Três ou quatro imagens de Mingus

Antônio Carlos Miguel revisita a memória que tem do concerto apresentado por Mingus no Brasil em 1977

Para ser lido ao som de Charles Mingus em Three or Four Shades of Blue 

Na semana passada, ao ver a foto enviada junto às de Hermeto e Ron, o editor expert e esperto de AmaJazz sugere que seja guardada para a edição seguinte, quando ocorrerá o centenário do personagem flagrado em concerto no distante maio de 1977. Por coincidência, em 2022, 22 de abril cai numa sexta-feira, o dia preferencial (mas, não o único) para atualizações na revista acessível em telas de celulares, computadores e demais geringonças.

Mesmo que as memórias da noite sejam vagas, como recusar pauta tão oportuna? Afinal, no caótico cérebro do que agora batuca essas teclas, Charles Mingus é alguém com lugar garantido naquelas listas de ilhas desertas, entre os dez mais, em qualquer gênero musical. Pelo conjunto da obra, imensa, coerente e sempre inquieta, produzida em vida relativamente curta – ele morreu um ano e meio depois, aos 56 anos, em janeiro de 1979. No aplicativo de streaming, que, no momento, toca o longo tema final de The Black Saint and the Sinner Lady (1963), estão 74 álbuns creditados ao compositor, arranjador, contrabaixista, pianista.

Obra de um sujeito que esteve entre os inventores do bebop e do hardbop, avançou pelas trilhas do jazz orquestral e do experimentalismo, com referências que passam por gospel, blues, New Orleans, ritmos latinos, clássico contemporâneo e vanguarda. Pessoalmente, tinha fama de irascível, talvez por nunca ter aceitado o racismo e a exploração de sua arte. Atrás do autoconhecimento, fez psicanálise e, no início dos anos 1960, experimentou LSD com Timothy Leary, junto a um grupo de artistas que incluiu o poeta Allen Ginsberg. Além da obra registrada em disco, deixou uma espécie de autobiografia, escrita na terceira pessoa, Beneath the Underdog (Saindo da Sarjeta, na tradução para o Brasil do colega de AmaJazz Roberto Muggiati, editora Jorge Zahar, 2005). Na abertura, avisa: “Alguns nomes nesse trabalho foram trocados e alguns dos personagens e dos acontecimentos são ficcionais”.

Apesar da ressalva é boa fonte para conhecer mais um pouco de sua personalidade fora dos padrões. Ainda sobre a(s) foto(s), até pouco mais de dois anos – quando foram digitalizados os negativos de cerca de 200 filmes em 35mm negativos clicados entre 1973 e 1988 –, as informações sobre a noite eram apenas os rabiscos atrás das duas folhas de contato: “Charles Mingus, T. João Caetano, maio 1977”. Um garimpo pela internet deu mais pistas, incluindo o dia, os músicos que o acompanhavam e o provável repertório.

A apresentação no Rio de Janeiro foi a segunda visita do jazzman à cidade (três anos antes, tocara duas noites no Municipal) e fez parte de sua última excursão mundial. Poucos meses depois, ele recebeu o diagnóstico de Esclerose Lateral Amiotrófica. Apesar da doença, preso a uma cadeira de rodas, ainda trabalhou no estúdio, incluindo um disco de Joni Mitchell, Mingus, lançado poucos meses depois de sua morte. Na perna sul-americana da turnê, o quinteto de Mingus também passou por São Paulo, Porto Alegre (Salão de Atos da UFRGS), Montevideo e Buenos Aires. Ao lado do contrabaixista e do baterista Dannie Richmond (este, com o nome estampado no bumbo de sua Pearl) estavam Bob Neloms (piano), Ricky Ford (sax tenor) e Jack Walrath (trompete), estes, alguns dos músicos que, meses antes, tinham gravado em Nova York o álbum Three or Four Shades of Blue. A faixa que deu nome ao então recente disco é listada nos dois shows que, uma semana e pouco depois, ele fez em Buenos Aires (teatros Sha e Coliseo).

Confiando na exatidão do site setlist.fm Three or Four… esteve ao lado de outras composições de Mingus, como Duke Ellington’s Sound of Love (na abertura), Noddin’ Ya Head Blues (mais uma também gravada no álbum que lançara meses antes), For Harry CarneyCumbia & Jazz Fusion (esta também seria o título do último disco editado em vida, em 1978) e Fables of Faubus. Entre os 13 números dessas noites há ainda dois momentos de piano solo (sem título, terá sido improviso?) e, em sequência, no meio e repetidas no fim, Ko-Ko (Charlie Parker) e Cherokee (a composição do band leader inglês Ray Noble que Bird usou para criar sua Ko-Ko). Mas, esses são detalhes pescados na rede. Na memória do fotógrafo nada mais há para tirar. Parabéns, Charles Mingus Jr., cuja música continua viva e apaixonante.


Playlist AmaJazz Especial 100 anos de Charles Mingus

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