Se alguém perguntar por mim

Juarez Fonseca recupera duas entrevistas com Nara Leão – feitas num intervalo de três anos entre abril de 1978 e junho de 1981 – que mostram que, passados quase 30 anos da morte da cantora, ela ainda está por aí

Para ser lido ao som de Nara Leão em Amor nas Estrelas
Nara Leão por Juarez Fonseca
Nara Leão por Juarez Fonseca
Ontem, Juarez Fonseca, que também é o autor da foto acima, escreveu este texto sobre os acontecimentos que o aproximaram de Nara Leão.

A primeira vez que vi Nara Leão foi na noite de 17 de outubro de 1966 no palco do Cine Cacique. Era uma das atrações do Arquisamba, projeto do Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura da UFRGS. Ao lado dela, o show tinha Chico Buarque de Hollanda (ambos tinham recém vencido o Festival da Record com A Banda), Oscar Castro Neves, Quarteto em Cy e o Bossa Jazz Trio.  Em 1978, quando ela veio a Porto Alegre com o Projeto Pixinguinha fazendo dupla com Dominguinhos, a entrevistei pela primeira vez. Ficamos muito tempo conversando. Ao fim, eu disse que em breve iria ao Rio para assistir à Ópera do Malandro e perguntei a ela se tinha como fazer uma ponte com Chico Buarque, que eu pretendia entrevistar. Numa lauda do jornal, escreveu um bilhete para Marieta Severo, que guardo até hoje: “Marieta, Juarez é um amigo de Porto Alegre. Vê o que você pode fazer por ele”. Não precisei do bilhete, pois consegui entrevistar o Chico sem maiores problemas, no Teatro João Caetano. Em 1981, nova entrevista em nova visita de Nara a Porto Alegre (na biografia de Nara escrita por Sérgio Cabral, ele cita esta entrevista).  Me deu seu endereço e no ano seguinte, em uma viagem ao Rio pelo jornal, fui visitá-la. O último encontro foi durante a Festa Nacional do Disco, em Canela, em 1984. Sentamos em um banco ao lado do Hotel Laje de Pedra, de frente para o Vale do Quilombo e conversamos sobre generalidades, as famílias, os filhos, a música, o Brasil. Era uma pessoa fantástica. Sua morte, em 1989, me tocou fundo.

A seguir, as duas entrevistas na íntegra:

Nara Leão, 36 anos, ex-musa da Bossa Nova e da canção de protesto está, digamos, de volta ao público. A prova de que a mística continua foi a lotação diária do Salão de Atos da UFRGS, onde ela se apresentou até ontem com Dominguinhos no Projeto Pixinguinha e onde cantou inúmeras bossas, acompanhada somente por seu violão. Mas ela rejeita o rótulo de “mito”– acha que é uma invenção dos outros – e deixa claro que recém agora parece assumir a carreira de cantora, no sentido profissional, quase vinte anos depois de surgir. Não quer ser consumida como antes e, depois de um tempo meio afastada, começa a recuperar um certo prazer de cantar e tocar. Também acha (“não sei, posso mudar de ideia”) que não abandona mais a música. Nara também falou do que pretende fazer, do que mudou em sua vida, da falta de um movimento universitário que volte a promover a discussão e do público que está voltando a reconhecer.

Com o Projeto Pixinguinha, você voltou a se apresentar em vários lugares, a viajar. O que está sentindo, em termos de público e do próprio desenvolvimento de seu trabalho?
Eu sinto, nesta excursão, que o público é muito jovem. E é uma coisa agradável ver que as pessoas não estão nem curtindo o “mito” Nara Leão, nem curtindo o hit parade, porque não estou na moda ou no auge do sucesso e essas pessoas não me conheceram antes, não são fãs antigos. Então, acho muito interessante que elas realmente estejam gostando do show. Em Curitiba, teve um dia em que Dominguinhos foi aplaudido de pé por quase três mil pessoas, porque estavam gostando daquele momento do espetáculo, sem a ideia pré-concebida de “vou ver fulana, que significa isso”. É muito bom e importante, a gente sente uma receptividade ao trabalho e não ao mito.

