Com a bênção de São John Coltrane

Fabiano Maciel* estreia na AmaJazz, recorda seus primeiros passos musicais e agradece por ser discípulo do maior dos saxofonistas

Para ser lido ao som de John Coltrane em A Love Supreme 

Fabiano eu conheci porque era primo de uma amiga, colega de aula no Colégio das Dores e por quem eu tinha, digamos assim, um interesse maior, de modo que valia a pena me aproximar do irmão e do primo. Ele – salvo engano – era do Sevigné mas morava nas proximidades das Dores. Por isso, numa escaldante tarde de 1984, fui à casa em que ele vivia com os pais, para comprar três dos meus primeiros LPs da minha coleção de jazz. Ainda me lembro quais eram e ainda tenho os três na minha estante. Fabiano não era o que hoje pode ser chamado de desapegado mas mesmo assim ele me vendeu os três discos, já raridades, por uma pechincha, bem abaixo do preço que custariam nos sebos do Viaduto da Borges. Pelas afinidades musicais, convivemos muito nesse período. Fomos a shows (ainda me lembro da Pipoca Moderna), bebemos e conversamos bastante. A amizade fluia tão bem que só anos depois fui saber que ele não era colorado. Também fiquei sabendo que a venda daqueles discos, para mim e para outros, fazia parte de um plano dele para se mudar para o Rio. Foi lá que quase uma década depois nos reencontramos. E fomos beber no Jobi, uma de suas bases. Ele já estabelecido e eu morando meus primeiros dias na nova cidade. De certa maneira, nunca perdemos o contato e os reencontros sempre foram festivos. Acompanhei à distância sua carreira de documentarista, vi todos os filmes e – se as redes sociais têm uma virtude – pude reencontrá-lo “por escrito”. Agora, Fabiano, um entusiasta de primeira hora da AmaJazz, me honra com um pedaço de suas memórias musicais. Seja bem-vindo, meu velho! Márcio Pinheiro

Foto: Reprodução

Meu pai tocava gaita. Conheceu minha mãe em um baile, ele pilchado, ela de prenda. Para minha sorte, em casa ele só tocava o Pezinho. No cafofo da família Maciel o repertório era outro. Seu Francisco e Dona Carmina não tinham muitos discos, mas a pequena pilha de LPs faria feliz qualquer cantora eclética de churrascaria: Jorge Ben, Jair Rodrigues, Paulinho da Viola, Trio Irakitan , Dorival Caymmi, Eydie Gorme e Los Panchos conviviam numa relax, numa tranquila e numa boa com Ray Conniff,  Os Incríveis e os inevitáveis discos do Roberto Carlos.

Os compactos eram mais inusitados: Miriam Makeba, Mungo Jerry, Bob Seger e vários da Elenco em versão reduzida. No início dos anos 70, com o sucesso de Golpe de Mestre, seu Francisco surfou na onda e comprou o compacto do Scott Joplin. Durante o ano a casa foi inundada de ragtime e mais uma infinidade de charlestons e teas for twos gomalinados. Para fechar o ano com chave de ouro, a apresentação de Natal da turma minha irmã no Sevigné foi ao som de Baby Face.

Aí num belo dia seu Francisco apareceu com o disco da coleção Jazz Masters: Louis Armstrong e Sidney Bechet. Para seu Francisco, jazz era Louis Armstrong e todo o resto não importava. Para mim, jazz era a banda dos gatos vagabundos do Aristogatas e o rei Louie escateando em Mogli. Mais tarde eu descobri que quem fez a voz do King Louie foi o sensacional Louis Prima, caso único de jazzista e taranteleiro e, assim como o King Louis Armstrong, também de Nova Orleans.

Meu tio Paulo me mostra “um som diferente”, segundo ele, era o som do “futuro” que o Eumir Deodato apresentava no Prelude. É rock? É jazz? É samba?  Eu já tinha a mania de ler  ficha técnica de disco e a banda do Eumir tinha Ron Carter, Stanley Clarke, Billy Cobham, Ray Barreto, Airto Moreira, Hubert Laws, John Tropea e mais uma penca de cascudos que eu só iria saber apreciar muito tempo mais tarde. Também muito tempo mais tarde, caminhando em Copacabana, vejo Ron Carter na porta do hotel onde ele devia estar hospedado e fico tão feliz que grito: Ron Carter! Ele sorriu, me cumprimentou e me deu um abraço. Ainda não existiam celulares. Neste caso eu teria feito um selfie.

Mas o meu negócio era rock’n roll e eu seguia rezando pela cartilha evolutiva do Transasom e da rádio Continental: Beatles, Stones, Jimi Hendrix, Jeff Beck, Deep Purple, Led Zeppellin, Frank Zappa. Frank Zappa? Hot Rats é rock? É jazz? Até hoje não sei. Não importa.

Noite fria e modorrenta, a mínuscula TV preto e branca do quarto ligada na Bandeirantes que transmite o São Paulo Montreux Jazz Festival. Nivaldo Ornellas: muito prazer. Etta James: muuuito prazer. Chick Corea e John McLaughlin: naquela noite, quase nenhum prazer. Não lembro se foram todos ao mesmo tempo, ou se aquilo durou o final de semana, mas o que me enlouqueceu mesmo foi o Hermeto, que eu já conhecia do “Pega o porco amarra o porco” e uma dupla de violeiros pra lá de fodona: Larry Coryell e Phillip Catherine.

