Sons na surdina

Eduardo Osório Rodrigues* lembra dos solos de Miles Davis com a famosa Harmon acoplada ao trompete e que são homenagens à beleza do som “abafado”

Para ser lido ao som de Miles Davis em Nature Boy
Ilustração: Gilmar Fraga
Ilustração: Gilmar Fraga

Miles Davis era um mestre tocando baladas, ou melhor, baladas executadas com a surdina Harmon, acessório que diminui o volume e altera o timbre do instrumento. Antes de Miles definir o padrão de excelência na execução “abafada”, seus antecessores faziam o diabo para alcançar esta sonoridade diferente. Em O Livro do Jazz – de Nova Orleans ao Século 21, Joachim-Ernst Berendt e Günther Huesmann revelam a origem desse apetrecho essencial para os trompetistas: “De início, eles experimentaram inserir na campana garrafas de cerveja, cinzeiros, sacos de papel, cones de madeiras, caixas etc. Posteriormente, apareceram surdinas de jazz feitas industrialmente, algumas tiveram tanto sucesso que até foram utilizadas pelos músicos de sopros das orquestras sinfônicas”.

Além do material (papelão, plástico, madeira, alumínio e fibra), a forma de utilizá-la também variava. Bubber Miley, trompetista da orquestra de Duke Ellington nos anos 20, acoplava ao trompete uma pequena surdina de cornet e, ao mesmo tempo, manipulava com a mão esquerda uma surdina de borracha (plunger) junto da campana, comprimindo, espremendo e modelando seu som.

Miles não foi o único, mas talvez tenha sido o que melhor utilizou esse recurso. Com Miles, a peça ganhou outro status e mudou de patamar. Uma classe que ninguém jamais conseguiu repetir ou igualar – nem Dizzy Gillespie, de quem era discípulo, e menos ainda Chet Baker que, dizem, o imitava. Quando tocou, pela primeira vez, um standard em andamento lento com a surdina Harmon, Miles deu o tom sombrio que faltava ao jazz. Nature Boy (Blue Moods, Debut Records, 1955) e Summer Night (Quiet Nights, Columbia, 1963) justificam o apelido de Príncipe das Trevas, um dos tantos que foram atribuídos ao homem que inventou o jazz moderno, criou estilos, lançou tendências e viveu diferentes fases. Com a lírica It Never Entered My Mind (Workin with the Miles Davis Quintet, Prestige, 1956) à solar You’re My Everthing (Relaxin’ with The Miles Davis Quintet, Prestige, também de 1956), e da sinistra L’Assassinat de Carala (Ascenseur Por L’echafaud, Fontana, 1958) à melancólica Blue in Green (Kind of Blue, Columbia, 1959), Miles criou a trilha sonora de casais que trocavam juras de amor da Quinta Avenida aos becos escuros do Harlem, em Nova York; das margens do Sena às ruas estreitas de Montmartre, em Paris – cidade em que gravou a música original de Ascensor para o Cadafalso, primeiro longa-metragem do diretor francês Louis Malle, filmado em 1957 e lançado um ano depois, com a bela Jeanne Moreau no elenco. Na trilha, apenas uma música com surdina. O clima intimista, as luzes da cidade e a música de Miles afetando emocionalmente o espectador.

Com sua técnica refinada, soprando em volume baixo, emulava grunhidos na voz rouca de seu instrumento. Em um período de dez anos, de I See Your Face Before Me (The Musing of Miles, Prestige, 1955) a Mood (E.S.P., Columbia, 1965), Miles gravou um conjunto irretocável de baladas executadas com o som distorcido. Naquele seu jeito de tocar baseado mais em timbre e melodia, escolhendo as notas certas e abrindo espaço para o silêncio, Miles Davis mostrou que menos é mais.

* Eduardo Rodrigues é jornalista e autor do livro Negras Melodias – Músicas de Feiticeiras e Santos Pecadores

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