“Eu, líder dos jazzistas? Nunca ouvi isso antes”

Juarez Fonseca* estreia na AmaJazz recuperando uma entrevista que fez com Charles Mingus em Porto Alegre em maio de 1977

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Ilustração: Gilmar Fraga

Agarrado no contrabaixo (que viaja sempre ao seu lado na poltrona do avião), Charles Mingus chegou quinta-feira a Porto Alegre. Na saída do aeroporto não quis entrar no Chevette que lhe traria para o Centro da cidade, preferindo o banco da frente da Kombi que transportaria os instrumentos. No City Hotel, pediu uma chave extra do apartamento e irritou-se quando lhe disseram que não havia chave extra. À noite, bebendo vodca, Mingus descontraiu e passou algum tempo relembrando histórias de 20 anos atrás. Depois, com seus músicos, saiu para jantar e acabou a noite no bar Big-Som, na Cidade Baixa, só voltando ao hotel para dormir às seis da manhã. Dormiu até às 16 horas e deu uma pequena bronca pelo telefone ao ser acordado para esta entrevista, marcada com antecedência. Disse que desceria para o salão de chá às 16h30min. Quinze minutos depois disso ele apareceu, vestindo calça, camisa e sapatos pretos, salientando seu vasto corpo de 130 quilos (durante a entrevista, diria que está sempre fazendo regime, que precisa emagrecer). Mingus se locomove com dificuldade, trocando lentamente as pernas. Escolheu uma mesa, sentou-se, acendeu um charuto e se recusou a sair dali quando o fotógrafo Hipólito Pereira pediu que sentasse num dos cantos da sala, que tinha mais luminosidade para as fotos. Esparramado na cadeira, sério, falando um inglês de palavras engolidas em sua voz baixa e grave de negro de 55 anos, me deu a entrevista a seguir.

Como o senhor vê o jazz hoje, a evolução, as novas formas?
Sou um cara ocupado, estou sempre viajando, por isso não tenho tempo de ouvir o trabalho dos outros. Mas o jazz é como o folclore, o samba, que se desenvolve naturalmente. Sei que nos Estados Unidos há novos músicos de jazz muito bons, e também de rock and roll, mas não tenho acompanhado.

Durante um certo tempo o senhor não pôde tocar nem gravar, por problemas de saúde. Há quanto retornou às atividades?
Estive parado seis anos, voltei a tocar há uns quatro.

O que pensa das grandes gravadoras?
Não consigo me entender com essas companhias, e tenho motivos para isso. Tive minha própria gravadora, e então sei que as grandes companhias não merecem confiança. Se minha pequena gravadora vendia 20 mil discos meus, se em um concerto eu consigo reunir dez mil pessoas e vender sete mil discos, a grande companhia vende 70 mil e vem me dizer que vendeu apenas sete mil. Não posso acreditar nisso.

As grandes gravadoras não têm a tendência de atrasar o processo criativo dos músicos, sempre exigindo coisas mais comerciais, vendáveis?
Eu não dou bola para essas exigências, simplesmente continuo fazendo minha música. Sei que as companhias pedem aos músicos para que continuem forçando um trabalho que está vendendo bem, mas comigo isso não acontece.

Por que não deu certo sua gravadora, a Mingus Records?
Quem dirigia a gravadora era minha mulher, mas nos separamos e ela casou com um cara que é o dono da Fantasy Records. Como eu não podia trabalhar com música e cuidar da gravadora, terminei com tudo.

Quando compõe, que instrumentos o senhor costuma usar, além do baixo?
Às vezes piano, às vezes nenhum…

Por que o senhor resolveu escrever Beneath the Underdog (Saindo da Sarjeta, no Brasil), sua autobiografia?
Minha intenção era mostrar que Deus existe. Os músicos estavam todos numa fase muito ruim, consumindo muita droga, cocaína, fumo, heroína, bebendo demais, e eu quis dizer aos jovens o que não deviam fazer.

