Por onde ele passa nascem flores e amores

Em quase seis décadas de carreira, Jorge Ben segue sendo um dos mais complexos enigmas da música brasileira

Para ser lido ao som da playlist BenEscondido

Arte: Daniel Kondo

Quando a pandemia começou, me espantei ao descobrir que o majestoso Copacabana Palace, ponto simbólico do Rio, iria fechar pela primeira vez em 97 anos. O segundo espanto foi saber que o fechamento não seria completo. O hotel seguiria atendendo a apenas um hóspede – e aí me veio a maior surpresa: descobrir que este solitário morador era Jorge Ben. A excêntrica história não batia. Por mais charmoso que seja o Copacabana Palace, ele continua sendo um hotel, com todas as assepsias e impessoalidades que caracterizam estabelecimentos como este. Sei de muitas pessoas que optaram por morar em ambientes iguais a este: Mario Quintana, durante anos morador do Hotel Majestic (depois fechado e transformado em Casa de Cultura Mario Quintana), João Gilberto e até mesmo Mario Reis, este hóspede do mesmo Copacabana Palace. O fato é que morar em hotel quase sempre é associado a pessoas solitárias e macambúzias. Jorge Ben não. Ele é solar, alegre, cheio de teteretê. Poderia morar numa cobertura na Vieira Souto, numa casa na Urca, num condomínio na Barra, num solar em Botafogo, no apartamento que – dizem – não se desfez na Rua Paula Freitas, aliás pertinho do Copacabana Palace, ou até mesmo num barraco em Madureira. Não em um hotel.

Até a idade de Jorge Ben é envolta em mistério. Já foi divulgado que ele seria de 1939. Depois, três anos foram diminuídos e Ben Jor passou a ser de 1942, o que lhe colocaria no mesmo ano de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Nara Leão e Tim Maia. Há nove anos, em 2012, quando teoricamente seriam comemorados seus 70 anos, Ben Jor desmentiu um jornal e garantiu que havia nascido em 1945, o que acentuaria ainda mais o seu talento precoce. Eu me inclino a acreditar que ele seja de 1941, logo teria completado em março último 80 anos de vida.

Por quase toda sua vida, Ben Jor criou ao seu redor um anel de proteção impenetrável. Se sabe que ele é casado há mais de 50 anos com a mesma mulher, Domingas Terezinha Inaimo de Menezes – aliás, ela está com ele no hotel? Discreto, não se sabe de nenhuma fofoca ou notícia envolvendo sua intimidade. A fidelidade à mulher se acentua ainda mais se forem lembradas as dezenas de músicas dedicadas a musas inspiradoras. Uma lista que inclui figuras conhecidas – Rita Lee foi presenteada com Rita Jeep, Adele Fátima, com Adelita –, pouco conhecidas – a até hoje misteriosa Ive Brussel – e um sem-número de anônimas, como “a mulher do 22”.

Tão misteriosas quanto as mulheres – verdadeiras ou falsas, próximas ou distantes – são também suas relações familiares. A mãe, a etíope Silvia Lenheira, já foi citada em A Cegonha me Deixou em Madureira. Do pai, quase nada se sabe, bem como da igualmente existência de irmãos e também sobre a vida dos filhos.

A discrição em Ben Jor é natural. Não é publicamente cobrada, como no caso dos amigos Gilberto Gil e Caetano Veloso, que exigem um tratamento reservado ao mesmo tempo que escancaram opiniões, sentimentos e preferências. Tampouco é uma discrição folclórica e exagerada como a do recentemente falecido João Gilberto, quase um ermitão, porém cercado por pessoas que adoravam alardear que conseguiam furar a bolha que o músico havia criado para se proteger. Também diferente de João Gilberto, Ben Jor não gosta de alimentar anedotas a seu respeito. Nada se sabe de garçons misteriosos, namoradas secretas nem mesmo de colegas de profissão submetidos a extravagâncias como a de jogar cartas com o baralho sendo passado por baixo da porta.