A que você atribui o fato de um novo público estar lotando teatros para ver Milton Nascimento, Hermeto Pascoal, Egberto Gismonti, e não apenas para ver cartazes óbvios, como numa época foi o Simonal?
Por que está acontecendo eu não sei, mas é uma boa surpresa. Eu não sabia o que esperar do Projeto Pixinguinha, por exemplo. Quando voltei a cantar… Quer dizer, eu nunca parei, propriamente. Ou se parei, vou parar de novo, porque o meu ritmo é esse, você está entendendo? Eu mesma achava que tinha parado, de tanto perguntarem “mas você parou?”… Então eu parei. Em 1972, quando voltei da Europa, fiz um filme, depois outro, teve o LP Quando o Carnaval Chegar, com Chico Buarque e Maria Bethânia; em Paris gravei o Dez Anos Depois, que é um disco de bossa nova. Sempre fui fazendo coisas. Um show com o Fagner num teatro, outro na boate Flag. Mas o meu ritmo é bastante comedido, vamos dizer assim. Agora estou começando a reformular o que penso a meu respeito. Não parei, acho que fui no meu ritmo, que não é o dos outros, só isso. Então me falei “vou dar uma cantada este ano, ver como é que estão as coisas”, muito por curiosidade também. Cantei em vários lugares, até em uma churrascaria na Via Dutra. Cantei na Concha Verde, aí já para um público bastante jovem, e estou no Projeto Pixinguinha com o Dominguinhos. Quis ver como estava a receptividade dos vários públicos em relação a mim, à música que eu canto e à música brasileira em geral.

Você falou no mito. No comentário que escrevi sobre o show do Projeto Pixinguinha, mencionei essa condição sua, e não senti nenhum problema de distância diante disso.
Isso porque você não é um mito, mas quando se é o próprio, é horrível, a gente se sente meio “cadê eu dentro disso, cadê minha pessoa, meu trabalho dentro desse troço? O mito não sou eu, será que sou eu?”… Talvez, daqui a pouco, eu até consiga integrar o mito, mas não me convenço de que sou um mito, acho que é uma invenção dos outros, e que eu desapareço dentro disso, entende?

Não considero o mito como algo inatingível, à parte de tudo. Essa sua condição me parece relacionada ao fato de que você representa, simbolicamente, algumas coisas da trajetória da música brasileira dos anos 1960 para cá. No seu caso, não vejo o mito como algo distante do público, mas como uma referência.
É bom você me dizer, porque eu acho que também tenho que pensar um pouco nisso. Sempre tive dificuldades, por exemplo, para juntar a cantora à pessoa. Em vez de achar que era algo a mais que eu tinha, que cantava e tocava violão, tanto podia ser para três mil pessoas como para duas, eu achava que era uma coisa extra e tinha dificuldade de integrar isso. Agora, acho que estou conseguindo, mas ainda é uma coisa estranha, que me mete medo…

Talvez por você se diferenciar do artista em geral, quase sempre alguém que fica anos batalhando pelo sucesso, até que um dia consegue. Você já tem um senso mais profissional da carreira?
Estou passando a ter agora, começando vagamente a achar que pode ser que eu vire cantora…

Projetando um pouco, que ideia você tem a respeito disso?
Eu tinha abandonado completamente o violão, por exemplo, que é uma coisa que gosto muito, me sinto muito bem em cantar e tocar, mais do que só cantar. E enfiei o meu violão no alto de um armário, que tinha que pegar uma escada pra chegar nele, entende? Deu uma neura lá qualquer… Mas agora eu pretendo – aliás, já estou fazendo isso – estudar violão e ficar preparada para cantar, mas muito no sentido de que eu acho: eu acho, não sei, posso mudar de ideia, que não abandono mais a música. Isso não quer dizer que vá cair na estrada em turnês, pretendo cantar pouco. Uma das coisas que me fez parar foi o excessivo sucesso, a falta de sossego, não poder ir a um restaurante, ter que ficar trancada nos quartos de hotel enquanto trabalhava. Hoje saí na rua e algumas pessoas me reconheceram, mas foi uma coisa bastante tranquila. Quando tinha gente me agarrando e eu não podia fazer nada, não dava pé. Outra coisa é que eu tinha que estar sempre lançando coisas novas, porque eu mesmo me pus nessa posição de “sou uma descobridora de pessoas, não sou cantora, mas uma repórter que dá um recado”, de tal maneira que essa busca me fazia não ter tempo, por exemplo, para pegar um disco do Caetano, ou do Chico, ou da Gal, e pensar “que música bonita, quero pegar essa para cantar”.

