Estatutos da gafieira

Tárik de Souza conta como Gafieirando, liderado por Daniela Spielmann, faz o ouvinte requebrar

Para ser lido ao som de Gafieirando em Gafieirando

Foto: Divulgação/Kuarup

Embora tenha gerado um gênero autônomo, o “samba de gafieira”, repleto de corcovas rítmicas e sincopados, o continente nunca cerceou o conteúdo. Requebra-se de tudo com todo tipo de conotação, nestes espaços populares dançantes: do miudinho ao mela-cueca, trança, gancho, pula a cerca, pião aberto e dois pra lá, dois pra cá. Há dez anos agitando os bailes cariocas, o grupo Gafieirando nasceu em 2016, como Daniela Spielmann Trio, “com o propósito de resgatar a tradição da gafieira como música ao vivo para dançar e ouvir”. Inicialmente apenas instrumental, o grupo foi incrementado com as participações dos ases Zé da Velha (trombone) e Silvério Pontes (trompete). A partir de 2022, foram admitidos convidados vocais como as cantoras Alana Moraes e a icônica veterana Áurea Martins. Elas participam do tardio álbum de estreia, Gafieirando (Kuarup), que terá show de lançamento no Acaso Cultural, de Botafogo, no Rio, dia 26 de novembro.

No elenco atual, além das supra citadas cantoras, atuam Daniela (saxes soprano, alto e tenor), Alexandre Maionese (flautas transversas), Silvério Pontes (trompete e flugelhorn), Domingos Teixeira (guitarra), Antonio Guerra (piano e teclados), Rodrigo Villa (baixo acústico e elétrico) e Rodrigo Scofield (bateria). E mais os convidados em faixas específicas, Everson Moraes, Fabiano Segalote (trombones), além dos percussionistas Jovi Joviniano e André Siqueira.

A liderança da carioca Daniela Spielmann, apoia-se num currículo robusto. Iniciada no sax aos 16 anos, estudou com os renomados Juarez Araújo, Mario Séve, Eduardo Neves, Idriss Boudrioua e Vittor Santos. Formou-se em educação musical pela Uni-Rio e frequentou a Berklee College, de Boston, onde teve aulas com Tom Scott. Tocou com Moreira da Silva, Carmen Costa, Mauro Diniz, Zé Keti, Nelson Sargento, Maestro Cipó, Claudio Daulsberg e Rio Jazz Orquestra. Foi integrante fundadora do conjunto de choro Rabo de Lagartixa (com quem gravou O Papagaio do Moleque – Obras de Villa Lobos), além de integrar o grupo Mulheres em Pixinguinha, com quem também gravou. Participou dos discos Choros, Porque Sax?, Brasileirinhas, e fez duos com o violonista Marcello Gonçalves (De Onde Vem o Baião) e a pianista Sheila Zagury (Entre Mil…Você! – Um Tributo a Jacob do Bandolim).

No cardápio eclético do saracoteio deste álbum não poderia faltar um rei das noitadas, o genial compositor gaúcho Lupicínio Rodrigues (1914-1974), tão boêmio que fundou e administrou casas noturnas e restaurantes onde recebia os amigos e colecionava histórias para suas canções. Como o desesperado samba canção Nunca (“Nem que o mundo caia sobre mim/ nem que Deus mandasse/ as pazes contigo/ eu farei”), dialogado sobre cama de sopros pelas solistas Alana Moraes e Áurea Martins. Também dele é o trepidante Se Acaso Você Chegasse (com Felisberto Martins), servido por sopros gingantes, cuíca no recheio e Alana imitando o scat rouco da segunda criadora do mesmo sucesso, Elza Soares, em 1959 (o primeiro foi o cantor Cyro Monteiro, exatos 21 anos antes).

Erudito, jazzista, chorão, mas igualmente associado ao teleco-teco das gafieiras, o paulista de São José do Rio Preto, Paulo Moura (1932-2010) também entra em duas faixas do disco. Numa delas, como homenageado, no sutil fraseado de sopros de Clarinete do Moura (Daniela Spielmann), levado com leveza no balanço, incluindo solos jazzísticos de trompete e clarinete. Na outra, Fibra, destaca-se o Moura compositor, numa parceria com o lendário baterista Eloir de Moraes. Sobra espaço para desempenhos de flauta, guitarra e bateria. Outro músico celebrado é o ex-integrante do grupo, o sergipano de Aracaju, Zé da Velha (José Alberto Rodrigues Matos, 1942-2025), em O Trombone do Zé (de Silvério Pontes). Nele, o instrumento mencionado no título se destaca (em solo de Everson Moraes) assessorado por contrapontos na cadência do samba.

Sons caribenhos pedem passagem no enfezado cha cha cha Reencontro, de Silvério Pontes, rebordado por sax, e no coleante Bolero de Satã, de Guinga e Paulo Cesar Pinheiro. Lançado pela improvável dupla Elis Regina e Cauby Peixoto, em 1979, ele é recriado pela vocalista do grupo, Alana Moraes, em duo com o próprio coautor, Guinga, que desliza pela primeira vez por sua própria vereda tropical, pavimentada por bongôs. Na mesma atmosfera pontilhada pelos couros caribenhos, Albertina no Baile (Daniela/Silvério) evoca as dançarinas dos salões cariocas.

Um ponto fora da curva é o irreverente pop sinuoso Olha Eu Aqui, Oh Oh Oh, hit da cantora Evinha, de 1974, composição de seu irmão, Roberto Corrêa e Jon Lemos: “Você não entende o meu recado/ quer que eu grite, grite com todos os meus pulmões/ no seu ouvido tem teia de aranha/ e nem se liga em certas emoções”, fustiga Alana. Sem esgarçar o verniz caribenho, a ginga de sopros de Gafieira Carioca do multicordas Zé Menezes (José Menezes de França, 1921-2014, cearense de Jardim) restabelece o estatuto da gafieira, que ainda desvela duas inéditas. O samba recorrente Todo Santo Dia (“todo dia santo/ este contrato não vou rescindir”), de Chico Alves e Mauro Aguiar. E a saltitante programática Balacobaco (Sombra) que retrata a protagonista máxima da festa. Ela é “passista do asfalto e do salão também”; “brinca no salto alto quando o samba é de partido alto”; “tem feitiço no seu gingado”; “essa menina quando dança desacata”; “vai cantando, vai requebrando a noite inteira”. Personagem sob medida para incendiar este indomável Gafieirando.

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Autor: Cássia Zanon

Tradutora e jornalista

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