Só boto bebop no meu samba

Antônio Carlos Miguel* explica como Song for my Father, um dos clássicos de Horace Silver, começou a ser idealizado durante a temporada de férias do músico no Brasil

Para ser lido ao som de Song for my Father, de Horace Silver

A pauta ideal seria reconstituir os passos de Horace Silver pelo Rio de Janeiro, naquele que foi o último carnaval antes do golpe civil-militar de 1964. Férias de duas semanas – a  primeira delas hospedado na casa dos pais de Sérgio Mendes em Niterói – que, meses depois, seriam sintetizadas na arrebatadora Song for my Father. É o tema que iria abrir e dar nome ao álbum lançado no fim de 1964 pela Blue Note. Na capa, o discreto subtítulo entre parênteses Cantiga para meu Pai reforça o elo com o Brasil, país no qual, musicalmente, o pianista reconheceu muitas semelhanças com o que ouvia quando criança nas festas da família de seu pai,  John Tavares Silva. Este é o personagem, de chapéu e toco de charuto na boca sentado num parque, que ilustra a capa do LP clássico do hard bop. Nascido na ilha de Maio, uma das dez que integram o arquipélago de Cabo Verde, no Atlântico, a cerca de 570 quilômetros da costa africana, o senhor Tavares Silva chegou aos EUA nos anos 1920, onde, em 2 de setembro de 1928, nasceu Horace Ward Martin Tavares Silver.

Em discos anteriores, incluindo os dois em 1955 com os Jazz Messengers de Art Blakey, as composições de Silver já introduziam batidas e molhos diferentes, com um inconfundível sabor afro-latino. Mas, segundo o próprio conta em sua autobiografia, Let’s get to the Nitty Gritty (University of California Press, 2006), a ficha caiu mesmo após a tal temporada brasileira. Sérgio Mendes (que Silver conhecera em Nova York) e o então casal Dom Um Romão e Flora Purim estiveram entre os anfitriões, num roteiro que incluiu incursões a ensaios de escolas de samba (ele cita duas, Salgueiro e “Portelo”) e, provavelmente, o Beco das Garrafas: “Sérgio e sua banda faziam uma temporada naquela semana no Rio e fui todas as noites com ele às gigs, saindo depois para curtir com os músicos. (…). Colado ao local onde Sergio estava trabalhando tinha outro clube, com ótimos instrumentistas e cantores. Foi ali que encontrei o baterista Dom Um Romão, com quem participei de muitas jam sessions”.

De volta à Nova York, e enfeitiçado pelo que conhecera no Brasil, Silver decide usar daquele conceito rítmico: “Sentei no piano e após algumas horas veio uma nova composição usando o ritmo da bossa nova. No entanto, a melodia não soava brasileira para mim, e, sim, mais como as velhas melodias cabo-verdianas que meu pai tocava. Papai sempre me pedia que pegasse velhas canções de Cabo Verde e desse uma interpretação jazzística para elas. Essa ideia nunca me empolgou, mas, quando me toquei que tinha feito uma música com um conceito rítmico brasileiro e um conceito melódico cabo-verdiano, imediatamente pensei em dedicá-la a papai”.

Silver, que completaria 90 anos em setembro não tivesse morrido aos 84, em 18 de junho de 2014,  embaralha algumas lembranças em seu livro. Além da grafia incorreta da Portela, diz que Niterói é uma ilha (“com acesso através de uma barca, como a de Staten Island para Nova York”). Apesar do encanto com a cultura brasileira, surpreende-se com a morosidade e a impontualidade dos locais e mostra-se chocado com a desigualdade social, a truculência da polícia durante o desfile das escolas de samba e a visão de jovens “cheirando cola” (pela época, é mais provável que fosse lança-perfume). Por sinal, durante busca na internet, um artigo do radialista Luiz Carlos Antunes (que, então, comandava o programa O Assunto é Jazz, no qual entrevistou o pianista) confirma a fama de bom moço de Silver, que no livro conta ter sempre andado longe das drogas (incluindo a mais letal delas, o álcool): “Saímos da rádio e fomos comer qualquer coisa e continuar o papo (… ) Chegamos ao Braseiro uma pequena churrascaria, onde mastigamos um tira-gosto e tomamos cerveja. Silver, entretanto, só quis guaraná, bebida pela qual se apaixonou”, relata Antunes em texto publicado no site CJUB.