E ouve coisas novas?
Claro, peço a todos os compositores que encontro que mandem fitas, para eu saber o que está se passando em matéria de música. Mas não estou mais naquela coisa de que tem que ser o meu lançamento, eu com as inéditas… Aí realmente perde a graça, tem uma hora que você não aguenta mais fazer só isso. Então, estou recuperando a música para mim, tendo certo prazer de tocar e cantar para mim, pros meus amigos e, eventualmente, para o público. Depois dessa excursão, ainda tenho Recife e Salvador, no segundo semestre, três fins de semana e acabou, não canto mais neste ano. No próximo, não sei se vou me apresentar: pretendo estudar violão, cantar melhor, ouvir coisas novas, mas dentro de um ritmo que tem que ser o meu. No Brasil, o ritmo é meio alucinante, você tem que cantar o tempo todo, estar sempre numa produtividade. Não dá, preciso um ritmo diferente. Eu percebo que preciso de um tempo de inspiração, além do tempo de expiração: tenho que ter um tempo para mim, interno, para poder pensar nas coisas.

Você está fazendo o curso de Psicologia. O que pretende com isso?
Sabe que eu também não sei? Estou no quarto ano, gosto muito, há anos que tinha vontade de estudar. Fiz alguns cursos quando estive em Paris e sempre li muito sobre psicanálise e psicologia, assuntos que me interessam. Resolvi entrar na faculdade por achar que teria mais um lugar, um espaço onde pudesse discutir os assuntos que me interessavam. O curso me deu alguma coisa, embora bem menos do que eu supunha que daria…

Como você vê novos nomes como Fagner, Belchior, com linguagens independentes do padrão Rio-São Paulo?
Acho que seria importante os novos músicos fazerem movimento nos seus próprios locais. Além de irem para o Rio tentar a sorte, seria importante que houvesse primeiro grupos fazendo coisas e mostrando o seu trabalho, valorizando o seu trabalho regionalmente. Parece que o Projeto Pixinguinha terá o Projeto Vitrine, que vai mostrar um artista já conhecido e um artista novo, do local. Inclusive ontem, numa entrevista, perguntaram se eu não achava uma falha do Projeto, uma espécie de imperialismo cultural de Rio e São Paulo sobre as outras capitais. Isso pode ser uma falha, sim, mas parece que eles pretendem fazer uma outra coisa com o Vitrine. Eu sei que aqui em Porto Alegre tem uma gravadora, em Curitiba também parece que tem uma, quer dizer, as coisas também têm que sair do Centro. Mas aí é difícil, é todo um problema de economia, de um imperialismo dentro do próprio Brasil. O Rio Grande do Sul parece bastante desenvolvido, pode ter o seu próprio teatro, sua música, sua gravadora, e mandar ver. Vocês podem fazer uma música moderna, mas que tenha a ver com os fatos regionais. O próprio Caetano Veloso faz isso.

Parte da juventude e da imprensa tem contestado a posição de Caetano e Gil. Nas épocas da Bossa Nova e do Tropicalismo, os ídolos mais ou menos correspondiam ao seu público, cronologicamente. Por que a juventude atual não tem ídolos com o peso dos que havia antes, dentro de sua faixa etária?
Isso não é culpa de Caetano ou Gil, não é culpa dos ídolos, que eles são muito talentosos. Se não está havendo uma música da juventude para a juventude, o problema ou é da juventude ou é dos problemas que a juventude enfrenta. Você não tem um movimento universitário, no sentido de diretórios que se reúnam para fazer shows, discutir livremente, debater coisas. Então tem todo um problema muito ligado à universidade, que impede que se reúna, se discuta, se fale. Existe um certo cinza em matéria de informações, livros que não chegam, a repressão geral. E também há um certo tipo de repressão velada, sutil, que impede as pessoas de se manifestarem.

