Eu e as bossas

João Carlos Rodrigues* estreia na AmaJazz com um depoimento sobre seus encontros com os três “jotas” que criaram as vertentes principais da Bossa Nova: Jobim, João Gilberto e Johnny Alf. Na ordem cronológica e, coincidentemente, na ordem crescente da intimidade.

Para ser lido ao som de Johnny Alf em O Que É Amar, do disco Eu e a Bossa, produzido por João Carlos Rodrigues

1971. Tinha 22 anos. Fui convocado pela minha melhor amiga, a bela Letícia Moreira de Souza, a comparecer a seu apartamento no Leblon para “uma surpresa”. Quando cheguei lá, era o Glauber Rocha, que ela tinha conhecido através da Angela Ro Ro, sua (dela ) namorada. Bem, passei ia fazer parte do grupo e tivemos até uma viagem de ácido nus na então deserta Praia de Grumari. Glauber estava deixando o Brasil rumo a Itália. Antes fez um périplo pelos artistas que moravam no Rio, uma despedida. Participei de uma visita ao ensaio de um show do Jorge Ben na Casa Grande e uma visita à cobertura comunitária dos Novos Baianos em Botafogo. Tenho a impressão de que foram na mesma noite. Tom Jobim foi a terceira visita. Ele morava numa bela casa creio que na Gávea. Lá fomos nós (Ro Ro dessa vez não foi). Embora eu seja amigo de adolescência da Eliane Canneti, casada com o Paulo filho do Tom, nunca tinha conhecido pessoalmente o maestro. Recebeu sentado ao seu piano, conversando e tocando ao mesmo tempo. Defronte dele uma jovem admiradora embasbacada. Tom já havia gravado ou ia gravar o disco Matita Perê e mostrava em primeira mão a extraordinária música título e também Águas de Março e Ligia. Glauber vibrou com a primeira, cuja letra épica de Paulo César Pinheiro tem um clima de Guimarães Rosa, uma das suas obsessões. Conversa vai, conversa vem, citei o nome do Johnny Alf. Tom parou como que para pensar, disse “Um compositor que vive no mundo da lua com os pés nas nuvens” e cantou duas músicas inéditas do Alf que nunca tinha ouvido falar Noite sem Lua e Céu de Estrelas feitas ainda nos anos 50. Esse foi meu encontro pessoal com Antônio Carlos Jobim. Breve, porém inesquecível.

1973. Estava em Nova York, vindo de uma estadia fascinante, porém duríssima, em San Francisco. Morava na casa do Fabiano Canosa, pesquisador e programador de filmes, na rua 99 West, área então degradada, hoje nos trinques. Surgiu por lá Glauber Rocha, vindo da Itália rumo a Cuba. Tinha dirigido dois filmes na Europa que não aconteceram (O Leão de Sete Cabeças e Cabeças Cortadas), separara-se de Letícia, que retornara ao Brasil, enquanto Ro Ro decidiu ir para Londres onde estavam os baianos exilados (participou tocando harmônica numa gravação de Caetano). Muito bem, Glauber em NY também visitava os brasileiros ilustres, e o mais ilustre era o João Gilberto, que morava então sozinho no Hotel Bolívar em Central Park West. Presenciei vários desses encontros na casa do Fabiano e também no Hotel Albert onde então morava a Vera Barreto Leite. Muita maconha, vinho branco e aquelas outras coisas. Também presente o ator francês Jean Pierre Kalfon. Interessantíssimo o papo do cineasta e do cantor, ambos baianos, mas de temperamentos totalmente diversos. Glauber sempre exaltado, João Gilberto sempre minimal. Falavam sobre tudo: ditadura militar, Salvador dos anos 50, Jorge Amado, cultura em geral. João tinha a mania de conversar dedilhando o violão e assim ia levando a voz das pessoas para seu tom natural, acalmando todos sem ninguém perceber. Depois que Glauber foi para Havana (via México) um dia recebi um telefonema do JG pedindo para eu comprar uma comida mexicana (tamales) num supermercado X e levar para ele no hotel. Segui suas instruções (“siga pelo corredor principal, vire à sua direita e na estante defronte na terceira prateleira à esquerda etc”) e achei que ia me dispensar logo depois, mas não. Me mandou entrar, sentar e conversamos a tarde inteira. Isso se repetiu muitas vezes, no mínimo umas dez. O papo era ótimo e variado. Um dia mencionei o Johnny Alf, ele parou um minuto e falou “Johnny é tudo”. Também o vi cantando, a meu pedido, e genialmente, Rapaz de Bem, que nunca gravou, creio que fui a única pessoa do mundo, parece que ele evitava cantar, sabe-se lá por que. João tinha passado uma conversa na Lucimar, uma telefonista brasileira, e falava horas de ligações internacionais de madrugada sem pagar nada. Quando voltei ao Brasil ele e Fabiano mandaram discos do James Brown para ela que morava em Madureira, jantou na minha casa (estava com meus pais em Copacabana) e era simpaticíssima. Esse foi o João Gilberto que conheci. Relação tão interessante acabou quando um dia no meio de um daqueles longuíssimos telefonemas dele, ouviu alguém de casa reclamando que queria falar, desligou educadamente e nunca mais. Mas, quando vinte anos depois eu produzi um disco do Alf , ele, antes mesmo de sair, mandou pedir pelo Otavio III para ouvir a fita. Eu claro, dei uma cópia, mandou dizer que gostou, mas a relação pessoal não se fez nunca mais.