1981 e as primeiras idas ao bar Alaska. Na mesa ao lado uma figuraça de cabelão black power e sua turma conversam sobre jazz e eu, metido, entro na conversa. O cabeleira me pergunta: O que você gosta? Louis Armstrong e Sidney Bechet respondo certo de que estou abafando. Ah, isto já era, jazz é outra coisa. E começou a desfiar uma porrada de Weather Reports, George Dukes e Wayne Shorters  que eu humilhado, entre tantas batidas de maracujá servidas pelo Isaac, ia tentando decorar os nomes, para no dia seguinte ir na Galeria Chaves e tentar encontrar alguns deles para ouvir. Lembrem-se, eram os anos oitenta do século 20. Achar discos era uma aventura e garimpá-los era melhor ainda. A loja tinha o Weather Report, que ouvi e com todo o respeito ao seu Pastorius, fusion nunca foi minha praia.

Minha amiga Jaqueline me apresenta Stephane Grappelli e David Grisman e ficamos ouvindo Satin Doll por horas e horas e horas. Jaqueline também me apresentou o Pat Metheny, a Billie Holiday e a Bessie Smith, entre outras coisas.

Kélio morava em frente ao meu prédio. Maconheirão, libelu e bailarino, seu grupo dançou no Araujo Vianna a Suíte para Flauta e Jazz Piano do Rampal com o Claude Bolling. Eles formavam junto com o Django que eu descobri na coleção Gigantes do Jazz, da Abril, a minha seleção gaulesa de jazz e música de cabaré.

A coleção foi a minha versão dos Tesouros da Juventude. Nela eu descobri Duke Ellington, Count Basie, Miles Davis e principalmente Bill Evans e Thelonious Monk. A coleção ainda tinha a vantagem de trazer uma biografia das figuras, livros de jazz eram raros, só em inglês e eu não passava do “I can’t get no”.

A mãe de um vizinho na Duque tinha por algum motivo misterioso praticamente todo o catálogo da gravadora Imagem: Coleman Hawkins, Dizzy, Jazz no Municipal. O repertório crescia e eu já podia botar banca com o cabeleira black power no Alaska.

Num final de semana junkie vou parar no Clube do Jazz. Ou eu era muito chave de cadeia, ou a casa da dona Ivone me pareceu o lugar mais pomposo e metido à besta da cidade. Não sei porque, me senti na Sogipa. Acostumado a circular entre o Centro e a Osvaldo, entre a Glória e o Menino Deus, meus limites acabavam na Cristóvão e na Auxiliadora. Petrópolis era só para ir no Barranco. Qualquer coisa pra lá da Carlos Gomes, e isto incluia a Bela Vista, era uma outra cidade.

Mas tinha um bar que não lembro o nome, eu acho que era na descida da Ramiro, e numa noite o Leo Ferlauto, nosso John Malkovich antes do John Malkovich existir tava por lá improvisando e mandou o Take Five. Muito mais bacana que o Clube do Jazz.

Em 1985, com 20 anos e já sem espinhas na cara, entre um Talking Heads e um Prince eu me deprimia ouvindo The Köln Concert, do Keith Jarrett, e me entorpecia com o baixo do Charles Mingus no Cumbia & Jazz Fusion. No ano seguinte, metido à empresário rockarolla e a reboque do Rock Grande do Sul,  me mandei pro Rio, onde pude ver ao vivo alguns mitos (palavra perigosa hoje em dia, mas em todo caso, é mito, não mico) tocando e também vários outros responsas nem tão cotados.

Nunca consegui tocar instrumento nenhum, apesar dos esforços de Dona Carmina com o violão e com o piano. E se tem marmanjo que brinca de air-guitar, confesso que de vez em quando sonho que estou no piano, mandando brasa numa play-list só no sapatinho, com Ramsey Lewis, Herbie Hancock, Horace Silver, Andrew Hill e vários outros que em algum momento dos anos 60 fizeram um jazz malandro e suingado.

Hoje moro em São Paulo e quando meu filho Antonio fez um ano levei ele num bar onde nas tardes de sábado costuma rolar um lance chamado Jazz Bebê. Vicente, meu filho mais novo, tá sendo ninado com Vince Guaraldi, Grant Green e Lee Morgan. Por enquanto, eu ainda posso controlar o que eles vão ouvir. E são poucas as coisas na vida que ainda podemos controlar nestes tempos cheios de incertezas. Certeza mesmo só uma: sigo sendo um fiel e devotado membro da Saint John Coltrane Church, que um dia ainda pretendo conhecer de corpo presente. Nesta igreja, com certeza, vou entrar, assistir a missa inteira, pedir benção e ainda fazer uma bela oração, agradecendo por tanta belezura.

*  Fabiano Maciel dirigiu os longa-metragens Oscar Niemeyer, A Vida é um Sopro (2007) e Galáxias (2013). Desde 2003, tenta tirar do forno junto com Tárik de Souza o filme Sambalanço, A Bossa Que Dança. Atualmente está finalizando seu novo trabalho Quando o Brasil era Moderno. Gosta muito de cinema mas o que queria mesmo era ser percussionista de orquestra cubana.

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