Você sente que há uma tentativa de se voltar a dizer algumas coisas?
Eu acho que todo mundo deve se manifestar: mas projetar os seus desejos em nós, artistas, querendo que a gente os cumpra, não dá pé. Querer que a gente faça as coisas enquanto eles são espectadores, não pode ser. Então, quando o Caetano deu aquelas declarações, houve um grande rebu. Mas Caetano não é um reacionário. Só o comportamento dele já mostra que não é uma pessoa acomodada. Também gosto muito do Belchior, mas quando ele fala certas coisas eu não concordo, acho injusto ele criticar o Caetano. E acho que o Caetano foi acusado pela imprensa, que às vezes lhe coloca diante de uma parede tal, lhe provoca de tal maneira a dar uma declaração, que não está certo. Certo tipo de declaração a gente deve escolher o momento para dar. A gente, não o repórter que vai provocar, entende? Então, acho que o Caetano se defendeu, disse “agora não é o meu momento de falar”, é um direito que ele tem. Porque você também não pode passar a palavra para o mito, ou o ídolo, ou a pessoa famosa. Acho que há um investimento excessivo na pessoa que está em cena, ela fala e todos os outros ficam satisfeitos… Essa é uma critica que a gente poderia fazer até mesmo à canção de protesto, que eu fiz, faço e concordo. Porém, ao mesmo tempo em que ela faz a cabeça das pessoas e abre os olhos de muita gente, não vai resolver todos os problemas. Porque metade do teatro sai dali com ideias mais claras e metade diz “que bom que eles estão fazendo por nós”, e vai para casa dormir.

As pessoas têm cobrado alguma coisa de você?
Têm. Por exemplo, me cobraram por que eu estou cantando Tigresa, que é uma “música reacionária”.

Sempre os velhos rótulos…
Também acho. É uma análise muito preconceituosa e muito careta das coisas. Acho uma música linda, e nada reacionária.

No show, senti falta de piano, contrabaixo, um grupo para te acompanhar. Você tem uma voz fininha, macia… nunca pensou em cantar com uma banda forte atrás?
Não, minha tendência é cada vez mais cantar com menos coisa, uma flauta e um violão, só um violão, ou sem nada. Na verdade, minha voz não é tão pequena assim quanto parece: se você for lá meia hora antes,quando estou fazendo os exercícios, vai ouvir na outra esquina. Mas gosto de cantar assim. Se eu me empenhasse…

Poderia gritar…
Poderia, mas não gosto. Curto é João Gilberto, Caetano, que está cantando maravilhosamente bem.

Parece incrível, mas foram necessários 20 anos para que a imprensa brasileira passasse a considerar João Gilberto um gênio, uma figura de fundamental importância no processo de evolução de nossa música. No dia-a-dia, o que você tem transado? Vai a shows?
Olha, encontrei outro dia o Milton Nascimento, de quem gosto muito. Vejo Chico, Caetano…não vejo muita gente, porque tenho uma vida meio recolhida, acho até que deveria ser menos. Eu estudo à tarde, de manhã saio com meus filhos, aquele programa de mãe mesmo. Acordo cedo, então não consigo transar muito a noite. Claro, de vez em quando eu durmo tarde, mas o meu ritmo é acordar às sete da manhã. Daí, não vejo muita gente, mas agora acho que quero ver mais, sair um pouco da toca, estou com vontade…

Segunda entrevista

De uma maneira ou de outra, Nara Leão está sempre de volta. Mesmo que saia do ar por algum tempo, é sempre lembrada, amada e curtida pela geração da bossa nova e até pelas crianças, para quem gravou um disco. Ela acha brutalizado o mundo mas admite que ele melhorou em certos aspectos, inclusive para a mulher, que já não precisa mais fazer do casamento uma loteria para tentar resolver problemas sexuais ou financeiros. A Nara atual é uma pessoa madura, disposta a colocar a sua carreira artística à frente dos estudos de Psicologia. “A minha necessidade é cantar coisas que correspondem à necessidade de outras pessoas ouvirem”, diz a cantora cujo último trabalho é o LP Romance Popular, dedicado a compositores nordestinos. Depois da bossa nova e do antológico show Opinião, ela se casou com o cineasta Cacá Diegues e, após a separação, ressurgiu no hit parade com o disco Com Açúcar, Com Afeto, destacando canções de Chico Buarque. Um retorno à música, que ela deixara meio de lado para cursar a faculdade. Mãe de dois filhos – Isabel (10) e Francisco (9), aos 39 anos ela tem ainda um jeito tímido. Voz rouca, miúda, esteve doente por algum tempo e agora diz que “está boazinha”, anunciando um show depois de três anos afastada dos palcos. Depois da estreia, dia 7 de agosto no Tuca (Teatro da Universidade Católica) em São Paulo, ela vem a Porto Alegre. Robertinho do Recife tem participação especial no espetáculo, composto de músicas do repertório da cantora para adultos e crianças.

