Artista londrino gravou parte de seu álbum de estreia, The New Sound, em São Paulo
Para ler ao som de “Terra”, faixa do álbum The New Sound
“Na música, estamos inevitavelmente atados ao que nos embalou na adolescência”. Esse era o sentido de frase que ouvi de um editor e que, de alguma forma, então discordei. Mesmo que me identificando em parte. Afinal, àquela altura da vida, ligado a tanta outras coisas, como justificar o continuado interesse por obscuros artistas psicodélicos, alternando bandas que antecipavam o punk ou, no outro extremo, o progressivo?
Ou seja, o elo com o que ouvi entre 1966 (quando Beatles, Stones, Dylan e cia ilimitada entraram no radar) e a virada para os 70 não foi cortado. O que não impediu que o gosto pela combinação de som e silêncio seja multipolar. Da música brasileira em diferentes vertentes (incluindo os Caymmi, Noel, Aracy, Inezita, Mário Reis, Dilermando, Agostinho ouvidos desde a infância com os pais) à clássica (também na discoteca familiar, mas, que nos últimos tempos, quase que restrita a Villa-Lobos e Debussy-Ravel-Satie etc), passando por jazz e pop.

O que me leva ao personagem de hoje, o cantor, compositor, instrumentista, arranjador Geordie Greep, e seu The New Sound, lançado em outubro de 2024. Londrino, ele vai completar 27 anos em agosto e devia ter entre 23 e 24 anos quando gravou essa surpreendente estreia solo, após três álbuns com o grupo Black Midi. Se neste, classificado como avant-rock pelo site Allmusic, a sonoridade é pesada demais para meu gosto, em O Novo Som, Greep passeia com segurança e apetite por uma diversificada paleta de gêneros: rock progressivo, jazz, salsa, valsa, standard e até percussão de samba. Este último item, provavelmente, fruto de sessões em dois estúdios de São Paulo, Da Pá Virada e Estúdio do Tuto (o baterista Tuto Ferraz).
São 11 faixas, dez delas assinadas por Greep (duas em parceria com outro Black Midi, Seth Evans). A exceção, fechando o disco, é um standard do repertório de Frank Sinatra, If You Are But a Dream (Nat Bonx, Jack Fulton e Moe Jaffe). Arranjo (baixo acústico, sopros) e interpretação são fiéis ao padrão da canção estadunidense pré-rock, suavidade após quase uma hora de verborragia e fúria sonora. O oposto da pesada faixa de abertura, que de Blues guarda apenas nome, e soa algo indigesta, não anunciando a diversidade que o álbum oferece.
A coisa muda na segunda canção, Terra, introduzida por batucada de samba, para depois virar salsa. Há algo também do ritmo caribenho na sequência, Holy, holy, mesmo que introduzida por forte guitarra, acaba desembocando nessa praia de balanço, incluindo na letra um convite: “…how ‘bout we dance some salsa?”.
Nesses exemplos, à guisa de introdução, a música de Geordie Greep pode remeter a artistas britânicos dos anos 1980 igualmente frenéticos e musicalmente diversificados como Dexys Midnight Runners e Joe Jackson (este, ainda em atividade). Mas há momentos mais suaves e introspectivos em The New Sound. Incluindo a faixa-título e instrumental, e também As if Waltz e, principalmente, The Magician. Esta, com 12 minutos e 20 segundos, alterna mudanças drásticas de volume e intensidade, do pianissimo ao fortíssimo, canto operístico, trecho melódico clássico e base pesada. Puro rock progressivo no que tinha de melhor.

As letras quilométricas, com a advertência de “E” (ou seja, temas pesados para menores), muitas vezes na primeira pessoa, oferecem crônicas do cotidiano contemporâneo. Personagens arrogantes e inseguros são retratados de forma satírica. E progressista – no Black Midi, há uma canção para Vitor Jara, o cantautor chileno assassinado pelo golpe de Pinochet. Para falantes do português, a audição com as letras na tela do celular ou do computador é fundamental. Este é um álbum para se degustado por inteiro.
Por fim, de volta ao algoritmo nos tocadores de streaming, percebo que não funciona quando ouço o que conheço, de minha biblioteca, quando as faixas (e os artistas) oferecidas não avançam além do óbvio. Mas, tem sido útil quando estou conferindo algo novo, interesse despertado por alguma reportagem ou sugestão de amigo. Foi assim que cheguei a Geordie Greep, após passar algumas semanas de maio sequestrado por The Pilgrim, Their God and the King of My Decrepit Mountain. Este é o álbum, também de 2024, de outro artista londrino, Tapir!, grupo “folk indie prog” que teria terminado quando seu principal cantor e compositor, Evelyn Gray, decidiu dar um tempo para cuidar de sua transição de gênero. Entre Tapir! e Greep, o algoritmo ainda botou outra banda inglesa nova na biblioteca, Ugly, com mais um disco lançado em 2024, Twice Around the Sun. Assim como Geordie Greep, Tapir! e Ugly provam que o britpop ainda bate forte. Pelo menos em meus coração e mente.
Saideira, If You Are But a Dream.