Outra testemunha ocular e auditiva da história, o pesquisador, jornalista e produtor Ricardo Cravo Albin, confirmou numa entrevista em 2011 (ano no qual Sérgio Mendes completou 70 anos) a paixão do niteroiense pelo hard bop do estadunidense com raízes cabo-verdianas: “Nos anos 1960,  (…), eu havia começado minha coleção de jazz e emprestava discos de Horace Silver a Sérgio Mendes. Ele era louco pelo piano de Horace Silver”.

O personagem a ser ouvido, portanto, é Sérgio Mendes (alô, editor, aguardo a passagem). Aos 77 anos, vive em Los Angeles e continua rodando o mundo com seu pop brasileiro. Nas últimas cinco décadas, Mendes andou distante do jazz que colore seus melhores discos. Estes, são títulos imperdíveis em qualquer coleção que mereça esse nome como os dois que gravou no mesmo ano em que Silver fez Song for my Father:  Você ainda não Ouviu Nada (com o Bossa Rio, de Tião Neto, Edison Machado, Edson Maciel, Raul de Souza, Hector Costita e Aurino Ferreira) e Bossa Nova York (seu trio completado por Tião Neto e Chico Batera, mais as participações de Tom Jobim, Phil Wood, Art Farmer e Hubert Laws). Enquanto não falamos com Mr. Mendes, e demais sobreviventes dos samba-jazzísticos anos 1960,  a música de Horace Silver é trilha para todas as horas. Song for my Father virou um clássico, ultrapassando em popularidade seu até então maior sucesso, Señor Blues (lançado no álbum de 1956 Six Pieces of Silver). Jazz com sabores brasileiros e cabo-verdianos que continuou derrubando  fronteiras – nos anos 70, inspirou tanto o Steely Dan (que usou os riffs de abertura  de Song to… na sua Rikki don’t Lose that Number) quanto Stevie Wonder (que bebeu dos ataques iniciais dos sopros para compor Don’t Worry ‘bout a Thing, canção de escancarado sotaque afro-caribenho-brasileiro).

Song for my Father é ótima introdução a Horace Silver, que, ainda nesse álbum, voa alto em temas como Que Pasa e a lírica e introspectiva Lonely Woman. Oito anos depois, no álbum In Pursuit of the 27th Man, ele voltaria à música brasileira, dessa vez através de um pernambucano que imigrou para Los Angeles, Moacir Santos, o autor da Kathy.  Mas, antes do retorno por vias tortas às suas raízes luso-africanas, o sempre curioso pianista estendeu uma ponte com o extremo oriente em The Tokyo Blues, álbum gravado em 1962 após sua primeira turnê japonesa no início daquele ano. Num texto da contracapa, Silver contou: “Durante a temporada no Japão, percebi o quanto os japoneses são apaixonados pela música latina, a qual também me encanta. Ao compor esse repertório, tentei combinar o sentimento japonês nas melodias com o sentimento latino nos ritmos. Espero que vocês gostem”.

Como não gostar e se embebedar ao sabor de temas como Too much SakeSayonara Blues e Cherry Blossom. Mais algumas portas de entrada para o jazz sem fronteiras de Horace Silver.

* Antônio Carlos Miguel, o ACM do bem, como definia Scarlet Moon, é jornalista e fotógrafo com passagens pelo jornal O Globo e pela revista Manchete. Foi fundador da revista Música Planeta Terra, ao lado de Júlio Barroso

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s