Maysa: uma voz solitária em meio à multidão

Nos 90 anos do nascimento da cantora, o legado de uma lenda da música brasileira

Foto: Wikimedia Commons

Maysa era, primeiro, os olhos, “são dois não sei quê”, escreveu o poeta Manuel Bandeira, arriscando logo em seguida uma definição: “são dois oceanos não-pacíficos”. Depois era a voz. Um timbre rouco, ardente, sensual, que dava a qualquer repertório um estilo único, ainda que fosse possível reconhecer na maneira de interpretar algumas influências de Edith Piaf e/ou Judy Garland. E, de maneira mais íntegra e completa, Maysa era a mulher. A dama dividida entre a alta sociedade paulistana e a boêmia carioca, a cantora que transitava entre a fossa e a bossa. A mulher que despertava paixões, mas que teve uma existência marcada pela solidão. Todas essas características – e muitas outras mais – realçam a personalidade de uma mulher singular, refinada e inteligente.

Maysa – 90 anos no próximo dia 6 – teve quase tudo que pôde almejar nas curtas e intensas quatro décadas de vida. Só não teve paciência e serenidade para chegar à maturidade. Ela tinha pressa demais.

Demais, de Tom Jobim e Aloysio de Oliveira, era também a canção que não foi, mas bem que poderia ter sido escrita inspirada nela. Quem se não Maysa se encaixaria tão bem em versos como “Todos acham que eu falo demais / E que eu ando bebendo demais / Que essa vida agitada não serve pra nada / Andar por aí bar em bar, bar em bar”? Maysa a gravou em 1964 e, 13 anos depois, a música se tornaria profética ao narrar a personagem que dirigia seu carro “correndo, correndo demais…”.  

Moça de linhagem aristocrática (era neta do Barão de Monjardim, com sólidas raízes fincadas na história do estado do Espírito Santo) e que antes de alcançar a maioridade já estava casada com o milionário André Matarazzo (numa cerimônia realizada no dia 24 de janeiro de 1954, véspera do quarto centenário de São Paulo), Maysa nunca aceitou o papel de (apenas) socialite.

Bem antes disso, aos 12 anos, compôs sua primeira canção, Adeus, e antes ainda de completar seu vigésimo aniversário, já havia sido convidada pelo produtor Roberto Côrte-Real para gravar um disco. O álbum Convite para ouvir Maysa (todo com composições próprias) nascera para ser algo isolado, esgotando-se com a única tiragem, toda ela beneficente e destinada a um hospital. Esqueceram de combinar com Maysa. O que muitos viam como um fim – em especial seu marido, André – Maysa viu como um começo.

A partir de então, ela passou a tomar as decisões. Contratada pela TV Record, Maysa ganhou um programa e logo aceitou gravar um segundo disco. Nesse ninguém precisou convidar os ouvintes. Maysa já os havia cativado.

Não parou mais. Cinderela às avessas, ela deixou a vida de luxo e glamour e optou pelas boates escuras e enfumaçadas. Separada, ela dividia-se entre Rio-São Paulo. E não só. Apenas entre 1961 e 1965, Maysa se apresentou na Argentina, Portugal, França, Itália, Espanha, Estados Unidos e até no Japão. Cantava – e bem – em qualquer idioma que lhe pedissem.

Nessa roda viva de turnês, noitadas e amores (Ronaldo Bôscoli, Roberto Carlos entre outros), Maysa passou a ter uma vida vitaminada por calmantes e bebidas. Seu peso oscilava, sua silhueta mudava, mas seu humor se mantinha luminoso. Numa das vezes que emagreceu barbaramente, depois de ter chegado quase aos três dígitos na balança, Maysa riu da própria situação: “Perdi litros, não quilos”.

De volta ao Brasil, Maysa retomou trabalhos televisivos e fez uma temporada de sucesso no Canecão, que rendeu o lançamento de um disco gravado ao vivo.

Meu Mundo Caiu, composição de 1958, parecia ser autobiográfica e, na verdade, devia ser – como quase tudo que Maysa fazia. Na música, ela era mais uma intérprete do que uma cantora, imprimindo a cada canção um estilo personalíssimo. Na TV, alternou participações como ela própria – como jurada dos programas de Flávio Cavalcanti, por exemplo – com relatos ficcionais que davam a impressão de terem sido escrito sob medida, como a Simone, da novela O Cafona, em que fazia o papel de uma mulher casada com um industrial paulista que, cansada da vida de socialite, larga o marido e troca São Paulo pelo Rio.

Nos últimos anos de vida, Maysa manteve relacionamentos estáveis com o ator Carlos Alberto e com o maestro Julio Medaglia, mas preferia ficar longas temporadas sozinha. Nos últimos anos, Maysa inspirou um ensaio (escrito por José Roberto Santos Neves para a coleção Grandes Nomes do Espírito Santo), uma minissérie (Maysa: Quando Fala o Coração) e duas biografias (Meu Mundo Caiu – A Bossa e a Fossa de Maysa, de Eduardo Logullo, e Maysa – Só numa Multidão de Amores, de Lira Neto). Todas as narrativas reforçam o caráter solitário e melancólico da personagem. Uma mulher deprimida, que admitia nos anos finais estar “cansada de buscas e desencontros”.

Essa busca foi constante até oo fim da tarde de 22 de janeiro de 1977, quando ela , numa ida a Maricá, onde sempre buscava refúgio e descanso, perdeu o controle da Brasília azul que dirigia em alta velocidade e bateu na mureta da ponte Rio-Niterói. Socorrida, Maysa morreu antes de chegar ao hospital. Tinha 40 anos.

Avatar de Desconhecido

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.