Foi pensando em você…

João Carlos Rodrigues escreve sobre a saudade que sente de Carmen Costa, do seu belo canto e da sua complexa personalidade

Para ser ouvido ao som de Carmen Costa em Tantos Caminhos

Muitas vezes assisti Carmen Costa (1920-2007) em pessoa. Num teatro repleto hipnotizando a plateia cantando à luz de velas. Num bar fuleiro com meia dúzia de espectadores. Nas rodas de samba do teatro Opinião e também comandando uma mini procissão de São Jorge dentro do salão da gafieira Elite. Animando o carnaval gay do teatro São José. Cantando músicas sacras na Igreja de São José, no Centro do Rio. Se vamos falar dela, uma das grandes Cantoras do Rádio, uma das primeiras pretas a alcançar o estrelato no Brasil, é preciso ser pelo começo, mesmo que a maior parte da sua trajetória já seja bem documentada e disponível na internet.

Vamos lá. Nasceu Carmelita Madriaga em Trajano de Moraes pequena cidade da região serrana do estado do Rio de Janeiro, filha de um espanhol e uma preta. Atividade rural. Pouco estudo, mas evidente inteligência. Copeira na casa do cantor Francisco Alves aos 18 anos. Numa festa, foi incentivada pelo patrão e por Carmen Miranda. Aprovada no exigente programa de calouros do Ary Barroso. Aos 19 tornou-se profissional em dupla com Henricão, cantor, compositor e ator com quem manteve um relacionamento amoroso. Ele a batizou Carmen Costa. A dupla durou três anos e fez grande sucesso com a versão da mexicana Cielito Lindo rebatizada Tá chegando a hora, que até hoje fecha os bailes de carnaval em todo país. Aqui temos uma efeméride interessante. Por ser uma música estrangeira “roubada”, no início nenhuma gravadora aceitou e Henricão e Carmen Costa lançaram então o primeiro disco independente brasileiro. Dado ao sucesso, a RCA Victor bancou a nova gravação. O ano foi 1941.

Em 1945, já cantora solo, Carmen casou-se com Hans Koehler, cidadão americano, branco, e se mudou para os Estados Unidos. Em 1949 estava de volta ao Rio. Em 1953 na boate Plaza conheceu o baterista, compositor e cantor Mirabeau Pinheiro, por quem se apaixonou e com quem teve um relacionamento de cinco anos, que produziu uma filha, Silésia. Ambos eram casados e a coisa caiu nas garras da imprensa sensacionalista. Em torno da situação ela gravou Eu sou a outra, assinada por Ricardo Galeno mas quase certamente com ela na parceria, um grande sucesso, o hino das amantes e concubinas. Carmen também foi compositora, muitas vezes com o pseudônimo Dom Madrid e foi parceira não creditada nos muitos sucessos com Mirabeau: Quase, ObsessãoManchetes de Jornal e vários outros.

Todo esse excelente período de sua carreira pode ser muito bem ouvido e pesquisado neste site

Discriminada como adúltera preferiu voltar para os Estados Unidos com a filha a tiracolo. Separada do marido teve vários empregos menores, inclusive numa fábrica de prensar discos. Reaparece em 1962 no famoso concerto da bossa nova no Carnegie Hall. Não fazia parte do movimento, era basicamente uma sambista, mas se apresentou acompanhada pelo violonista Bola Sete e o percussionista José Paulo e cantou de sua autoria Bossa Nova New York, uma bobagem para enganar gringo. A tchurma bossanovista não curtiu a estranha no ninho e o disco quando foi lançado no Brasil omitiu a faixa, presente na edição americana. Desses bastidores há uma historinha boa, que ouvi nas versões dos dois protagonistas. Vamos lá: meia hora antes da cortina abrir João Gilberto deu um piti e ameaçou não entrar em cena porque sua calça estava sem vinco. A cônsul do Brasil Dora Vasconcelos (parceira do Villa Lobos em A Floresta Amazônica) insinuou que a Carmen tinha cara de quem sabia passar roupa muito bem. La Madriaga peitou respondendo que só por que era preta não tinha obrigação de passar a roupa de ninguém. Bate-boca. Depois de meia hora de confabulações secretas com o João Gilberto ela passou e o show pôde continuar.

Aqui chegamos a uma fase pouco conhecida da carreira de Carmen Costa. Apesar de tudo, por causa dessa noite ela foi convidada para participações em discos de grandes músicos de jazz. Ainda em 1962 no álbum Skin do percussionista Mongo Santamaria ela canta Tumba Lelê, samba de Milton Neves, Jarbas Reis e Francisco Neto. O pianista é Chick Corea. No mesmo ano grava A noite do meu bem (Dolores Duran) no disco The bossa nova sound of Ramsey Lewis Trio. No ano seguinte com Lionel Hampton (disco The Bossa Nova Jazz) temos Palhaçada (Haroldo Barbosa e Luis Reis), a regravação de Bossa Nova New York e a participação como percussionista em outras faixas. Também em 1963 foi percussionista no disco de Dizzy Gillespie New Wave e nele cantou Pergunte ao João/Ask John (Milton Costa). O piano aqui foi Lalo Schifrin. Infelizmente essa carreira americana não vingou, apesar do sucesso das apresentações pessoais. Quando Gillespie esteve no Brasil para o Festival de Jazz perguntou por ela numa reportagem no JB mas ninguém teve a inteligência de colocar os dois em contato, morava ali na esquina. Já fomos melhores.

