FalaJazz | Ithamara Koorax

“O jazz faz bem à alma, enriquece você espiritualmente”

Para ser lido ao som de Minha saudade, com Ithamara Koorax e João Donato
Foto: Sebastião Marinho/Divulgação
Foto: Sebastião Marinho/Divulgação

Ithamara Koorax – nascida na Niterói de Sérgio Mendes há 53 anos – é um daqueles mistérios musicais de uma artista que é mais conhecida no exterior do que em seu país. Neste ano, por exemplo, ela recebeu uma encomenda de produtores musicais da Coréia para que fizesse um disco em comemoração aos 60 anos da bossa nova a ser lançado somente no mercado asiático. Também participou de um disco do guitarrista japonês Mamoru Morishita, com quem já havia gravado há uns 10 anos, que deverá sair neste mês no Japão. E para o ano que vem, Ithamara prepara um novo disco, “mais para o jazz, mas também com Bach e Roberta Flack no repertório”, como ela explica. “Quando me interesso por uma música, passo meses cantando em casa pra ver se é um namoro sério. Se eu gosto, cogito incluir em algum disco”. E é sobre jazz (e de bossa, de world music, de parcerias e de tantas outras influências) que Ithamara fala bastante na entrevista a seguir. Fala aí, Ithamara!

O que há de jazz na tua música?
Isso é que é pergunta difícil… (risos). Muita coisa. Ou pouca. Depende do ponto de vista. Se o jazzófilo for “purista”, tradicionalista, talvez nada. O fraseado é o principal, o que motivou os críticos internacionais a me classificarem de “jazz singer”. Algo que eu fui aprimorando à medida em que ia convivendo e gravando com grandes jazzmen, como Ron Carter, Gonzalo Rubalcaba, Dave Brubeck, Larry Coryell, John McLaughlin. Curiosamente, dois dos meus discos mais “brasileiros” – Brazilian Butterfly e O Grande Amor – foram os mais elogiados pela Down Beat, recebendo 4 estrelas e 4 estrelas e meia respectivamente. Claro que há elementos jazzísticos nos arranjos, muito improviso, mas a base é brasileira. No Brazilian Butterfly eu canto Dorival Caymmi, Waldemar Henrique, Pixinguinha, a única música em inglês é Butterfly do Herbie Hancock. O disco O Grande Amor é todo cantado em português, apesar de gravado durante uma turnê europeia. Tem Baden Powell, Tom Jobim, Ary Barroso. À medida em que fui amadurecendo, me aproximei cada vez mais do jazz porque a minha paixão aumentava. Paixão por Miles, Lew Soloff, Freddie Hubbard, Art Farmer, Bob Berg, os Brecker Brothers, porque adoro instrumentos de sopro. Paixão por bateristas como Steve Gadd, Billy Higgins, Dom Um Romão e João Palma, com os quais aprendi a dividir, e por cantoras como Shirley Horn, Carmen McRae, Rachelle Ferrell, Dianne Reeves, Flora Purim, Tania Maria e Betty Carter.

Qual a importância do reconhecimento no exterior?
No exterior, grande. No Brasil, atrapalhou muito a minha carreira por causa da inveja e do rancor que isso desperta. Desde Carmen Miranda foi assim. Aconteceu também com Laurindo Almeida, Astrud Gilberto, Flora Purim, Tania Maria, muita gente. Então não teria como ser de outra forma comigo. Bonfá conversava bastante sobre isso. O Tom também tinha uma imensa mágoa de ser chamado de “americanizado”, embora às vezes disfarçasse bem. Para mim, em termos pessoais, emocionais, foi algo honroso. São dezenas de compilações nas quais minhas gravações estão ao lado das de Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Tony Bennett, Chet Baker, Bill Evans, Oscar Peterson, Milt Jackson. Essas coletâneas foram importantíssimas para difundir meu trabalho, foram lançadas, em sua maior parte pela Milestone e suas distribuidoras, numa época em que o formato CD estava no auge, os discos vendiam muito. É claro que as pessoas não compravam a compilação para ouvir minhas faixas. Mas, se uma em cada dez pessoas gostava, acabava se interessando pelo meu trabalho, ia comprar meu disco. Foi assim que a minha popularidade aumentou no exterior, na década passada. E não posso deixar de falar da alegria de ver meus discos recebendo críticas altamente positivas, geralmente com o mínimo de 4 estrelas, nas principais revistas de jazz do mundo: JazzTimes, Down Beat, Jazz ‘n’ More, Jazz People. Isso não tem preço.

