No concreto, flores selvagens

Como o movimento denominado loft jazz trouxe novas ideias musicais, arquitetônicas, estéticas e políticas à cena cultural da Nova York dos anos 70

Para ser lido ao som de Black Robert, de Dave Burrell, da coletânea Wildflowers – The New York Loft Jazz Sessions
Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

A liberdade de improviso proposta pelo free jazz dos anos 60 chegou a extremos inimagináveis na década seguinte. O rompimento foi geral e nenhuma regra pré-estabelecida merecia ser levada em consideração. O palco desta cena musical que emergia, sinalizando os novos rumos da vanguarda jazzística, ganhou o nome de loft jazz. Eram locais como Environ, Studio We, Ali’s Alley e Studio Rivbea, todos em antigos lofts industriais da região do SoHo, em Nova York.

Como tradição, o loft jazz seguia os ensinamentos de John Coltrane, Ornette Coleman, Albert Ayler, Archie Shepp, Don Cherry, Sun Ra e Pharoah Sanders. Como vanguarda, o loft jazz privilegiava instrumentos pouco usuais como o saxofone baixo, o oboé e o violoncelo ou então a combinação de instrumentos em formatos não tradicionais, como o World Saxophone Quartet, um quarteto que apresentava uma variedade de saxofones e flautas, geralmente sem qualquer seção rítmica. Além disso, o movimento revelava novos nomes: The Art Ensemble of Chicago, Muhal Richard Abrams, Anthony Braxton, Dave Holland, Rashied Ali, Oliver Lake, Hamiett Bluiett (recentemente falecido), Chico Freeman, Olu Dara, Arthur Blythe, David Murray e Sam Rivers. Este último destacou-se também como anfitrião, à frente do RivBea, dele e de sua mulher, Beatrice.

O loft jazz nasceu da necessidade. Os imensos galpões abandonados, que antes abrigavam fábricas agora desativadas, tornaram-se espaços alternativos para os músicos que estavam fora do circuito. Os lofts cumpriam vários papéis: o de espaço aglutinador de novos artistas, o de estúdio para shows e gravações e também – por último mas não menos importante – o de moradia.

Assim, o loft jazz era um manifesto que consolidava discursos sobrepostos em torno do coletivismo, da renovação da arquitetura urbana, da estética musical experimentalista e da política radical de autodeterminação.

Aqueles anos loucos e intensos do loft jazz foram captados das mais diversas formas. A primeira – no calor dos acontecimentos – foi a gravação de uma série de cinco LPs intitulados Wildflowers – The New York Loft Jazz Sessions, em maio de 1976. Os discos foram lançados pela Casablanca Records e documentam diferentes sessões realizadas no loft de Sam Rivers, reunindo David Murray, Sam Rivers, Olu Dara, Oliver Lake, Sunny Murray, Wadada Leo Smith…. A outra, mais recente, foi a publicação do livro Loft Jazz: Improvising New York in the 1970s (algo como Loft Jazz: improvisando Nova York na Década de 1970), de Michael C. Heller, lançado em dezembro de 2016.

Etnomusicólogo e professor assistente de Música na Universidade de Pittsburgh, Heller ressalta as características altamente politizadas e de cunho social do movimento e não querendo se deixar aprisionar pergunta: o loft jazz foi um estilo? Um gênero? Uma ideologia? Uma atitude? Para em seguida especular uma resposta: “não eram uma organização, nem um movimento, nem uma ideologia, nem um gênero, nem uma vizinhança, nem uma linhagem de indivíduos. Eles eram, em vez disso, um ponto de encontro, um lugar de interação”. Heller, que não viveu aqueles anos, se ampara muito em cima dos depoimentos e dos escritor de testemunhas oculares (e, mais do que isso, auditivas) daquela época: os repórteres  Peter Occhiogrosso, Gary Giddins, e Stanley Crouch, além do escritor, poeta e ativista Amiri Baraka.

O loft jazz não chegou a durar uma década. A paisagem musical dos anos 1970 mudou, os músicos acabaram sendo absorvidos pela programação dos grandes festivais e das casas de show mais convencionais, e os lofts passaram a ter novos uso – muitas vezes com preços exorbitantes. A senha, inclusive, foi dada por Ed Koch, prefeito de Nova York entre 1978-1990. “Se você quer morar em Manhattan, você tem que pagar por isso”.

Anúncios

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s