Sou brasileiro, de estatura mediana

Edu Lobo completa 75 anos como um dos mais importantes brasileiros e herdeiro de uma linhagem que começa por Villa-Lobos e passa por Ary Barroso e Tom Jobim

Para ser lido ao som de Edu Lobo em Camaleão
edu lobo por Daniel Kondo
Ilustração: Daniel Kondo

Edu Lobo é um mestre pouco conhecido. Ele pode andar na rua quase sem ser notado. O assédio – se houver – é mínimo. Mas ele mesmo é o primeiro a não se ressentir em não ter este reconhecimento popular mais explícito. Se não fossem por algumas exigências do mundo artístico, Edu Lobo escolheria ficar em seu estúdio no Rio de Janeiro, mais compondo do que interpretando as suas composições. “Canto porque já houve muitos casos de pessoas achando que Beatriz é do Milton Nascimento”, me contou o próprio Edu Lobo, com bom humor, numa entrevista há mais de dez anos. Para quem não sabe, Beatriz é dele e de Chico Buarque, seu parceiro mais constante (são 42 composições, desde Moto Contínuo, em 1980).

Ao lado de Chico, já fez discos completos (quase sempre com composições para trilhas teatrais) e produziu alguns clássicos como A História de Lily BraunSobre Todas as CoisasBancarrota BluesValsa Brasileira e Choro Bandido. Mas Edu Lobo também não se esgota em Chico Buarque. Sua versatilidade artística começa com Vinicius de Moraes – seu parceiro em Só me fez bem quando tinha apenas 19 anos e ainda era mais conhecido como sendo apenas filho do Fernando Lobo – e passa por Capinam, Torquato Neto, Cacaso, Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Ruy Guerra, Gianfrancesco Guarnieri, e Oduvaldo Vianna Filho.

No total, são quase três dezenas de discos lançados, mais de 150 composições registradas, e gravações feitas por Elis Regina, Joyce, Zizi Possi, Maria Bethânia, Gal Costa, Milton Nascimento e Tim Maia. Assim, duas constatações se apresentam. A primeira: não há poeta/letrista/compositor/cantor importante nas últimas cinco décadas que não tenha tido proximidade com Edu Lobo. A outra: quem conhece música sabe que Edu Lobo é um mestre, um músico dos músicos. Completando este perfil instantâneo há a definição do amigo e contemporâneo Nelson Motta: “Edu Lobo foi o cara que nunca quis ser rei”. E isso se confirma pelo fato de que quando estourou nos anos 60, com os sucessos Upa Neguinho! (com Gianfrancesco Guarnieri), Ponteio (com Capinam) e Arrastão (com Vinicius de Moraes), Edu Lobo preferiu se manter afastado dos palcos, da roda viva.

Parte desta trajetória que comemora 75 anos de vida e mais de cinco décadas de carreira foram esquadrinhadas em São Bonitas as Canções (Edições de Janeiro, 248 páginas), biografia musical escrita em 2014 por Eric Nepomuceno, jornalista, autor, tradutor e amigo do homenageado desde os anos 60. No livro, Eric driblava as regras de uma biografia convencional e fugia de revelações mais íntimas. Mostrava-se coerente com a postura de Edu Lobo, que desde sempre prezou pela privacidade. É um artista que dá poucas entrevistas, pouco polemiza, prefere ser ouvido pela sua arte.

Mas o livro não chegava a ser chapa-branca, um panegírico, até porque para autor e personagem pouco interessavam aspectos pessoais na proposta inicial. Eric jamais ultrapassou o limite da intimidade consentida. Uma das exceções foi o capítulo Notas Pessoais em que foi abordada a relação de Edu Lobo com o pai e os efeitos que a ausência paterna provocou na infância do cantor. É um belo retrato que ajuda a compreender melhor o compositor. Porém, a análise cresce ao focar no que se propõe: uma avaliação rigorosa, detalhada e bem escrita da gigantesca obra do compositor.

Edu Lobo é o herdeiro de uma linhagem que começa por Villa-Lobos e passa por Ary Barroso e Tom Jobim. A influência paterna – Fernando Lobo é autor do clássico Chuvas de Verão, além de ter sido um importante nome do rádio brasileiro – e também de Antonio Maria (contemporâneo, amigo e colega de Fernando) se faz presente principalmente nos frevos e nas canções que fazem referências à infância no Recife. Mas fica claro – por toda sua formação musical – que Edu Lobo é um autor que vê a música como um todo. Um artista que valoriza cada nota, que sabe compreender a peculiaridade de cada instrumento e que também sabe reconhecer como um arranjo enriquece uma composição.

