O soco que derrubou um gigante

Daniel Soares lembra, 31 anos depois, a trágica morte de Jaco Pastorius

Para ser lido ao som de Jaco Pastorius – Live in Montreal Jazz Fest
Foto: Pino Alpino/Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Pino Alpino/Domínio público/Wikimedia Commons

Madrugada de 11 de setembro de 1987. O músico Jaco Pastorius saiu em direção a uma boate na Flórida. Poucas horas antes tinha sido expulso de um show do guitarrista Carlos Santana pelo seu comportamento agressivo. Jaco, sem controle de sua impulsividade e com cavalares doses de exibicionismo e arrogância, foi impedido de entrar no Midnight Bottle Club, em Wilton Manors, cidadezinha nas proximidades de Fort Lauderdale onde passou boa parte de sua infância e adolescência. Não era a primeira vez que isso acontecia – mas seria a última

Um dos seguranças, Luc Havan, percebeu que Jaco queria confusão e partiu para cima do baixista que sempre foi franzino, apesar da altura. Jaco levou a pior: várias fraturas e um traumatismo craniano que o botou em coma. Em 21 de setembro, os aparelhos que o mantinham vivo foram desligados e por três horas seu coração ainda bateu. Jaco estava morto. Tinha 35 anos.

Nascido John Francis Anthony Pastorius III na Pensilvânia em 1º de dezembro de 1951, Jaco era filho de um baterista. Seu apelido veio de um amigo de seu pai, o pianista Alex Darqui que, num bilhete, grafou o nome de Jacko (como era chamado), como Jaco. O músico gostou e passou a usar. Já seguia os passos do pai e tocava bateria num pequeno grupo que fazia covers de Aretha Franklin, Otis Redding e Wilson Pickett. Com a saída do baixista, Jaco assumiu o instrumento para nunca mais largá-lo.

Com influências da soul music, do pop, jazz e da música erudita, não demorou para Jaco ser notado. Em 1974, começou a tocar com Pat Metheny, quando gravaram juntos o álbum Jaco e, dois anos depois, já integrava o Weather Report. Naquele 1976 ainda gravaria os lendários Bright Size Life, disco de estreia do Metheny, e Hejira, com a cantora e compositora Joni Mitchell. Nos anos 80 se dedicou a projetos solo, como a banda Word of Mouth, que gravou com nomes como Herbie Hancock e Wayne Shorter.

Pastorius, mesmo não sendo o criador do baixo fretless (sem trastes), foi o primeiro músico a explorar o instrumento dessa forma com precisão, ampliando a técnica e dando novas cores ao instrumento. Era um Jimi Hendrix do contrabaixo elétrico. Usava um Fender Jazz Bass de 1962, apelidado de “Bass of Doom”, que foi roubado um ano antes de sua morte. O instrumento reapareceu há pouco tempo e hoje faz parte da coleção do baixista Robert Trujillo, do Metallica.

Desde a briga que resultou no seu coma, o mundo do jazz e muitos, muitos dos que tocaram com ele, se perguntavam se aquilo já não era uma tragédia anunciada. Os problemas de comportamento de Jaco Pastorius começaram a ficar mais evidentes ainda nos anos 80. Uma mistura potencialmente destrutiva de bipolaridade, síndrome do pânico e depressão, aliados ao abuso de álcool de drogas, transformaram a mente que ora revolucionara o jazz e seu instrumento, num tormento pessoal, num mergulho na inquietude e instabilidade. Reza a lenda que, certa vez chegou a ser visto pilotando uma moto em alta velocidade nas ruas de Tóquio, completamente nu e aos gritos.  E não apenas seu comportamento estava sendo afetado, mas sua música também. Seu apreço e dedicação a explorar ao máximo as dissonâncias e sonoridades experimentais estava sendo deixado de lado. Jaco estava “se apagando” como um músico diferenciado. Sua música estava morrendo, assim como sua mente.

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Nenhum pensamento

  1. O maior entre os grandes! Assim como vários gênios, Pastorius sofria com seus demônios internos, e não conseguiu superá-los. O período com o Weather Report foi sensacional! Sua técnica com as quatro cordas foi revolucionária e até hoje inspira baixista pelos quatro cantos do mundo.

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