A carreira musical é sempre uma batalha enorme, principalmente no início, mas você parece encarar a coisa mais como diversão e hobby do que trabalho.

Talvez você pergunte isso porque não faço muitos shows. Na verdade, eu tinha decidido ser psicóloga mas agora vou ser uma cantora que estuda só de vez em quando. Apesar de ter feito sempre o que quis, também batalhei no sentido de impor o que eu queria. A cada trabalho, os críticos e uma série de pessoas querem que eu permaneça dentro de certa imagem, ainda que o público nunca tenha se importado muito com isso, pois continuou comprando os meus discos. Acho que esse é um problema humano: você não pode mudar, as pessoas gostam de ver as coisas estáticas. Outro dia, alguém disse: “Eu faço o que posso”. No meu caso, normalmente faço o que eu quero. De certa forma, as coisas foram fáceis para mim, afinal eu fazia parte de um grupo de bossa nova, tinha amigos como Tom, Vinícius, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra. Depois combinaram de fazer o show Opinião. Outro dia ouvi um executivo da gravadora dizendo que determinada cantora nova devia viajar se apresentando com os músicos em cada cidade. Ora, eu sempre fiz isso! Como não gostava que cinco profissionais dependessem de mim para sustentar suas famílias, sempre preferi me apresentar com o pessoal dos lugares. Hoje nenhuma cantora quer fazer isso, todo mundo quer muita facilidade, começar como estrela. No nosso tempo, a gente quase pagava para cantar.

Os tempos mudaram. Naquela época da bossa nova, começava a haver um show business forte no Brasil. Então, se uma pessoa não apresenta um trabalho profissional ninguém acredita nela?
Sim, mas esse artista novo já teria a ajuda da gravadora, que pagaria passagem, hotel, teria que cantar pelo menos por seis meses, fazendo um giro pelo Brasil. A gente fazia isso. Não sei se estou sendo reacionária, mas vejo coisas inacreditáveis de novas cantoras, de um estrelismo… Depois de dois dias, são verdadeiros astros que se sentem superiores. Tem muita gente que se coloca num pedestal, é um espanto! Somos seres normais que têm uma série de privilégios, enquanto muita gente batalha salário-mínimo.

Você chegou a terminar o curso de Psicologia?
Falta um ano e meio.

O que você esperava, ao interromper a carreira para ser psicóloga?
Eu tenho certa fascinação pela loucura, então fui estudar para entender melhor o que é isso, qual o funcionamento mental das pessoas. E foi muito interessante o curso. A história da loucura e de como ela tem sido vista ao longo do tempo. O louco pode ser um Iluminado e ser encarcerado. Estudei tanto sobre o tema e é muito difícil entender. De qualquer forma, também me parece que é uma saída pra o mundo brutalizado em que a gente vive e nem sempre aguenta. Eu esperava compreender o processo, porque acho que somos todos um pouco loucos e um pouco sensatos. Aquela música do Fagner com o Ferreira Gullar diz muito bem isso: “Uma parte de mim almoça e janta, outra parte delira”. E também pretendia ajudar a aliviar o sofrimento das pessoas porque eu sempre tive um pouco de “joanadarquismo” de quero melhorar o mundo. Por isso é que tive tanta satisfação em cantar música de protesto. E a insatisfação que tenho com o cantar é que não vejo muito de perto em que estou melhorando, se bem que já é alguma coisa o fato de certas pessoas me dizerem que saíram da fossa com a minha música. Mas eu queria fazer um trabalho social, em que eu visse mais diretamente que estava melhorando um pouco esse mundo doido em que a gente vive.