Músico surgido no tsunami dos festivais dos anos 60 – contemporâneo de Chico, Caetano Veloso, Milton Nascimento –, Edu Lobo não deixou se deslumbrar com a fama e com o estrelato imediato. Numa carreira em ascensão, ele deixou shows e turnês de lado para se dedicar a uma temporada para estudar orquestração nos Estados Unidos entre 1969 e 1971. Aproximou-se de maestros e arranjadores e voltou com a cabeça ainda mais aberta e ampliando as referências, somando a Villa-Lobos e Tom Jobim outras influências que vão de Stravinsky a Bill Evans, de Gil Evans a John Coltrane e Moacir Santos.

Compositor que sempre teve um compromisso estrito com sua obra, Edu Lobo seguiu rota coerente, sem concessões às ondulações do mercado. Passou por fases em que foi pouco lembrado. O artista que nos anos 80 se definia como um “brasileiro de estatura mediana” e que dizia que “Não guardo mágoa, não blasfemo, não pondero/Não tolero lero-lero, devo nada pra ninguém”. E completava “Sou descansado, minha vida eu levo a muque/Do batente pro batuque faço como me convém” sabe que deixou uma obra completa. E que são bonitas as canções.

Edu Lobo & seus parceiros

Kip Hanrahan, músico e produtor americano, gravou Coração Noturno, de Edu Lobo e Cacaso, em seu disco Desire Develops and Edge:
“Fiquei fascinado com o jeito dele compor. Trabalhei com Arto Lindsay nas letras, na tradução das letras de Edu Lobo e sobre o que poderíamos fazer para torná-las o mais próximo do que imaginávamos, com Jack Bruce cantando. E ficou maravilhoso”, elogia Kip. E acrescenta: “Passei a maior parte da década de 80 esperando conseguir trabalhar na produção de um disco do Edu Lobo como trabalhei num disco de Astor Piazzolla. O disco do Piazzolla aconteceu, e o do Edu Lobo, infelizmente, não”.

Zé Nogueira, saxofonista que tocou por longo tempo com Edu Lobo, inclusive na gravação de “Beatriz”:
“Edu Lobo é um compositor genial, que elevou a música brasileira pós-bossa nova. Está no mesmo patamar de Tom Jobim por manter um requinte máximo sem nunca se distanciar de Villa-Lobos. ‘Choro Bandido’ é o choro mais moderno que conheço”.

Joyce, cantora, compositora e parceira de Edu Lobo, atualmente dando aulas num Music Camp na Califórnia:
“Falando bem rapidamente só posso dizer que Edu Lobo é Mestre Jedi megamasterplus”.

Tiago Flores, maestro, regeu a Orquestra da Ulbra acompanhando Edu Lobo:
“É um dos músicos mais profissionais e interessados com quem já trabalhei, do tipo que sugere ensaios extras apenas para reparar pequeníssimos detalhes. Também vejo nele um dos mais elaborados compositores da música brasileira, com uma riqueza harmônica e grande sofisticação”.

Hugo Sukman, jornalista, trabalhou com Edu Lobo no show, CD e DVD em comemoração aos 70 anos do músico:
“Tom Jobim, ao apresentar o songbook de Edu disse algo mais ou menos assim: ‘eu te abençoo em nome de Villa-Lobos, meu pai, teu avô’. A importância de Edu é essa: ele é o continuador da principal linhagem da música brasileira, é o maior compositor da sua geração. E, usa essa capacidade, para fazer uma obra de rara diversidade, cultivada principalmente na música para teatro e cinema. Ele decidiu ser compositor depois de ver West Side Story. Queria fazer com a música brasileira o que Bernstein fez com a americana. E conseguiu, elevou a música a drama, a humor, a comédia, a ação, a sonho, mas sempre grande música. As minhas preferidas são os sambas, choros, baladas  mais lentos e trabalhados. Coisas como o samba Pra Dizer Adeus, o Choro Bandido (em ambos seguindo a linhagem de Jobim), e canções como Noite de Verão.

Péricles Cavalcanti, cantor e compositor:
“A trilha que Edu Lobo fez para a peça ‘Arena canta Zumbi’, de Boal e Guarnieri, é uma de minhas influências formativas mais duradouras. Adoro!”.

Edu Lobo & jazz

Paul Desmond – Circles
Helen Merrill – Casa Forte
J. Johnson – Casa Forte
Jack Bruce & Kip Hanrahan – Coração Noturno
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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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