Jazz em fuga

Bruce Henri fala de sua amizade com Ronald Biggs, o mais famoso ladrão do mundo, e de como fizeram juntos um disco tão importante e infelizmente tão pouco conhecido

Para ser lido ao som de Bruce Henri em Mailbag Blues

Ronald Biggs frequentava meu círculo de amizades no início dos anos 70, quando ele ainda estava “undercover” e anônimo, fazendo trabalhos de marceneiro, profissão que exercia com excelência até se render ao apelo da “vida fácil”. Certa noite de maresia ele confessou sua verdadeira identidade e seu feito, mas ninguém acreditou. Era “papo de doidão”. Só acreditamos e ficamos incrédulos quando ele foi preso pela Scotland Yard pelas mãos do detetive Constable Jack Slipper, que havia sido alertado pelo editor de um jornal inglês que tinha comprado os direitos de primeira entrevista exclusiva de Biggs. O editor não fez nada mais do que agir de acordo com a lei, mas Biggsy acreditou que poderia indiretamente revelar seu paradeiro para o braço comprido da Yard, faturar uns trocados, se divertir com a história e sair por cima. No final, ele estava certo pois a Policia Federal do Brasil fez valer sua soberania e impediu Slipper de levar o refém… Longa história, outro episódio.

Durante o período que ficou encarcerado na Praça XV, Biggsy fez amizade com um outro detido, este um falsificador de quadros que aguardava deportação e que lhe vendeu a ideia de fazer um filme de sua história. Biggs entusiasmou-se com a ideia e, logo posto na rua, me procurou para ver se eu topava fazer a trilha sonora enquanto ele procurava quem bancasse a filmagem. Embarquei animadamente com dinheiro e tempo no projeto, pois havia acabado de vender minha participação societária na Banana Eufórica (a pioneira empresa de produção e sonorização no Brasil… outra longa história…).

Em princípio, Biggs entraria com 50% dos custos de produção da trilha mas infelizmente ele não conseguiu levantar nenhum capital. Mesmo assim, como eu já estava envolvido, empolgado e pronto para levar adiante, tomei decisão de bancar sozinho os custos de produção. Colocado dessa maneira até parece decisão de promissor jovem empresário mas devo admitir que, com pouco mais de 20 anos e pouquíssima experiência, minhas decisões eram norteadas mais pela qualidade da erva do que por qualquer tipo de sensatez.

A banda (ou o bando) de Biggs & Bruce: Guilherme Vaz (teclados), Jaime Shields (guitarra), Bruce Henri (baixo), Nivaldo Ornellas (flauta e sax), Nacho Mena (percussão), Aureo de Souza (bateria), Ronnie Biggs (ladrão) (Foto: Reprodução)
A banda (ou o bando) de Biggs & Bruce: Guilherme Vaz (teclados), Jaime Shields (guitarra), Bruce Henri (baixo), Nivaldo Ornellas (flauta e sax), Nacho Mena (percussão), Aureo de Souza (bateria), Ronnie Biggs (ladrão) (Foto: Reprodução)

Chamei Guilherme Vaz e Jaime Shields para, durante um mês, acompanharmos juntos a excitante narrativa com a qual Biggsy nos entretinha e compor as músicas de forma a ilustrar os episódios de suas intrépidas aventuras. A seguir chamei os outros músicos para executar as composições e gravamos tudo direto para quatro canais no estúdio do Bill Horne. Biggs insistiu em chamar um colega dele que tocava (mal) gaita e deixei participar numa das faixas. Fora isso ninguém cantava nem narrava mas minha inexperiência e presunção “artística” me fizeram acreditar que isto era mero detalhe e que a qualidade e ousadia da música e do projeto seriam suficientes para impulsionar nossas carreiras de forma mundial.

E o sucesso do projeto? Serviu para firmar minha amizade com Biggsy. Amizade esta que durou décadas até ele finalmente se render à justiça inglesa que implacavelmente encarcerou-o até seus últimos dias.