Há três anos, conversamos sobre a manifestação feminina, a revolução sexual e outros temas. Desde então, muita coisa mudou. Como hoje você vê a liberação feminina e tudo o que tem mudado com tamanha rapidez?
Os valores eram furados e mudaram. Acho importante saber que o casamento hoje não é a saída. Uma mulher já não vai se casar para resolver um problema econômico ou sexual, mas se ligar a um homem porque gosta da sua companhia. Ela tinha um papel determinado, era mulher e não um indivíduo. O homem sempre foi mais livre e teve maiores chances. Do ponto de vista individual, a mulher começa a ter mais liberdade. Mas acho que nada substitui uma relação afetiva.

E a amizade colorida?
É um modismo e parece que o homem sempre usou desse privilégio da “amizade colorida”. As moças ficavam em casa esperando o telefonema, o cara saía com várias e a menina ficava lá com aquele namorado. Eu não vivo esse tipo de relação, mas acho legal, um passo à frente para se chegar a alguma coisa. Não tenho conversado com pessoas que têm esse tipo de relação mas fiquei com vontade de falar com alguém que viva assim para saber como é que é. Acho que há a vantagem de ela poder encontrar mais facilmente uma pessoa e isso é melhor do que ficar em casa num sábado à noite vendo televisão sozinha. Assim como um homem vai a um botequim e tem dez mulheres com quem ele pode olhar e convidar para um chope, a mulher também tem esta possibilidade, se isso for real.

A modificação do comportamento feminino tem modificado o comportamento masculino, fazendo com que o homem assuma um comportamento diferente em relação à nova mulher. Na sua visão, como o establishment está vendo esse tipo de coisa?
Acho que mal. O sistema sempre quer fazer com que as coisas fiquem estáticas. O que os maridos têm matado de mulheres não é normal! Elas são objeto, propriedade. É inacreditável que uma mulher diga que não quer viver mais com um homem e isso não signifique nada. Ele não se sente mal com isso? É até falta de amor-próprio… Se eu disser que não quero mais a pessoa falar que os valores que mudaram eram furados, eu saio correndo! Mas os homens têm isso, é como se a mulher não existisse, não tivesse desejos, no sentido de ser sujeito. Não sei se são os homens da nova geração que estão matando as mulheres, mas acho que eles ainda não aceitam muito bem a questão.

O medo do ridículo, de serem chamados de “corno”…
Eu Ii uma entrevista do Daniel Filho na Manchete, sobre aquela história dele com a Betty Faria, dizendo “Eu fui o corno do ano”. Ele falou com tanta honestidade, que achei incrível como alguém pode ser tão despojado, pareceu uma outra colocação, tipo “Estou vivendo uma tragédia pessoal”.

De fato, muitas coisas estão sendo psicanalisadas, por psicanalistas ou não… Qual a idade dos seus filhos?
Eles têm 10 e 9 anos.

E o que vai acontecer daqui a algum tempo, quando a menina chegar em casa e dizer “não sou mais virgem” ou “tive uma relação sexual”?
Olha, não vai acontecer nada. Eu espero que ela já esteja amadurecida, ao menos fisicamente. Eu não entendo bem de fisiologia mas sei que tem uma idadezinha mais adequada, deve ser 13 anos, 15 anos, então espero que seja nessa idade, com uma pessoa que ela goste e que goste dela. O meu desejo é isso seja uma coisa boa, que ela não sofra.

Isso já é uma coisa estabelecida na sua cabeça? Você não alimenta mais esse tipo de preconceito, nem lá no fundinho, de que a mulher tem que “casar direitinho”?
De jeito nenhum! Sou capaz de ter mais preconceito comigo do que com a minha filha. O meu desejo é que, se ela tiver uma relação, que seja com uma pessoa que goste dela. A primeira relação é uma coisa importante, pode ser boa ou traumatizante. Eu realmente espero que seja legal, de preferência que estude com ela ou um amigo. Que não seja uma pessoa muito mais velha ou muito mais moça, que não tenha uma grande diferença psicológica, emocional ou física, entende? Só isso…

Você educa os filhos de uma maneira bem aberta, sem qualquer tipo de lençol em cima de tudo?
Eles perguntam muito pouco e eu sempre respondo. Mas não puxo assunto, espero que me perguntem coisas de acordo com a necessidade. Mas eles têm uma convivência com pessoas da mesma idade no colégio, então estão sabendo das coisas. E a televisão e os jornais também mostram tudo.

(As duas entrevistas foram cedidas pelo autor e publicadas em ZH nos dias 29 abril 1978 e 28 de junho de 1981)

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