Um álbum de hip hop com pretensão e preço de Mona Lisa
Gostemos ou não da música produzida nesse gênero, há pelo menos três décadas, o hip hop ocupa o lugar que, com os Beatles e até os anos 1980, era do rock. Desde o surgimento do rap na periferia de Nova York, a frase cantada por Mick Jagger em “Street fighting man” vem sendo atualizada por jovens ao redor do mundo. “O que um garoto pobre pode fazer / Exceto ‘rimar’ num grupo de ‘hip hop'”.
Como tantos, esse foi o caso de Tarik Azzougarh, holandês de família marroquina, o personagem de “Discípulo: a história de Cilvaringz”, documentário de Joanna Natasegara exibido ontem no Festival do Rio – e que terá mais duas sessões, amanhã no Cine Santa Teresa e dia 14 no Estação Claro Rio. E, em breve, entra no Netflix.

Vítima de bullying, racismo, xenofobia na cidade holandesa onde nasceu (em 1979), o garoto muçulmano encontrou na música um canal de apoio e integração. Após o interesse pelo pop que ouvia na infância (Michael Jackson, George Michael…), virou obcecado pelo Wu-Tang Clan. Não só criou um grupo de rap com amigos, como cruzou o Atlântico atrás dos ídolos e acabou virando uma peça fundamental na engrenagem do coletivo surgido em State Island.
Inicialmente, Cilvaringz/Tarik fez participações como rimador, produtor e virou o responsável por algumas turnês mundiais do grupo. Agora, aos 47 anos, ganhou direito a um documentário graças à tacada de marketing e política que se tornou o álbum de tiragem única “Once upon a time in Shaolin” (2015)
Concebido e produzido através de seis anos, era um protesto contra a desvalorização da música na era do streaming. Apenas uma cópia do disco com 31 faixas foi prensada (e destruído o arquivo com as gravações). Após eficiente campanha midiática, dentro de uma caixa de prata feita no Marrocos, em 2015, a “Mona Lisa do hip hop” (como o pouco modesto Tarik batizou) alcançou num leilão de arte o preço de dois milhões de dólares. Entre as cláusulas aceitas pelo compradores, nesse caso, o empresário do setor farmacêutico Martin Shkreli, a proibição por 88 anos de audição pública e comercialização do disco.
Como Tarik admite, o contrato permitia possíveis exceções ou interpretações, mas, a cópia única de “Once upon a time in Shaolin” acabou trancafiada pelo governo dos EUA após a prisão por fraudes de Shkreli. Em 2021, o disco foi comprado pelo coletivo PeasrDAO e, nos últimos, seu conteúdo (ainda fora do streaming) pode ser degustado em audições coletivas.

“Discípulo” apresenta em detalhes essa jogada de mestre, em versão chapa branca do idealizador do disco, e protagonista do filme. Mesmo que Joanna Natasegara (produtora inglesa em sua estreia como diretora) também tenha colhido opiniões críticas de alguns dos integrantes.
O documentário ainda serve como uma história do Wu-Tang Clan. Com pelo menos nove membros fixos (entre outros, RZA, Method Man, GZA, Raekwon, Ghostface Killah…) e muitos agregados, o grupo se inspirou no kung fu (da arte marcial com elementos do budismo e do taoismo) para ampliar a cultura do hip hop.
Hip hop que, no Brasil, junto a tantas outras vertentes da música urbana, está majoritariamente ao lado de Lula no segundo turno.