A melhor saída para o músico brasileiro ainda é o aeroporto?
Talvez o aeroporto auditivo. Ser uma pessoa culturalmente globalizada é essencial. A melhor saída é se aprimorar sempre, estudar sempre, e principalmente ouvir música. Muita música. Só com conhecimento é possível evoluir artisticamente. O jazz faz bem à alma, enriquece você espiritualmente. O Tom Jobim era apaixonado por jazz, ninguém tem noção disso, ele evitava falar de jazz nas entrevistas porque era muito patrulhado. Mas adorava Ron Carter, Joe Henderson, Gerry Mulligan, Urbie Green, Hubert Laws. Além do Claus Ogerman, claro. Quer saber outro por quem ele tinha admiração imensa? Joe Pass! Aí a pessoa pode se perguntar: o que Tom Jobim, com aquele piano minimalista, gostava num guitarrista que costumava tocar mil notas por segundo? Exatamente esta diferença! Amar quem é diferente de você é um privilégio dos sábios. Outro que o Tom adorava: Oscar Peterson. Assim como o João Gilberto ouvia Gerry Mulligan, o jazzista preferido dele, Chet Baker, Clare Fischer e Hi-Lo’s. Eu convivi bastante com o João nos anos 90, numa fase em que ele estava apaixonado por Lalo Schifrin e Dave Grusin, com quem queria gravar um disco que quase aconteceu. Donato até hoje ouve Stan Kenton, Frank Rosolino e Shorty Rogers. Bonfá ouvia Barney Kessel, Tal Farlow, George Benson, Johnny Smith, Larry Coryell, John McLaughlin, e era adorado por eles. Dave Brubeck também me abriu muitas portas, mostrando meus discos para amigos e jornalistas. O Tom uma vez me falou o seguinte: “Esse negócio de fronteira na música é uma bobagem. Os homens ficam fazendo cercas, mas os pássaros ignoram tudo e passam por cima. Você é um pássaro, saia voando”. Segui o conselho dele. Cantei em mais de 20 países: França, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Sérvia, Bulgária, muitas turnês pela Suiça com o grupo do trompetista Peter Scharli, República Tcheca, Finlândia, Chipre etc. Sem falar dos EUA e da Ásia, claro.

Os que ouvem sua música estão próximas da bossa nova ou do jazz?
No exterior, são pessoas mais próximas do jazz. No Brasil é um público bem variado, que gosta prioritariamente de MPB. Por isso eu mantenho um cardápio de shows igualmente variado. Posso fazer um show focado em jazz, cantando Miles (All Blues) e Coltrane (Giant Steps), e na semana seguinte um tributo à minha madrinha artística Elizeth Cardoso. Ou mais pop-rock, com Jimi Hendrix (Up From The Skies) e Marvin Gaye (What’s Going On?) no repertório. Ou um concerto somente de música clássica, cantando Rachmaninoff, Debussy, Villa-Lobos, Claus Ogerman. Acho isso salutar, me faz exercitar minha versatilidade. Nunca tive preconceito em relação à nada, muito menos à música.

E como você harmoniza a música brasileira e o jazz?
Tem que ser algo bem dosado. Este ano, em Abril, lotei a Sala Baden Powell, no Rio de Janeiro, um local que tem 500 lugares, com o show em comemoração aos meus 30 anos de carreira. Então, num roteiro de 15 músicas, juntei jazz, MPB, bossa e minha formação clássica, cantando um tema de Bach. Depois cantei no Blue Note com João Donato e com meu próprio grupo, com casa lotada novamente em ambas as ocasiões. No meu show, como estava numa “casa de jazz”, foquei no estilo, cantei basicamente standards em inglês.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Nenhum pensamento

  1. Excelente entrevista….a diva Ithamara é minha cantora fenomenalmente predileta…quem pode (en)cantar melhor e com mais recursos do que ela? Quando ela diz: “Curiosamente, dois dos meus discos mais “brasileiros” – Brazilian Butterfly e O Grande Amor – foram os mais elogiados pela Down Beat, recebendo 4 estrelas e 4 estrelas e meia respectivamente”…sinceramente, na minha desimportante avaliação, penso que os elogios são maiores justamente por serem discos mais “brasileiros”, E ELA IDEM.

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