Jurado de morte

Erlon Chaves tinha tudo para ser um astro internacional. Não teve tempo

Para ser lido ao som de Erlon Chaves e a banda Veneno com Eu também quero Mocotó

Arte: Daniel Kondo
Arte: Daniel Kondo

A QUEDA – 27 de outubro de 1970

Dezenas de milhões de telespectadores, além das milhares de pessoas que se encontravam no Maracanãzinho, foram surpreendidos com a incrível demonstração de mau-gosto e licenciosidade oferecida pelo maestro Erlon Chaves no espetáculo de encerramento do FIC.” É assim a abertura do editorial Abuso de Confiança, apresentado com destaque na primeira página da edição de O Globo da terça-feira, 27 de outubro de 1970. O texto não deixa dúvidas em relação aos ataques contra o pianista, cantor, maestro, compositor e jurado Erlon Chaves, 36 anos. Seu erro: dois dias antes, no domingo, 25, Erlon Chaves, à frente do conjunto vocal As Gatas e da banda Veneno, foi o protagonista de uma das mais inusitadas cenas da história da música brasileira. 

Quem explica é o próprio O Globo em sua edição de 26 de outubro, dia anterior ao editorial: “Agora vamos pedir um favor ao nosso júri popular. Gostaríamos de contar com o auxílio do seu presidente, o maestro Erlon ‘Mocotó’ Chaves para o nosso próximo número. Geraldo José de Almeida não precisou anunciar o número e o público já estava novamente de pé e aos gritos de ‘Queremos Mocotó’. Erlon displicente subiu ao palco foi ao microfone e anunciou um número extra: ‘Antes vamos fazer um número quente. Vou ser beijado por lindas garotas. É como se eu fosse beijado por todas aqui presentes”.

Foi nesse exato momento que Erlon Chaves causou a ira dos mais conservadores, espelhada pelo editorial de O Globo, que segue: “Mas não somente os espectadores; também a direção da TV Globo e os demais responsáveis pelo V Festival Internacional da Canção foram tomados de surpresa, uma vez que tal número não constava do programa e fôra abusivamente introduzido pelo mencionado músico depois de chamado pelo locutor para apresentar o popular ‘Mocotó’”.

Em sua sanha vingativa, o editorialista (editorialistas?) do diário não apenas reforça o ataque como exime a emissora coirmã de qualquer responsabilidade. Tanto a TV quanto o jornal, e ainda o júri (do qual Erlon Chaves era não apenas um dos integrantes como também seu presidente) e – por que não? – o público teriam sido traídos pelo comportamento insidioso e libidinoso do maestro.

Sempre atento ao mais elevados valores morais, O Globo encerra o texto deixando um alerta: “Trata-se, aliás número integrante de um ‘show’ noturno, cuja apresentação em uma de nossas estações de televisão já causara justa indignação da família carioca. Assim sendo, os companheiros da TV Globo sentem-se no dever de, por nosso intermédio, manifestar-se publicamente sua repulsa pela atitude do Sr. Erlon Chaves, que se aproveitando de momento em que as atenções dos responsáveis pela festa se concentravam em sua perfeita realização, acrescentou à revelia dos mesmo, o infeliz número. A TV Globo, numa demonstração de cortesia, convidara o maestro Erlon Chaves, que trabalha em outra emissora de TV, para presidir o Júri Popular do V Festival Internacional da Canção”.

Erlon Chaves estava abandonado.

O AUGE – 25 de outubro de 1970

O Maracanãzinho, lotado com mais de 25 mil pessoas, vibrava com a grande final do V Festival Internacional da Canção. A noite, comandada por Augusto Marzagão, teria atrações internacionais (a cantora Spanky Wilson e o band-leader Ray Conniff) e nacionais (Ivan Lins e Jair Rodrigues). Porém, nada superaria o gran finale.

Já eram duas horas da madrugada do dia 26, a maratona musical se estendia por mais de cinco horas, quando Erlon Chaves foi convidado pelo apresentador para deixar a presidência do júri e subir ao palco. Erlon Chaves – vestindo uma roupa desenhada por Evandro Castro Lima, conhecido pelas fantasias carnavalescas – aceitou de imediato a convocação.

No palco, com a orquestra regida pelo maestro Rogério Duprat, começam a surgir garotas “vestindo sumários trajes cor da pele”, descreveria a reportagem da época. Num primeiro momento eram seis, que rodopiavam ao redor de Erlon e beijavam-no. Na sequência, mais seis garotas e também os músicos da Banda Veneno. Quem também se uniria ao grupo seria Jorge Ben, autor da canção-tema.