Era um ladrão? Sim, mas era também um anarquista e um oponente ao “sistema”, coisa que eu muito apreciava aos 24 anos em 1974. Musicalmente, até hoje me admiro com o resultado final, especialmente considerando a (falta de) idade, experiência e capacidade tecnológica à nossa disposição. O resultado comercial não foi um sucesso: com típico isolacionismo cultural americano, o A&R da Capitol Records afirmou nunca ter ouvido falar no “espetacular assalto ao trem pagador”. Com típica rigidez moral britânica, BBC e EMI ficaram indignados com minha “falta de escrúpulos” e com a ideia de um assaltante dos cofres de Sua Majestade lucrar duas vezes com o feito. Só faltaram empunhar uma vassoura para me enxotar dos seus escritórios em Manhattan. Apenas a Warner Bros. se interessou em adquirir os direitos pelos US$ 150 mil que eu pedia à época, em 1974, e o senhor Nesuhi Ertegun em pessoa veio negociar comigo. Me procurou nos bastidores do Canecão (onde eu tocava com Ney Matogrosso, outra longa história…) mas quando constatou que a participação do Biggs era apenas “virtual” como dizem hoje em dia e que não tocava nem um pandeirinho, retirou a oferta. Caso contrário, quem aqui labuta às teclas deste processador de textos coagido pelo chicote do amigo Márcio Pinheiro, teria hoje talvez mais posses do que lembranças.

Fast forward algumas décadas e recebo telefonema de um iniciante selo inglês interessado em formar um catálogo de preciosidades brasileiras. Tinham ouvido falar do Mailbag Blues e perguntaram se eu topava ceder os direitos para lançamento digital. Topei de imediato, fechamos negócio e recebi um valor simbólico, suficiente para uma rodada de chope a preços abusivos num “pé limpo” carioca.

Apesar do louvor unânime da imprensa especializada naquela ilhota chuvosa, fria e brexitada, o “produto” não vendeu e portanto os royalties não deram nem para outra rodada, muito menos para bancar a piscina dos meus sonhos. Obrigado sigo eu pela desobrigação de cuidar de uma carreira mundial com suas responsabilidades, desgostos e overdoses.

E qual a faixa eu diria ser a melhor do disco? Impossível indicar uma pois trata-se de uma trilha sonora com início, meio e fim, devendo ser ouvido nesta sequência, como um LP ou uma trilha sonora que era seu original raison d’être.

Feliz 2019!!!


Quase memória de um baixista

Márcio Pinheiro

Bruce Henri foi testemunha ocular (e auricular) de muitas histórias que não podem se perder na poeira do tempo

O texto acima faz parte de um insidioso e maquiavélico plano de minha autoria: forçar Bruce Henri a escrever suas memórias. Bruce é uma das figuras mais originais e interessante que conheço. Múltiplo em múltiplas atividades, Bruce é marceneiro, especialista em paellas, produtor musical, cantor, compositor, ex-dono de pousada em Búzios e – para citar sua faceta mais conhecida – baixista com uma série de serviços prestados à música ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil, Erlon Chaves (como contou aqui na AmaJazz), Ney Matogrosso, Joyce e muitos outros. Além disso, é uma das poucas pessoas que conheço que viu os Beatles ao vivo. Desde 2011, Bruce é o responsável pela direção musical da Rock Street, uma das atrações paralelas do Rock In Rio, tanto na cidade-sede quanto em Lisboa, para onde Bruce mudou-se em 2013 e até hoje vive ao lado da atual mulher, a portuguesa Diana Nina.

Nova-iorquino, 69 anos, pai de dois filhos (o produtor Thiago e a botânica Paula), filho de um antiquarista que veio para o Brasil depois de uma passagem pela Espanha, Bruce chegou ao Rio em 1966. Sua primeira experiência musical foi com a banda The OutCasts (que lançou disco pelo selo Elpa, da bossanovista Elenco) e, logo depois, Bruce, ao lado dos guitarristas Jaime Shields (também americano) e Ricardo Peixoto e do baterista Alyrio Lima, inventaria a banda Soma. O quarteto gravaria com Jards Macalé, o compacto Só Morto (1970) antes de Bruce se mandar para a swingin’ London onde se integraria à banda do exilado Gilberto Gil.

