Ópera visual e sensorial que semeia informação e crítica
“Euforia”, a opção de ontem à noite no Festival do Rio, saiu da rota programada. A de privilegiar nessa cobertura especial para a AmaJazz filmes que têm a música como tema. Mas, o longa-metragem do também artista plástico Julian Rosefeldt (nascido em Munique, em 1965, e radicado em Berlim) tem um quê de delirante ópera. Impressão garantida pelo papel da trilha sonora (de Sammy Moussa e Cassie Kinoshi), com forte presença de coro (Brooklyn Youth Chorus, regência de Dianna Berkun Menaker) e percussão (cinco bateristas de jazz, Peter Erskine, Terri Lyne Carrington, Yissy Garcia, Eric Harland e Antonio Sanchez).
A escolha desse filme veio a partir da sinopse, “uma jornada através da história do capitalismo e da ganância”. Em futuro próximo, somos conduzidos por uma Nova York distópica, quase sempre à noite, no inverno, em ruas e prédios às vezes atravessados por animais. Domésticos e em grupo, ou selvagens e solitários, como, perto do fim (e aqui vai spoiler) a tigresa que vaga pelos corredores de um enorme supermercado e quebra a quarta parede conversando com o público. A voz é de Cate Blanchet, bisando de forma mais discreta sua parceria com Rosefeldt – em “Manifesto” (2017), ela foi a protagonista, vivendo 13 personagens.

Na abertura, outro ator conhecido, e este dá as caras. Após um passeio aéreo noturno, a “câmera-drone” desce até uma rua de Nova York e embarcamos no táxi dirigido por Giancarlo Esposito. Passadas mais de três décadas, ele está caracterizado como o mesmo motorista de “Uma noite sobre a terra” (“Night on Earth”), o filme de Jim Jarmusch lançado em 1991.
Após pegar um passageiro misterioso, que, em plena madrugada, parece ter saído das compras, carregado de sacolas e dá um endereço em área perigosa do Brooklyn, o taxista tenta algum contato. Mas, acaba engatando em monólogo sobre o tema escolhido para “Euforia” .

Presente na sessão, Julian Rosefeldt conversou com a plateia antes e depois. Explicou que, disposto a explorar assunto que sempre evitara na vida, a economia, usou para o roteiro citações coletadas através de dois mil anos de história. Vai de Platão a Snoop Dogg, de Karl Marx a Milton Friedman, de Franz Fanon a Barack Obama… Bota esse conteúdo nos diálogos que se sucedem em diferentes blocos de personagens. Idosos sem teto ao redor de uma fogueira no início da manhã; três trabalhadoras num enorme galpão de vendas on line; adolescentes após a aula num ginásio abandonado.

Overdose de estímulo intelectual, mas, em produção (e narrativa) algo minimalista e pesada. Só que, mostrando a faceta de artista plástico (tanto “Euforia” quanto “Manifesto” tiveram versão instalação em museus), perto do terço final, há uma epifania visual-musical. Numa agência bancária luxuosa (filmada em uma estação de trem de Kiev, pouco antes de Putin iniciar a guerra que não para) o que parece ser um dia normal se transforma em alucinado balé. Cinco, seis dezenas dos até então comportados funcionários e muito ricos clientes surtam em coreografia arrebatadora.
Capitalismo em metástase (como li em artigo recente do mano cientista político) que, aparentemente, vai levar à extinção da Humanidade. O que, de certa forma, como os jovens comentam na última sequência de conversação, não deixa de ser boa notícia para o planeta que tanto maltratamos. Esse bloco jovem, de alguma forma, remete ao que temos visto nos últimos dias nas ruas das grandes cidades brasileiras, tomadas por protestos estudantis. Cenas que têm sido ocultadas pela grande imprensa, esta, comemorando as alianças de Rachadinha com partidos de direita e Centrão. Deixemos o outro lado de salto alto, enquanto vamos continuar forte nas ruas e nas redes.