Em 1966 outra surpresa internacional: Carmen Costa en Mexico. Muito bem produzido e com repertório Tom e Vinicius (BerimbauSamba em PrelúdioÁgua de BeberEu sei que vou te AmarChega de Saudade – em versões nem sempre boas) e Ataulfo Alves (Na Cadência do Samba), além de alguns boleros. A grande faixa é Se te Olvidas/La Mentira (Alvaro Carrillo), uma de suas melhores interpretações.

Os dois discos brasileiros dessa época (A Embaixatriz do Samba, de 1964, e Tem Ziriguidum no Sambão, de 1970) são inexpressivos. Mas a partir de 1973 a carreira de Carmen Costa recobra qualidade e conteúdo. Tudo o que faz é bom. 30 Anos Depois (1973), A Música de Paulo Vanzolini (1974 com Paulo Marques), Seis e Meia no Teatro João Caetano (1980 ao vivo com Agnaldo Timóteo), A Dama do Cabaré (1981 com Meirelles), Benditos, Hinos e Ladainhas (1983 ao vivo no Outeiro da Glória com Paulo Moura, Wagner Tiso, Mauro Senise, Raul Mascarenhas e Chico Batera) e Tantos Caminhos (1996). Sua última gravação foi em 1999 no songbook de João Donato onde canta Sambolero, parceria dos dois. (Curiosidade: no disco do Mongo Santamaria em que ela participou em 1962 essa música é apenas instrumental, Donato participou de outra faixa, os dois se conheceram no estúdio e ela fez a letra, gravada 37 anos depois). Nos intervalos foi muito ativa em shows, também na tv e até mesmo nas rádios AM onde comparecia toda manhã para conversar com o público. Há muita coisa boa dela no youtube, coisa boa, é só procurar.

Em 1986 Carmen Costa entrou na minha vida. Propus à Fundação Rio a realização de vídeos documentários sobre as cantoras do rádio, meio afastadas, mas ainda em plena capacidade. Para integrar a rede de bibliotecas públicas do estado (gestão Leonel Brizola/Darcy Ribeiro). Eu dirigiria o da Carmen, o Orlando Senna o da Marlene, o Ivan Cardoso o da Emilinha e o Guilherme Almeida Prado o da Araci de Almeida. Na hora H só saiu parte da grana e resolvi desistir do projeto. Por algum motivo burocrático não era mais possível e tive de dirigir todos. Araci não topou e foi substituída pela Isaurinha Garcia. E acrescentei Ademilde Fonseca. Esses vídeos existem ainda e compartilhei os melhores números no youtube. Era um esquema apertado: três dias de gravação, sendo um deles um show ao vivo com pelo menos uma música inédita na voz da cantora. Imagem e iluminação a cargo do Hélio Silva e equipe de produção J. B. Tanko filmes.

O da Carmen se chama Coração Santo e é baseado na dicotomia da mulher boêmia (os números na gafieira) e da santa (os números sacros no Outeiro da Glória), costurados por um depoimento biográfico detalhado. Era na realidade minha primeira direção mais caprichada, pois a anterior (Punk Molotov de 1985) levara dois anos para completar e fora produzida do meu próprio bolso.

Ela topou logo, mas como me avisaram o Antonio Crisóstomo e a Tereza Aragão, era rebelde e geniosa. Por exemplo: combinava um repertório e na hora queria mudar. Tentou impingir novas composições de sua autoria, mas não eram tão boas como as anteriores. Implicou com a maquiador. Brigou com a encarregada da produção e também torceu a cara para mim nos ensaios. Me levou a um estranho centro umbandista no Jacarezinho chamado A Lei da Cruz para me benzer, mas me recusei, achei um pouco demais. No dia parou a orquestra e mandou afinar um instrumento. Estava com a razão. Era ressentida e podia ser áspera como ninguém, quase rabugenta. Parece que seu apelido entre as cantoras de sua geração era “dona Encrenca” ou “dona Divergência”. Tudo a ver.

Durante as filmagens no entanto foi uma perfeita profissional e como seu desempenho é sempre de alta qualidade, o resultado saiu bem bom. A estreia foi no Fest Rio no Hotel Nacional, depois esticamos num coquetel da Mostra Olhar Feminino onde a cineasta underground Shirley Clarke ficou fascinada por ela. Deixei as duas num papo animadíssimo e delicadamente tirei meu time de campo. Nunca mais nos encontramos pessoalmente, embora tenha continuado a acompanhar sua carreira. Coração Santo dos nove vídeos que fiz talvez seja onde eu apareço mais nas entrelinhas, um dos mais pessoais. Sinto saudade de Carmen Costa, do seu belo canto e da sua complexa personalidade. Ela foi grande. Continua uma das minhas cantoras. favoritas.

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