Na Inglaterra, conheceu o escocês Maurice Hughes, que trabalhava como técnico de som de Gil e Caetano Veloso. Das conversas surgiu a ideia de bolar um projeto inovador: a Banana Eufórica. A versão tropicalista e doidona da Laranja Mecânica era na verdade uma equipe de sonorização montada a partir dos ótimos equipamentos que a dupla conseguiu importar. A euforia daria certo por algum tempo, mas logo o inquieto Bruce se desligaria da sua parte e partiria para o projeto ao lado de Biggs (que contou aí em cima).

Seguiria pelos anos 80 e 90 dividindo-se entre Búzios e Rio de Janeiro. Tocaria ainda com Fagner, Naná Vasconcelos, Fafá de Belém, Ritchie…, criaria um selo, Jungle Jazz Records, e lançaria três discos Bruce Henry (1991, com o nome grafado de maneira diferente), Equatorial Blues (1993) e Búzios Live (1995, gravado ao vivo na sua pousada, A Estalagem, com participações especiais de Mauro Senise, Jards Macalé, Raul Mascarenhas e Márcio Montarroyos. No novo milênio, Bruce ainda gravaria seu CD mais recente, Villa’s Voz, uma versão jazzística de dez composições de Heitor Villa-Lobos, e seria personagem/ator do documentário A Cidade Ímã, sobre a relação de quatro músicos estrangeiros com o Rio de Janeiro, em que Bruce – já impregnado pelo espírito brasileiro – dá um de seus maiores ensinamentos a partir do que aprendeu por aqui: “Deixa comigo são duas palavras que precedem os maiores desastres”.

Sem desastres e sem grandes traumas, ele segue firme.

Taí. Bruce, já contei uma (mínima) parte de muitas das tuas aventuras. O resto é contigo. Let’s play that?


Foto: E o Rio Era Assim/CC0/Wikicommons
Foto: E o Rio Era Assim/CC0/Wikicommons

O ANÁRQUICO MR. BIGGS

Ronald Arthur Biggs nasceu em Lambeth, em agosto de 1929 entrou para história como um dos 15 participantes do ousado assalto a um trem postal em Buckinghamshire, em 1963. A fortuna de 2,6 milhões de libras – aparentemente – nem pôde ser usufruída já que Biggs seria detido no ano seguinte, juntamente com a maioria dos envolvidos.

Mandado para prisão, também não ficou muito tempo por lá, pulando o muro e escapando em 1965. Entre disfarces e identidades clandestinas, Biggs passou pela França e pela Austrália até chegar ao Brasil em 1970. Se adaptaria bem ao Rio de Janeiro e por aqui ficaria durante quatro anos na mais completa clandestinidade.

No Brasil da ditadura, ele era apenas um gringo que trabalhava como marceneiro. Descoberto pela Scotland Yard não pôde ser levado de volta pois na época não havia compromissos recíprocos ou tratados de extradição firmados entre o Brasil e o Reino Unido. Curiosidade: o Brasil aceitou o acordo de reciprocidade com a Inglaterra, sendo que este país não quis. Em razão do regime autoritário, as autoridades inglesas temiam que o Brasil solicitasse a extradição de presos políticos.

Da noite para o dia, Biggs virou pop star. Passou a estampar camisetas e canecas e muito antes das celebridades instantâneas passou a faturar em cima da própria imagem com interessados em ouvir suas histórias em troca de almoços e jantares.

A aparente tranquilidade seria abalada em 1981, quando Biggs foi sequestrado e levado até Barbados. Um grupo pretendia receber uma recompensa do governo britânico mas o plano não se confirmou e Biggs retornou ao Brasil.

Permaneceria aqui até 2001, quando, numa entrevista ao jornal The Sun, manifestou desejo de voltar à terra natal – mesmo que isso viesse a significar uma possível prisão. Foi mesmo preso, vendeu sua história ao The Sun e permaneceu encarcerado até agosto 2009, quando completou 80 anos.

Velho e doente, Biggs já não tinha mais como viver sozinho. Internado numa clínica para idosos ficou ali pelos quatro anos seguintes até morrer de pneumonia em dezembro de 2013. Foi cremado e sobre seu caixão foram colocadas duas bandeiras: a britânica e a brasileira.

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