Sabe-se que em 1968 o senhor se internou voluntariamente em um hospital psiquiátrico e depois só conseguiu sair com a ajuda de seu amigo Nat Henthoff, o crítico de jazz. Por que se internou?
Compre o livro, rapaz, está tudo lá… O que você quer saber?, leia o livro…

Sua autobiografia ainda não foi publicada no Brasil…
E como é que você ficou sabendo disso?

Li num jornal. Mas, sobre religião, o que o senhor pode me dizer?
Eu acredito no mesmo Deus de Pablo Casals, no mesmo Deus em que Duke Ellington acreditava…

O senhor foi muçulmano negro?
O que?

Muçulmano negro, a religião de Muhammad Ali…
Não sei em que deus Muhammad Ali acredita.

Pode falar um pouco sobre a influência que recebeu de Duke Ellington?
Eu não posso dizer isso em cinco palavras, precisaria escrever um livro a respeito.

O senhor é tido como uma pessoa temperamental. É verdade?
As más notícias correm muito depressa…

O senhor foi um grande batalhador pelos direitos civis dos negros…
Fidel Castro disse que Duke Ellington e eu, tocando nossa música, fizemos muito mais pelos direitos dos negros do que Luther King com pressões… (Mingus para de falar e canta frases de uma de suas músicas mais politicamente explícitas, Fables of Faubus, que chama de ridículo o ex-governador racista do Arkansas, Orval Faubus.)

A que o senhor se refere na canção Free Cell Block F, ‘tis Nazi USA, de seu último disco?
É sobre uma prisão onde matavam e ainda matam negros.

E na música Remember Rockefeller at Attica?
Attica é uma prisão.

Sim, mas por que “Remember Rockefeller”?
Durante o motim de Attica, antes dos prisioneiros serem mortos, o governador Rockefeller mandou fechar todos os registros de água, para obrigar as pessoas a se entregar. O motim foi por causa dos maus tratos e da péssima condição humana de Attica.

O que tem a música a ver com isso?
Não tem nada a ver, mas como eu não tinha outro título, botei esse. E a música é muito bonita…

Como o senhor se sente sendo considerado um dos líderes espirituais dos jazzistas?
Não sei, nunca ouvi isso antes.

Qual sua opinião sobre a eletrificação do jazz?
Não sei, faço a minha música, não me interessa que outros liguem seus instrumentos numa tomada elétrica…

* Juarez Fonseca é jornalista desde o começo dos anos 70, com uma extensa carreira dedicada à crítica musical. Um livro reunindo boa parte da sua produção jornalística está previsto para ser lançado nos próximos meses. Um de meus primeiros editores, Juarez me honra com sua amizade há quase 30 anos e me orgulha com sua participação na AmaJazz



41 anos depois, Juarez lembra a entrevista:

Está na cara que não consegui arrancar de Mingus mais do que respostas lacônicas. Ele estava certo: teria show dali a poucas horas e não iria perder tempo alongando a conversa com um repórter jovem, branco, com ralos conhecimentos de jazz e um inglês macarrônico. Mas hoje, olhando para trás, me orgulho de ter entrevistado um dos gigantes da história do jazz. E menos dois anos antes de sua morte, em janeiro de 1979. Mingus não deve ter levado boa impressão de Porto Alegre. Na chegada, o responsável local pela turnê (Opus Promoções) quis colocar seu corpanzil em um Chevette!!! (eram mesmo outros tempos). Durante o show, um cinegrafista da TV Gaúcha invadiu o palco como se estivesse em casa, se abaixou diante de Mingus e passou a filmá-lo. Incrédulo, Mingus interrompeu a música e enxotou-o do palco aos gritos. Registrei o episódio em minha coluna dias depois e fui chamado de “mau colega” por isso.

A autobiografia dele só teria edição brasileira em 2005, com o título de Saindo da Sarjeta (Jorge Zahar Editor).

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2 pensamentos

  1. Muito massa. Mingus é meu músico preferido e não sabia que ele havia estado em Porto Alegre. Também gostei das considerações atuais do Juarez. No ano passado passei por perrengue parecido entrevistando o Chris Jagger, irmão do Mick, em Caxias. Parabéns pelo site!

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