pirotécnicos nos agudos – em suma, não era um velocista como Dizzy Gillespie, que ditava a cartilha do trompete moderno. Miles era lento, alternando notas longas com duas ou três notas curtas e, entre elas, pausas imensas, que mais pareciam hesitações.
A maioria dos outros músicos achava que esse estilo intimista, suspenso numa atmosfera mais reflexiva, não passava de um ardil para mascarar a falta de técnica. O próprio Miles esclareceu bem essa questão na sua autobiografia: “Lembro de ter tocado com uma surdina naquela gravação para soar menos parecido com Dizzy. Mesmo com a surdina, eu soava como ele. Fiquei furioso, porque queria ter meu próprio som. Ainda achava que estava próximo de alcançar minha própria voz no trompete. Ansiava por ser autêntico, embora só tivesse 19 anos”. Dois anos depois, ele comenta: “Eu estava ficando mais confiante com meu modo de tocar e desenvolvendo um estilo próprio. Estava me afastando das influências de Dizzy e Freddie Webster. Mas foi tocando toda noite no Three Deuces com Bird e Max Roach que acabei encontrando minha própria voz. Havia sempre músicos dando canja com a banda e nós tínhamos de nos ajustar a estilos diferentes. Bird gostava muito dessa zorra e eu também, às vezes. Mas eu estava mais interessado em aperfeiçoar o som da banda do que tocar com um bando diferente de filhos da mãe toda noite”.
O jovem Miles não se deixou abalar com as críticas. Quando se deu conta de que nunca atingiria a velocidade e os agudos de Dizzy Gillespie (“mal conseguia ouvir as notas quando ele voava no registro muito alto”), Miles, inspirado pela concepção do espaço musical de Thelonious Monk, preferiu elaborar um estilo baseado na elegância e na sobriedade. Graças a sua persistência – e confiança em si mesmo e fé naquilo que fazia – aos 21 anos gravava os primeiros discos em seu nome, com alguns dos principais nomes do bebop, entre eles o genial Charlie Parker.
Outra característica importante de Miles Davis foi a de nunca se fixar no estilo vigente e partir sempre para a descoberta de novos caminhos. Em 1949 e 1950, com a colaboração do pianista e arranjador Gil Evans, ele fez as gravações que depois seriam reunidas no álbum Birth of the Cool, com uma formação pouco ortodoxa que fundia instrumentos do jazz e do erudito, como tuba e trompa. Nessa fase, a leveza do seu trompete foi descrita como “o som de um homem caminhando sobre cascas de ovo”, e suas frases longas e complexas foram comparadas à prosa do romancista Marcel Proust. O encontro com Gil Evans se deu graças à primeira composição de Miles, Donna Lee – baseada na grade harmônica de Indiana – que foi erroneamente creditada a Charlie Parker pela gravadora. Gil entusiasmou-se pelo tema e soube que o autor era o trompetista e não Parker.
Os anos 1950 foram profícuos para Miles. Tornou-se uma das vozes principais de um novo movimento, o hard bop, e em meadow da década retomou sua colaboração com Gil Evans, gravando como solista de uma grande orquestra uma série de álbuns que começaria com Miles Ahead (1957) e terminaria com Quiet Nights (1962), este forrado de temas brasileiros. Miles prosseguiu ainda o trabalho mais intimista, formando o sexteto genial que incluía os saxofonistas John Coltrane (tenor), Cannonball Adderley (alto) e o pianista Bill Evans, e inaugurando o jazz modal, com Kind of Blue (1959), considerado um dos dez principais álbuns de jazz de todos os tempos. Depois de incursionar pelo flamenco e pela bossa nova, Miles passaria a segunda metade dos anos 1960 com uma de suas formações mais estáveis, o quinteto com Wayner Shorter (saxofone), Herbie Hancock (piano), Ron Carter (baixo) e Tony Williams (bateria). Antes do término da década, ele embarcava em nova aventura sonora, a fusion – fusão do jazz com o rock –, chocando os fãs tradicionais com uma música barulhenta toda eletrificada. ´
Depois de meia década quase inativo, Miles voltou nos anos 1980, explorando um novo tipo de fusão, do jazz com o pop e o funk.
Temperamento irrequieto, sempre em busca do “novo” – seja lá o que isso signifique -, Miles Davis passou por mais fases em sua música do que Picasso em sua pintura. Quando trocou o som do jazz pela fúria da fusion. Teo Macero, saxofonista e produtor da maioria dos discos de Miles para a Columbia, comentou, abertamente: “Se eu fosse apenas músico, diria: ‘Qual é, Miles, que porcaria é essa? Sabe bem que isso não é música, mas barulho!’ Eu diria, mas não penso assim. Olho para essa música como para uma direção criativa nova e preciso encorajar o homem a fazer qualquer coisa de novo, sempre. E ele o faz, agrade ou não às pessoas”.
Não só Miles Davis encontrou sua própria voz – ou suas vozes – como aplicou também ao jazz, de certa forma, a tese trotskista da “revolução permanente”, movimento que tinha como lema principal “Acomodar-se jamais!”