O happening musical se manteria por um longo tempo, uma celebração profana quase que inspirada nos coros das igrejas americanas. Os versos hipnóticos do samba de Jorge Ben seriam aos poucos substituídos por Cidade Maravilhosa, que serviria de senha para o fechamento da noite. A festa acabaria com músicos e público misturados entre o palco e a plateia.

Erlon Chaves estava consagrado.

Duraria pouco a comemoração. Reza a lenda que as esposas de alguns militares – e os militares mandavam e desmandavam naquele período, vale lembrar – reclamaram com os maridos do comportamento daquele “negro abusado”. Dizem também que o próprio presidente da República, o general Médici – não muito chegado em música e em comemorações – exigiu rápidas e exemplares providências.

Assim, naquela mesma madrugada, Erlon Chaves seria escoltado até a Polícia Federal e ficaria detido por quatro horas para depor. O mesmo O Globo, que em reportagem do dia 26 o consagraria e em editorial no dia seguinte o execraria, agora, em reportagem no dia 28, diria que o maestro apresentava “caráter dúbio e se exime de qualquer responsabilidade”. E finalizaria narrando a saída do músico da sede da Polícia Federal: “Não quis falar com os jornalistas , gritando mal humorado palavras impróprias”. 

Além da violência e da humilhação a que foi exposto, Erlon Chaves ganharia ainda uma suspensão artística por ordem da censura, obrigando-o a ficar um mês proibido de exercer suas atividades profissionais em todo o território brasileiro.

Erlon Chaves estava destruído.

 A VIDA – 9 de dezembro de 1933

O Erlon Chaves que chegara ao ápice aos 36 anos já tinha então mais de duas décadas de carreira. Nascido em São Paulo, começara na vida artística ainda criança, apresentando-se em programas infantis da rádio Difusora de São Paulo. Era cantor e logo seria também ator mirim, integrando o elenco do filme Quase no Céu. Confirmando o talento precoce, aos 16 anos já estaria formado em piano pelo Conservatório Musical Carlos Gomes, tendo sido orientado pelos maestros Luís Arruda Paes, Renato de Oliveira e Rafael Pugliese.

Atravessaria a década de 50 tocando ao lado de pequenos grupos e grandes orquestras. Teria um rápido sucesso no final daqueles anos fazendo um cover de Harry Belafonte com o hit Matilda. Logo depois, seria também um pioneiro da TV brasileira, participando (na frente e atrás das câmeras) de programas da TV Excelsior, da TV Tupi e da TV Rio, as duas últimas já no Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1965.

A trajetória ascendente se manteria. Diretor musical da TV Rio, autor do hino do Festival Internacional da Canção e de jingles comerciais (o mais famoso, até hoje lembrado e pouco associado a ele, é o dos cobertores Parahyba, aquele do “Tá na hora de dormir….”), compositor de trilhas sonoras para novelas as O Preço de uma Vida, em 1965, e Sheik de Agadir, em 1966, um disco autoral (Sabadabada), arranjos para alguns dos maiores cantores brasileiros (como Wilson Simonal e Elis Regina, com quem excursionaria a Europa) e namoro com a então Miss Brasil de 1969, Vera Fischer.

Erlon Chaves era, no começo do anos 70, a confluência de muitos caminhos musicais. Aproximava-se do samba-rock de Jorge Ben e protagonizava a ascensão da black music engajada ao lado de Simonal (Tributo a Martin Luther King) e Toni Tornado (BR-3) tudo isso em sintonia com o que era feito nos Estados Unidos em matéria de jazz (Quincy Jones era uma de suas inspirações) e soul music (aí incluídos Stevie Wonder, Marvin Gaye e James Brown).

Embora sem filiação partidária e sem ativismo político, Erlon Chaves não poderia ser considerado um alienado, principalmente com relação às questões raciais. Identificava-se com as ações afirmativas lideradas por Martin Luther King e por aqui afrontava a ditadura brasileira num aspecto muito mais comportamental do que político.

Ainda que integrasse o elenco do programa de Flávio Cavalcanti, apresentador com claras ligações com os governos da ditadura e de comportamento conservador, muitas vezes agressivo (quebrava os discos dos artistas que abominava), Erlon Chaves destacava-se pelas avaliações ponderadas e bem embasadas como membro do júri musical. Tinha sua patota, suas gírias, sua marra e suas vaidades (sapatos, roupas, carros). Num Brasil provinciano, era um artista universal que poderia ter alcançado uma carreira internacional.

