O macaco estava certo

Maria Duhá-Klinger fala de sua amizade com a musa Wilma Dias e aqueles loucos anos nas Dunas da Gal

Para ser lido ao som de Gal Costa em Tigresa

Foto: Reprodução

Nos anos 1970, a grande curtição carioca eram as Dunas da Gal (ou Dunas do Barato), onde a cantora tropicalista reinava absoluta entre artistas famosos (e outros não tão famosos), agregando intelectuais, poetas underground, comunistas de carteirinha, ativistas, hippies, boêmios e uma fauna gay na sua entourage.

Este segmento de praia em frente a Farme de Amoedo tinha várias estrelas,  entre todas elas além daquela que dava nome ao pedaço, destacava-se Wilma Dias Grunfeld. Uma beleza de 18 anos, aspirante à bailarina profissional e namorada de Gal.

Wilminha era linda, uma imagem angélica, tipo Boticelli: cabelos lisos cor de mel, olhos verdes, pele bronzeada cor de canela, sorriso perfeito. E para completar tanta beleza usava uma guirlanda de flores no cabelo. Uma deusa europeia tropical (o pai dela era alemão) em plena praia de Ipanema. Afora a beleza física Wilma era uma pessoa encantadora. Simpática. Amiga. Batalhadora. Determinada. Sabia o que queria da vida.

Seguindo a linha Gal Fatal, a indumentária daquela época eram saias de babados coloridas presas por um elástico abaixo da cintura. As gatas que frequentavam as dunas eram todas magras. Barriga zero. Mostrar o umbigo era a ordem do dia. Para completar a vestimenta, o top era um pano amarrado como sutiã para esconder os peitos. As melhores saias eram feitas no Tambá por Edir de Castro, que morava no condomínio com o marido Zé Rodrix. Alguns anos depois Edir, já separada de Zé, transformou-se em uma das Frenéticas.

O Tambá era uma extensão das dunas não só pelo barato, mas porque lá também viviam Gal com sua mãe Mariah Costa Penna e a namorada Wilma. Dona Mariah era escritora e muito querida e respeitada pela galera.  Tinha escrito dois livros, um de contos Vidas da Vida e um autobiográfico A Casa do Morro.   Elas moravam num apartamento cujo quarto do casal tinha uma cama redonda com uma vista deslumbrante para o mar. Tipo estrela de Hollywood à moda brasileira…

Para os conhecedores da cultura carioca o Tambá era o Solar da Fossa versão anos 70 . Era um lugar cult. A curtição era geral. Era normal encontrar o casal Jorge e Ruth Mautner com o parceiro Carneirinho nas escadarias do prédio. Nesta época Ruth estava grávida de Amora, hoje diretora consagrada da Rede Globo. O galã Claudio Marzo encontrava ali um refúgio contra as fãs que enlouqueciam quando o viam. Paulinho Lima, outro morador, empresariava os Novos Baianos recém-chegados da Bahia. Totalmente alucinados pelo eminente sucesso, eles andavam feito zumbis pelos corredores.  As portas estavam sempre abertas. Uma comunidade de paz e muito amor.

Foi neste local mágico que fiquei amiga de Wilminha. Nossa conexão inicial foi a astrologia, que ela amava e conhecia um pouco. Eu já estudava os astros e suas influências. Assim, eu e ela  criamos uma conexão  especial que só terminou com a sua morte. Como o seu mapa astral descrevia Wilma era esforçada e vencedora. Ela tinha uma tenacidade teutônica.  No Tambá, diariamente descia a ladeira do Vidigal para fazer aulas de dança na academia de Vilma Vernon, em Copacabana. Construiu a sua carreira unindo talento com beleza e esforço.

A época borbulhante do Tambá foi de curta duração. O barato tinha saído caro. A polícia estava de olho em alguns moradores. O sonho tinha se transformado em pesadelo.

Foi numa dessas que Gal mudou-se e se separou de Wilma. O anjo ia tornar-se na figura de maior sex-appeal do Brasil. O macaco estava certo.

A sua grande oportunidade profissional veio com a abertura do programa O Planeta dos Homens em que ela saia dançando de dentro de uma banana. Todos se apaixonaram por ela. Mereceu crônica de Carlinhos de Oliveira. Deu entrevistas e foi capa das revistas. A partir daí, sua carreira cresceu: ela fez novelas na Globo e, em 1984, foi protagonista de uma novela na SBT: Meus Filhos, Minha Vida. No programa Cabaré do Barata, de Agildo Ribeiro, na TV Manchete, ela era a estrela principal. Chegou até a gravar uma música com voz sexy chamada Massagiste.

Wilma assumia a sua sensualidade de uma forma brilhante. Ela amava o seu corpo e não tinha problema em exibi-lo. Apareceu nua em capas de revistas masculinas. Foi o símbolo sexual da época.

Sua trajetória foi breve. Aos 36 anos, ela sentiu-se mal e sua irmã Selma levou-a ao pronto socorro. Já era tarde. Morreu de um ataque cardíaco. Na época, Wilma e a irmã moravam no Leme. Selma era mais moça e tinha a mesma beleza de Wilma, mas preferiu trabalhar atrás das câmaras, como produtora. Foi ela que me avisou da morte da irmã. Logo depois Selma também partiria vítima de câncer.

Será que a vida foi generosa ou cruel com as irmãs Grunfeld? Por um lado, nunca mostrou a elas o lado escuro da velhice: rugas, doenças e dores. Também não deu a elas a oportunidade de encontrar a sabedoria, a serenidade e a paz. Que só o tempo traz.

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