O círculo do círculo
Juarez Fonseca
Para ser lido ao som de Miles Davis em Circle in the Round
“Topas escrever algo sobre os 100 anos do Miles?”, me sondou Márcio Pinheiro dias atrás. “Não vou conseguir fazer algo à altura dele neste momento em que ando sobrecarregado”, respondi. “Mas posso ver se acho algo que já tenha publicado, para recuperar.” Achei o recorte de um comentário feito para Zero Hora em 1980 (não descobri o mês) sobre uma coletânea de gravações inéditas que recebi da gravadora CBS. Não tive tempo de procurar textos sobre outros dois discos que lembro ter resenhado, You’re Under Arrest (1985) e Tutu (1986). Nem do livro Kind of Blue – A história da obra-prima de Miles Davis, de Ashley Kahn (2007). Não lembro de ter escrito sobre a morte dele, em setembro de 1991. Mas agora temos mais é que comemorar o centenário do “Principe das Trevas”, do “Picasso do Jazz”, reouvindo o mais possível do que ele deixou. Os gaúchos podem começar por Song nº 2, sua adaptação/apropriação de Prenda Minha lançada no álbum Quiet Nights (1963). A seguir, o texto de 1980:
Um Miles Davis inédito, de 1955 a 70
Um dos mais criativos e influentes compositores e trompetistas da história do jazz e certamente o maior mito vivo do jazz moderno, Miles Davis não grava um novo disco desde 1975, quando saiu o duplo Get Up With It. De lá para cá, também não fez nenhum concerto e tem se recusado sistematicamente a explicar as razões de seu recolhimento (só bem recentemente foram publicadas algumas notícias esparsas de que ele estaria pensando em voltar – mas sem maiores detalhes).
Para suprir a ausência de Miles, a gravadora CBS lançou há pouco o álbum duplo Circle in the Round, com dez gravações realizadas entre 1955 e 1970 – exceto uma, todas inéditas. O disco oferece um panorama das evoluções e circunvoluções de Miles Davis, ao lado dos igualmente extraordinários músicos que o ajudaram a realizar sua história e marcar sua condição de gênio.
Nas capas internas de Circle in the Round, um excelente texto crítico/descritivo de James Isaacs traduzido (coisa rara!) para o português, situa e observa detalhadamente cada faixa, particularizando e colorindo as audições. Um texto assim é ótimo, principalmente para o ouvinte “amador” do jazz – porque, a rigor, o jazz é um gênero esotérico, e mais ainda quando se trata de ouvir um inventor fundamental. Diante do texto de Isaacs e dos meus próprios frágeis conhecimentos, não me atrevo a mergulhar criticamente no universo de Miles e seus músicos. Mas garanto que a emoção de ouvi-los é plena e gratificante.
E como informação, registro as 10 passagens de Circle in the Round:
Two Bass Hit, de Dizzy Gillespie e John Lewis, foi gravada em 1955 (ano em que Miles completava sua primeira década de gravações, já tido como um gênio aos 29 anos), com John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
Love For Sale, de Cole Porter, é uma gravação de 58 (única faixa não inédita, foi lançada em uma antologia em 75), com John Coltrane, Cannonball Adderley, Bill Evans, Paul Chambers e Jimmy Cobb.
Blues no. 2, de Miles, gravada em 61, teve Hank Mobley, Wynton Kelly, Paul Chambers e Philly Joe Jones.
Circle in the Round, também de Miles e gravada em 67, ocupa uma face inteira do álbum, com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter, Joe Beck e Tony Williams (que alguns críticos consideram como o segundo grande Miles Davis Quintet, sendo o primeiro aquele de Two Bass Hit).
Teo’s Bag é gravação de 68, com a mesma formação da faixa anterior, menos Joe Beck.
Side Car I e Side Car II foram gravadas no mesmo dia, 13 de fevereiro de 68, também com a mesma formação, mas incluindo George Benson em Side Car II.
Splash, igualmente de 68, teve Herbie Hancock, Chick Corea (ambos no piano elétrico), Joe Zawinul, Wayne Shorter, Dave Holland e Tony Williams.
Sanctuary, de Wayne Shorter, também de fevereiro de 68, com o próprio Shorter, mais George Benson, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams.
E finalmente, de 1970, é a gravação de Guinnevere, música de David Crosby, com ele na guitarra, Wayne Shorter, Chick Corea, Joe Zawinul, Dave Holland, Jack DeJohnette, Billy Cobham, Harvey Brooks, Airto Moreira e o sitarista Khalil Balakrishna. James Isaacs considera que Guinnevere tem interesse apenas como produção de uma época e observa: “Engraçado, porém, que a música mais recente desta antologia seja se longe a mais superada”.
Na capa de Circle in the Round se manifesta claramente a expressão inquieta e angustiada do gênio Miles Davis, o “agente de mudanças”, o entusiasta da “ciência da suavidade”, que hoje, aos 55 anos, parece preparar-se para a volta aos estúdios. No tempo em que ficou recolhido, o que terá ele preparado para a música e para nós? Isaacs dá seu palpite: “Talvez esteja preparando uma música que novamente vai reformular as noções de harmonia e cor e ritmo e espaço”.
Nós não perdemos por esperar.
Miles por Plume
Para comemorar o centenário de Miles Davis, Reinaldo Figueiredo, colunista e conselheiro da AmaJazz, procurou Leonard Plume, crítico de jazz da revista Down Bitch. Plume foi quem mais entrevistou Miles Davis e agora ele abre seu arquivo para deleite de nossos leitores. Aí vão alguns relatos:






