Elza Soares presente

Mesclando entrevistas recentes e antigas e trechos do cinema negro brasileiro com registros de shows, documentário de Eryk Rocha é emocionante tributo à cantora

No que pode ser um alento, ao se despedir, em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos, Elza Soares tinha muito do que Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito pedem em “Quando eu me chamar saudade”. Flores em vida. Vida para lá de inspiradora, sofrida, de amor e dor, altos e baixos. Quedas profundas (incluindo, literalmente, em 1999, de um palco durante show no Rio), mas, que como em outro samba clássico, do genial “paulistalianado” Paulo Vanzolini, ela sempre conseguiu dar a “Volta por cima”.

Histórias muito bem condensadas no caleidoscópio “Elza”, o filme dirigido por Eryk Rocha (e montagem da também cantora e compositora Ava Rocha) exibido na noite de ontem (9 de outubro) no Estação Claro Gávea. Hoje, sábado, terá mais duas doses no Festival do Rio (às 13h no Cine Odeon e às 19h no Cinesystem Botafogo).

Sem didatismo, com muita informação e emoção, a fascinante história de superação da cantora carioca é contada durante 110 minutos. Muito material de pesquisa se mistura a cenas de seus últimos meses, sejam no palco, camarim, no lar, quase sempre com a câmara colada no rosto da velha senhora – estética à la Faro (TV Cultura) que, décadas depois, tem feito a festa de pesquisadores de imagem (como Antonio Venâncio também nesse), diretores de tantos documentários recentes e de nós do outro lado das telas.  

Nos anos finais, Elza não tinha mais os recursos que a tornaram uma intérprete  inovadora e inconfundível. Mas, as duas últimas décadas tiveram mais pétalas do que espinhos. Eleita, seja lá isso que for, a cantora brasileira do milênio em 1999 pela BBC londrina, atraiu uma rede de apoio entre a nova geração, gente que se juntou a tantos outros artistas que sempre estiveram ao seu lado. Elza se manteve no mercado com arte ousada e de combate, sempre ao lado de causas progressistas. É o que mostram shows e discos como “Do cóccix até o pescoço” (2002), “A mulher do fim do mundo” (2015), “Deus é Mulher” (2018) e “Planeta Fome” (2019).

O título deste é referência ao episódio que ainda emociona. Mesmo para quem já leu e ouviu (até da própria) incontáveis vezes. Em meados de 1953, na extrema pobreza, recém viúva, muitos filhos (o primeiro nasceu quando tinha 13 anos), participa do programa de calouros de Ary Barroso. “De que planeta você veio, minha filha?”. “Do mesmo planeta que o senhor, Seu Ary. Do Planeta Fome”.  O compositor vaticinou que acabava de nascer uma grande estrela. Seis anos depois, a gravação na Odeon do samba do gaúcho Lupicínio Rodrigues “Se acaso você chegasse” fez que Elza começasse a brilhar intensamente.

As histórias seguem a cronologia em “Elza”. Para contar as primeiras três décadas, no que é de praxe em sua filmografia, Eryk Rocha faz um irresistível mosaico com trechos de negros como personagens do cinema brasileiro, cenas que vêm de “Cinco vezes favela”, “Rio 40 graus”, “Xica da Silva”, “Ganga Zumba”, do francês “Orfeu da Conceição”. Associações a outros filmes que atravessam o longa até perto do fim. Os últimos 20 minutos, mais concentrados nos registros recentes, poderiam ser encurtados, mas, não cortam o barato que é ter Elza tão presente.

A partir dos anos 1960, uma sequência de registros de shows traduzem em som e imagem o que foi Elza Soares. Estilo que abriu caminho para o scat (sons sem palavras, abertos para o improviso sem freios) no samba-jazz, novos passos além da estética bossa-nova que tinha modernizado a música brasileira na virada dos 1950 para os 60. Como a própria conta, na adolescência, com o talento para o canto já percebido pelo pai também musical, era advertida para não fazer aquele gemido rouco quando encarava o peso da lata d’água na cabeça. Não só continuou, como transformou a rouquidão como um recurso, marca reconhecida até pelo pioneiro nessa arte, Louis Armstrong.  Elza ouviu isso do trompetista, durante a Copa do Mundo de 1962, quando, madrinha da Canarinho, também conheceu Garrincha.

Elza partiu. Obra e figura humana continuam como inspiração para a virada no dia 25.  #Lula

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Autor: Antonio Carlos Miguel

Amador de música desde que se entende por gente. Jornalista, fotógrafo especializado no mundo dos sons combinados.

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