A MORTE – 14 de novembro de 1974

Num almoço com jornalistas, o então ex-presidente, Juscelino Kubitschek, alertou: “O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares”. “Que monstro?”, perguntaram. “A opinião pública”, explicou JK. “Está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar”, dizia. Era dezembro de 1974, e JK fazia referência à retumbante derrota da ditadura nas urnas. O MDB havia confirmado 16 dos 21 senadores no mês anterior – no dia 15 de novembro.

No mesmo dia, na mesma hora, cinco da tarde, quando as urnas eram fechadas e o começava o escrutínio, o corpo de Erlon Chaves baixava à sepultura no cemitério São João Batista, no Rio de Janeiro. As 24 horas anteriores haviam sido marcadas por uma procissão de amigos e admiradores que foram se despedir do maestro. A imprensa calculou em mais de três mil pessoas.

O caixão foi coberto pelas bandeiras do Salgueiro e do Flamengo. Passaram por lá os cantores Agnaldo Timóteo, Pery Ribeiro, Martinho da Vila, Bibi Ferreira, Billy Blanco, Roberto e Erasmo Carlos, o apresentador Flávio Cavalcanti, o empresário Marcos Lázaro, o rei da noite Carlos Machado e o “mulatólogo” (como ele próprio se definia) Oswaldo Sargentelli.

A presença mais aguardada – e ao mesmo tempo mais surpreendente – chegou quase no final da cerimônia. Levado num caminhonete Veraneio, escoltado por quatro policiais à paisana e pelo delegado Rui Dourado, Wilson Simonal foi recebido com vaias e aplausos. Dois dias antes, Simonal começara a cumprir numa cela comum da carceragem de Água Santa o primeiro ano de prisão. Ali ele iria aguardar a remoção para o presídio de Bangu ou de Ilha Grande onde cumpriria o restante da pena de cinco anos e quatro meses pela acusação de extorsão praticada contra Rafael Viviani, seu ex-contador.

Simonal havia sido também, involuntariamente, o pivô da morte do amigo. No dia 14, Erlon Chaves se encaminhava a uma loja de discos numa galeria comercial no Flamengo. No trajeto, reagiu a provocações de um passante, que debochou da situação de Simonal. Erlon Chaves discutiu e passou mal.

A causa-mortis foi enfarte fulminante. Mas a estranha entidade referida por JK já se movimentava havia bastante tempo. Os últimos quatro anos de vida do músico foram de desilusões, abandonos, traições e perseguições. A opinião pública que o consagrara no Maracanãzinho lotado e o execrara poucos dias depois havia feito mais uma vítima.

Erlon Chaves foi devorado pelo monstro.


PS1Eu também quero Mocotó pode ser considerada uma música maldita. Nascida de uma brincadeira a partir de gírias usadas por Jorge Ben, Wilson Simonal e Erlon Chaves, a canção, composta por Jorge Ben, fazia referência tanto ao suculento prato quanto às pernas femininas então liberadas pelas minissaias. Na sequência, a gíria “mocotó” incorporaria também uma referência, pouco admitida, às partes íntimas femininas. Sucesso instantâneo pela letra de fácil apelo popular, a música deu ainda nome ao trio que acompanhava Jorge Ben na época, quando o músico defendeu Charles, Anjo 45 no festival em que Erlon Chaves apresentaria Eu também quero Mocotó. No mesmo ano, a canção levaria à prisão os jornalistas de O Pasquim – Tarso de Castro, Luiz Carlos Maciel, Ziraldo, Jaguar, Sérgio Cabral, Paulo Francis, Fortuna, o fotógrafo Paulo Garcez e o funcionário Haroldo. Tudo porque Jaguar havia feito uma reprodução do quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo, acrescido de um balão em que Pedro I bradava: “Eu quero é mocotó”. Jorge Ben nunca gravou a música.

PS2: Erlon Chaves e Wilson Simonal teriam um “fim de carreira” parecido. A consagração num Maracanãzinho lotado antes do ostracismo, do degredo e da morte.

PS3: Algumas dessas histórias integram – com belas imagens recuperadas – o documentário Erlon Chaves – O Maestro do Veneno, de Alessandro Gamo, que estreou no canal Curta!

PS4: O Globo nunca se retratou pelo editorial com os ataques a Erlon Chaves.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

2 pensamentos

  1. Esplêndido texto e memória. Lembro de Erlon ser beijado por meio mundo. Achei ousado na época….

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