O cometa Ana Mazzotti

Lucio Brancato lembra a curta trajetória de uma grande pianista ainda hoje pouco reconhecida

Para ser lido ao som de Ana Mazzotti em Ninguém vai me Segurar

Fotos da página dedicada a Ana Mazzotti no Facebook

Quando vemos um cometa na nossa órbita sabemos que ele percorreu um longo caminho, mas o que os nossos olhos assistem é o seu último brilho antes de se dissipar. Assim foi a trajetória da gaúcha nascida em 1950, em Caxias do Sul, Ana Mazzotti.

O começo de sua vida musical já é assombroso. Aos seis anos tocava harmônio nas missas de Bento Gonçalves, cidade para onde a família se mudou quando Ana tinha três anos de idade. Com oito, ela inicia os estudos de acordeom e participa como cantora no coral da igreja. Já com dez acompanhava cantores líricos tocando órgão em casamentos. Aos quatorze anos, assume como organista oficial do coral da igreja. Com apenas dezoito anos, já era regente de seis corais na região de Bento.

Apesar de uma formação musical voltada para regência e coro, não escapou do impacto que um quarteto de Liverpool imprimiu em todos os jovens dos anos 60. Ainda na escola só para meninas, o Colégio Medianeira, formou um trio de meninas que interpretava as canções dos Beatles. A partir deste momento ela começa como crooner do Conjunto Merseybeat, grupo que ja se apresentava na região tocando rock inglês e também covers de Mutantes.

Segundo depoimentos no documentário Sou Ana Mazzotti (2017) ela foi a responsável pela beatlemania na Serra gaúcha sendo a responsável em apresentar para toda gurizada o som dos Fab4. Porém, antes de seguir o rumo dos conjuntos de bailes da época, Ana aparece no seu primeiro registro fonográfico. No álbum Coral Bento-Gonçalvense e Arpège Show (1971) ela é regente do coral e também faz backing vocal numa das faixas do Conjunto Arpège. Uma curiosidade: este LP é hoje avaliado em R$ 378 de acordo com o Discog, o maior portal de avaliação de discos da atualidade.

Em meio a onda de festivais de música que pipocavam em todos os cantos do país acontece na sua cidade o Segundo Encontro Bento-Gonçalvense da Canção, em 1971. Além de vencer com sua composição Bairro Negro ela conhece uma figura fundamental na sua carreira, o baterista Romildo Teixeira Santos, com quem se casa cinco meses depois. Romildo participava do festival com uma banda. Antes já circulava pelos palcos do Brasil como integrante do Quarteto Novo do Hermeto Pascoal, onde substituiu ninguém menos que Airto Moreira.

A parceria logo se transformou em música. Juntos criaram o Conjunto Desenvolvimento que ficou famoso no circuito de bailes pelo interior do Estado até se mudarem de vez para Porto Alegre onde montaram sua base morando no Hotel Majestic. Tinham como diferencial um equipamento de som que poucos conseguiam ter no mercado e o ainda curioso fato de uma mulher como crooner e tecladista. Protagonistas nos bailes da Sogipa e da Reitoria da UFRGS ganhavam o público e  todos os concursos musicais entre 1972 e 1973 onde foram premiados como Melhor Formação Musical do Sul e também foram escolhidos pelo colunista Saul Jr. como Melhor Conjunto do Ano, em 1973.

Segundo o músico Milton Krug, que assistiu alguns destes bailes, muitas vezes o baile parava porque todo mundo ficava assistindo como se estivessem num show. O grupo era também frequente como “banda da casa” no lendário Encouraçado Butikin, em Porto Alegre, e teve até destaque na coluna da Célia Ribeiro que abria a manchete assim: “De Caxias para o Encouraçado Butikin. Esta menina vai longe”. E foi.

Em 1974, com o fim do Conjunto Desenvolvimento, Ana parte para São Paulo e Rio de Janeiro junto com o marido buscando novas aventuras musicais. Com a produção de Romildo, grava o seu primeiro LP de forma independente (uma das primeiras produções do gênero no país) no famoso Estudio Hawaii, berço de grandes discos de artistas como Elza Soares, Novos Baianos, Nara Leão, Jair Rodrigues. Na ocasião o grupo Azymuth gravava seu primeiro disco no mesmo estúdio e acabou colaborando como banda-base neste primeiro álbum de Ana Mazzotti. Numa época onde os artistas dependiam da força de uma gravadora para “estourar”, o álbum independente não teve grande circulação e pouco rodou nas rádios. Foi apenas três anos depois, em 1977, que ela ganha uma atenção maior quando foi regravado com novos arranjos o mesmo álbum saindo agora pela GTA (Gravações Tupi Associadas) onde a música Canto de Meditação emplaca na trilha da novela O Profeta da TV Tupi.

Nos anos seguintes tocou em praticamente todas casas de shows do Rio de Janeiro e de São Paulo seguindo cade vez mais a fusão da música brasileira com o jazz.

Em 1982 ela se apresenta no Festival de Verão do Guarujá. O show vira disco que é lançado no mesmo ano. Aqui ela já aparece mais solista e também apresenta letras fortes como em Blues Pros Bicos onde canta sua insatisfação com os padrões musicais da época (Não vou ficar calada/ Não vou ficar pra trás/ Eu vou topar a parada/ E dizer para com isso/ Afina rapaz/ Aprende harmonia/ Não cante se não for capaz).

Outro destaque no álbum é a música Grand Chick. Ela conheceu Chick Corea um ano antes quando o músico tocou no Brasil com o Gary Burton e compôs em homenagem a ele. Corea ouviu a música e, em fevereiro de 1983, enviou uma carta para Ana onde dizia: “Você é uma compositora maravilhosa. Os arranjos do Trio são maravilhosos! Sim, você deve levar esta música para mais gente”.

Insatisfeita com a falta de reconhecimento e uma constante comparação com o timbre da Elis Regina ela resolve seguir um dos conselhos do Chick Corea e começa a programar sua ida para Nova York. O jornal O Globo destaca em junho de 1987 que Ana Mazzotti dá adeus a Brasil e conta que a artista planejava uma tour pelos Estados Unidos nos próximos meses.

A trajetória deste cometa Mazzotti foi interrompida e a tour nunca aconteceu. Em janeiro de 1988, com 37 anos de idade, ela faleceu vítima de um câncer no pulmão e no cérebro.

Sua obra virou cult e obra de desejo de colecionadores de música brasileira pelo mundo. Um dos maiores entusiastas é o DJ e produtor musical inglês, Joe Davis, dono do selo Far Out Records, que acaba de reeditar em LP seus discos de 1974 e 1977. 

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