1992. Rio de Janeiro. Ao comprar o raro vinil de Diagonal, o segundo LP do Johnny Alf, por um preço salgado na Rarity’s Records, o melhor sebo da cidade, o dono, o falecido Carlinhos, me perguntou se eu queria conhecer o próprio, que morava ali perto num hotel na Praça Tiradentes. Claro que eu quis e assim foi feito. Logo de saída, ao saber que eu era crítico de cinema, me veio com uma pegadinha: “Você conhece a versão integral de Solaris do Andrei Tarkovsky?” Ninguém quase conhece pois foi cortado em 20 minutos logo depois da estreia na URSS. Acontece que eu tinha visto numa sessão especial no MOMA de Nova York e contei logo as diferenças entre as duas versões etc e tal. Ele logo foi com a minha cara, também porque eu conhecia bem os discos e não fazia perguntas bobas, procurava saber também das suas músicas menos conhecidas, coisas assim. Quando voltou para São Paulo nos falávamos uma vez por semana (o empresário estranhou porque ele detestava falar no telefone e comigo ficava horas). Ele me mandava fitas cassete com músicas selecionadas, seleção super eclética, ia de Angela Maria a Nat King Cole e até Queen Latifah e Debussy. Mandei pra ele CDs do Bola de Nieve e o filme Fireworks do Kenneth Anger, gostou. Um belo dia de 1996 tive a oportunidade de um projeto financiado pela Fundação Rockfeller e ele foi o tema escolhido. Dessa colaboração saíram dois vídeos (Cult Alf e Um Retrato de Johnny) e dois CDs (Cult Alf e Eu e a Bossa) onde canta e improvisa faixas de quase 10 minutos, ao vivo, no Vinicius Bar. Nunca esteve tão à vontade. Posteriormente escrevi sua biografia (Duas ou Três Coisas que Você não Sabe), que foi publicada pela coleção Aplauso e existe online para ler ou baixar gratuitamente. Sua morte foi muito sofrida e me deixou bastante abalado.

Mas tenho uma última historinha pra contar. Um dia ele me viu assobiando uma daquelas músicas inéditas dele que eu ouvira o Tom cantar décadas antes (o Paulinho Jobim me ensinou). “Onde foi que você ouviu isso?!” perguntou espantadíssimo, pois não gravara e não cantava, pois tinha composto para a Dolores Duran e ela morrera antes de gravar. Ficou todo contente ao saber que o Tom tinha decorado. E incluiu em seu último disco Sings and Plays with his Quintet feito para o mercado japonês em 2001 e aqui lançado com o péssimo título de Mais um Som, vê se pode. Noite sem Lua e Céu de Estrelas são lindas e merecem ser melhor conhecidas.


* João Carlos Rodrigues é jornalista, biógrafo (de João do Rio e de Johnny Alf), co-roteirista (de Rio Babilônia, ao lado de Neville D’Almeida e Ezequiel Neves) e autor de Criaturas que o Mundo Esqueceu, surpreendente reunião de dez contos sobre malandros, travestis, prostitutas, mendigos, michês e tantos outros personagens marginais e periféricos.

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