Violinista de dedos quentes

Stéphane Grappelli, ao lado de Django Reinhardt e à frente do Hot-Club de France, criou um capítulo à parte na história do jazz

Para ser lido ao som de Stéphane Grappelli Live in San Francisco

Ele era um branco num meio quase que exclusivamente negro, era um europeu dentro de uma cultura quase que estritamente norte-americana, era gay num círculo muito machista e tocava um instrumento que tinha mais a ver com as salas de concerto do que com os bares da Rua 52. Mesmo assim não há quem não reconheça a contribuição fundamental que Stéphane Grappelli deu ao jazz, ampliando o espectro daquilo que posteriormente se convencionou chamar de world music e inserindo o violino clássico nas improvisações de todos os gêneros que surgiram no pós-guerra.

Nascido em Paris, em 26 de janeiro de 1908, Grappelli foi batizado como Stéfano. Seu pai, um marquês italiano, havia nascido em Alatri, na região do Lácio, e sua mãe era francesa. Aos cinco anos, Grappelli se viu só. A mãe, morreu. E o pai foi convocado pelo exército italiano para lutar na I Guerra Mundial. Mais tarde, Grappelli lembraria este período em seu livro de memórias, comparando estes quatro anos a um romance de Charles Dickens. A vida no orfanato só acabaria em 1918, com o retorno do pai que, revoltado com seu país-natal, adotou a cidadania francesa e alterou o nome do filho para Stéphane. A boa fase viria acompanhada de um novo presente: um violino. Mesmo tendo aulas particulares, Grappelli lembraria que sua grande escola seria a rua, observando a performance dos músicos que se apresentavam em bares, restaurantes, praças e metrôs.

Assim como do outro lado do continente Dizzy Gillespie era o irmão gêmeo musical de Charlie Parker, Grappelli foi o siamês de Django Reinhardt. Guitarrista irascível e genial, Reinhardt encontrou em Grappelli o parceiro ideal e o tradutor perfeito de suas ideias musicais. Reinhardt era autodidata, Grappelli tinha sólida formação; Reinhardt era analfabeto, Grappelli era poliglota; Grappelli era gay, tímido e reservado, Reinhardt era mulherengo e espalhafatoso, inclusive fazendo piadas grosseiras com a homossexualidade do amigo, Reinhardt era um ermitão que vivia numa carroça cigana, Grappelli era um cosmopolita que transitava com desenvoltura pelas capitais europeias. Dessa parceria tão insólita quanto brilhante nasceu um capítulo à parte na história do jazz. Duke Ellington foi um dos primeiros a perceber e, logo depois, Paris virou parada obrigatória de quem se interessava pelo que havia de novo no jazz – de Dizzy Gillespie a Sidney Bechet, de Miles Davis a Bud Powell, de Lester Young a John Coltrane.

Grappelli era o anfitrião e o Hot-Club de France era o quartel-general de músicos e críticos de jazz– em especial Hughes Panassié e Charles Delaunay, grandes divulgadores do jazz francês. Influenciado pelo swing, Grappelli não demorou a se adaptar ao ritmo mais ágil e complexo do bebop. Seus improvisos lembravam muito a alegria e a falta de compromisso, por exemplo, dos solos de Dizzy Gillespie. Depois da morte de Reinhardt, em 1953, e da dissolução do quinteto, Grappelli começaria uma nova fase em sua carreira.

Foi a época mais prolífica e intensa de sua criação. Gravou com contemporâneos, como Gillespie, mas foi muito mais importante na descoberta de novos talentos, como o guitarrista Larry Coryell, o violonista brasileiro Baden Powell, o bandolinista David Grisman, o contrabaixista Rob Wasserman, os pianistas George Shearing e Michel Petrucciani e, principalmente, os também violinistas Didier Lockwood e Jean-Luc Ponty.

Mesmo com todo o reconhecimento musical, Grappelli continuava sendo uma figura reservada e discreta. Seu biógrafo, Paul Balmer, especula algumas explicações. A primeira seria a paixão avassaladora que o violinista teve pela inglesa Gwendoline Turner, morta em Londres, em 1941, durante um bombardeio. Abalado, Grappelli nunca mais se envolveria com outra mulher – antes dela tivera um breve relacionamento com a francesa Sylvia Caro, que lhe deu uma filha, Evelyne, nascida em 1936. Grappelli e a criança conviveram apenas por um ano, no pós-guerra. A outra hipótese levantada por Balmer para a vida reclusa de Grappelli seria a dificuldade do violinista em assumir que era gay. Desse período, entre as décadas de 50 e 80, seu parceiro mais constante foi Jean Barclay, com quem chegou a morar em casas na França e na Inglaterra.

No Brasil, esteve uma única vez, há exatos 30 anos, em setembro de 1988, no Free Jazz Festival, liderando um trio só de cordas com um som muito semelhante ao feito pelo quinteto dos tempos de Reinhardt. A idade e as doenças foram fazendo com que as aparições em público de Grappelli nos últimos anos fossem cada vez mais escassas. Já não podia mais viajar e as internações eram constantes. Na última delas, no primeiro dia de dezembro de 1997, Grappelli não resisitiu e morreu, vítima de uma mal sucedida operação de hérnia. Tinha 89 anos.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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