Mais mistérios: até surgir a notícia sobre o Copacabana Palace, onde Ben Jor morava? Ele é talvez uma das mais claras personificações do carioquismo, mas há anos que Ben Jor não é visto em praias, botequins, restaurantes e até mesmo o Maracanã, palco e cenário de tantas das suas narrativas musicais. É também um reconhecido flamenguista, mas no passado recente, quando seu time conquistou importantes títulos, não houve registro de nenhuma manifestação de sua parte, nem mesmo uma singela comemoração. Há rumores de que Ben Jor tenha ainda uma casa em São Paulo e outra em Miami. Porém as portas destas casas nunca foram abertas para revistas de fofocas e/ou celebridades, tampouco publicações dedicadas à decoração ou estilo de vida.

Nos últimos tempos, o Brasil – felizmente – se abriu mais para documentários e biografias. Wilson Simonal, Erlon Chaves, Andre Midani, Gilberto Gil, Gal Costa e tantos outros amigos e parceiros do músico, alguns com grande proximidade, foram agraciados com algum depoimento – qualquer depoimento: contra, neutro ou a favor. Como um Nelson Motta às avessas, Ben Jor se esconde e faz questão de não se mostrar como testemunha ocular (e auricular) da história.

Igualmente desconhecidas são suas posições políticas. Surgido na fase pré-ditadura, Ben Jor nunca se manifestou a respeito de Jango, Brizola, Lacerda, JK ou Jânio. Da mesma forma, não se posicionou a favor do golpe nem demonstrou qualquer orgulho em ser próximo dos militares que governaram o país pelas duas décadas seguintes. É verdade que fez músicas em que exaltava seu ufanismo e realçava as belezas do país numa fase em que havia perseguições, censuras, prisões e mortes. Ainda assim, não foi uma figura que se destacou por fazer propaganda do governo – como seu amigo próximo, Wilson Simonal, que acabou logo depois pagando um preço caríssimo – profissional e pessoal por tamanha proximidade. Mais distante ainda Jorge Ben estava de manifestações sabujísticas, como as de Dom e Ravel, hoje merecidamente esquecidos mas à época gozando de alto reconhecimento popular com a olvidável Eu te Amo, Meu Brasil.

Se não se manifestava politicamente, Jorge Ben da mesma forma nunca abriu o voto. Não se sabe de nenhum candidato que tenha recebido seu voto para qualquer cargo. Mais: nunca demonstrou simpatia por qualquer político ou legenda partidária. Nem mesmo campanhas pluripartidárias como as da Diretas Já ou da Anistia contaram com seu apoio. Jamais levantou sua voz para apoiar qualquer causa política, social ou cultural. O curioso nisso tudo e que esse distanciamento em nada lhe prejudica. Jorge Bem não é acusado de alienado, chapa branca, oficialista ou qualquer outro rótulo. Conseguiu sair ileso até de disputas recentes e radicais. Ninguém nunca o acusou de coxinha ou mortadela, de bolsominion ou petralha. Ben Jor paira acima (ou abaixo ou ao lado) e sempre está distante de qualquer polêmica.

Jorge Ben vive para a música. É um sambista que não faz só sambas. É ao mesmo tempo da velha e da jovem guarda. Seu violão é único e original, incorporando não apenas características de um instrumento de cordas, que é o que é mesmo, mas também transformando-se num instrumento de percussão. Como as músicas de Jorge Ben necessitam de letras para que possam se comunicar com seu público ninguém mais capacitado que ele para esta tarefa. Definido pelo poeta Augusto de Campos como um poeta do avesso, Jorge Ben, segundo o concretista, “descobre a vida das palavras a partir de uma aparente inocência diante das coisas”. Tudo isso para Jorge Ben, hoje Ben Jor, talvez faça sentido. Ele é um dos maiores enigmas da música brasileira. Há quase seis décadas em atividade, esse carioca de Madureira, continua indecifrável. Autor de uma obra ao mesmo tempo simples e complexa, Ben Jor segue sendo a grande esfinge da MPB.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.