duojazz | Coisa com coisa

Dois textos reverenciam a grande arte de Moacir Santos, um músico inventivo múltiplo que ainda surpreende novos e velhos ouvintes

Textos para serem lidos ao som de Coisas
Juarez Fonseca

Tivemos nos últimos tempos – (este texto foi originalmente publicado em 2001, na revista Aplauso) – uma pilha de datas ligadas à história da bossa nova, como em 1998 os 40 anos do movimento, em 1999 os cinco anos da morte de Tom Jobim, no ano passado os 20 da morte de Vinicius, agora em junho os 60 anos de João Gilberto. Essas datas foram marcadas por lançamentos de discos e cadernos especiais na imprensa. Em nenhum dos discos apareceu alguma música de Moacir Santos e em nenhuma das páginas foi citado o nome do compositor, arranjador e saxofonista cujo trabalho foi/é um dos alicerces da bossa.Esse trabalho só agora começa a receber as luzes devidas, graças ao CD duplo Ouro Negro, lançado pelo selo carioca MP,B, com distribuição da Universal. No encarte, o jornalista Ruy Castro (que evidenciara a importância de Moacir Santos em oito citações no livro Chega de Saudade), vai ao ponto: “Tom Jobim dizia que, no Brasil, é proibido ao aborígene sair da taba. Moacir Santos foi um dos que saíram e o Brasil fez desabar sobre seu nome um manto de silêncio. Pois chega de silêncio. Chegou a hora de o Brasil saber de Moacir, reaprender Moacir, merecer Moacir”.Das 28 músicas do álbum, apenas duas são inéditas. Mas é como se todas fossem, pois a maioria dos apreciadores da música instrumental brasileira de hoje não deve ter em sua discoteca um único exemplar de Moacir Santos. Seu primeiro disco, o clássico Coisas, gravado e lançado no Brasil em 1965, pelo selo Forma, está desde então fora de catálogo. Os três que gravou para a Blue Note, nos Estados Unidos, nos anos 70, também não se encontram nas lojas. Depois ele gravaria pouco, dedicando-se aos arranjos, à composição de trilhas para o cinema e às aulas.Vivendo desde 1967 nos Estados Unidos (onde é membro da Associação dos Professores de Música da Califórnia), Moacir Santos estudou no Brasil com Koellreuter, Cláudio Santoro e Guerra Peixe, e, em seguida, passou a transmitir seus conhecimentos para alguns dos expoentes da nova geração, como Baden Powell, Roberto Menescal, João Donato, Sérgio Mendes, Eumir Deodato, Dom Um Romão, Paulo Moura. Basta citar-se esses alunos para dar a medida do mestre. Para Tom e Vinicius, Moacir era o “patrono” da bossa.Mas até chegar aí foi uma longa história. Ele nasceu na pequena Flores do Pajeú, Pernambuco, em 1926. Criado por uma família branca, aos 14 anos, já tocando banjo, violão, bandolim e saxofone, fugiu de casa em busca dos horizontes de Recife. Depois de uma passagem pela Rádio Clube, vai fazer o serviço militar em João Pessoa e chega a sargento-músico. Abandona a farda ao ser convidado pela Rádio Tabajara, da capital paraibana, para integrar sua orquestra.Na verdade, a emissora estava formando um novo conjunto para substituir a Orquestra Tabajara, de Severino Araújo, de mudança para o Rio (ainda em atividade, Severino é talvez o maior ícone dos chefes de orquestrado rádio brasileiro). E em 1948, aos 22 anos, Moacir segue a trilha de Severino, passando a trabalhar como saxofonista da Rádio Nacional. Mas o jovem músico não quer ser só um intuitivo e vai estudar com os mestres eruditos citados acima, formando-se em regência.Para encurtar a história – contada no encarte do CD pelo músico e pesquisador Nei Lopes –, em 1951 Moacir é promovido a arranjador e regente da Nacional, ao lado de Radamés Gnattali, Leo Peracchi e Lírio Panicalli. Um raro negro entre os “italianos”. E ainda fazia arranjos para o teatro de revistas e para gravações de discos. Em 1963, começou a compor trilhas para filmes. Assina a música de clássicos do Cinema Novo como Seara VermelhaGanga Zumba e Os Fuzis. Da trilha de Ganga Zumba saiu seu primeiro sucesso como compositor, Nanã.

Cantada no filme por Nara Leão, Nanã chamava-se originalmente Coisa nº 5. A versão original, instrumental, apareceu no LP Coisas. Moacir costumava mostrar as músicas para os amigos dizendo “olha esta coisa que eu fiz”. Daí batizou as músicas do LP de Coisa nº 1Coisa nº 2Coisa nº 3 e assim por diante, até o número 10. “Se os compositores eruditos numeram as suas obras, por que não posso numerar as minhas?”, argumentava. Para o jornalista Sérgio Augusto, o disco Coisas é “um Santo Graal da moderna música popular brasileira”.

Coisa nº 5, ou Nanã, abre o álbum Ouro Negro. Na sequência, entre músicas dos discos americanos de Moacir, estão todas as dez Coisas. Como as partituras originais se perderam, recuperar os arranjos foi um trabalho penoso para o violonista Mario Adnet e o saxofonista Zé Nogueira, respeitados músicos cariocas responsáveis pelo projeto e a produção de Ouro Negro. “Pegamos o LP e tiramos os arranjos nota a nota”, diz Zé Nogueira. O que se ouve nas 28 faixas é o trabalho acabado de Moacir como compositor e arranjador.

Nos discos americanos, o maestro contou com músicos como Joe Pass, Bill Henderson, Frank Rosolino, Clair Fischer. Para a versão brasileira, Nogueira e Adnet escalaram um time formado, entre outros, por Cristóvão Bastos (piano), Marcos Nimrichter (órgão), Ricardo Silveira (guitarra), Jorge Helder e Zeca Assumpção (contrabaixos), Nailor Proveta e Teco Cardoso (saxes), Vittor Santos (trombone), Phillip Doyle (trompa), Jessé Sadoc (trompete), Paulo Sérgio Santos (clarone), Armando Marçal (percussão) e Jurim Moreira (bateria).

“Reunir esse pessoal foi a parte mais fácil da produção, pois todos queriam participar”, conta Zé Nogueira. “Afinal, Moacir Santos é o músico dos músicos e seus arranjos, além da alta qualidade, têm extrema originalidade. Sua formação do naipe de sopros, por exemplo, é única, diferente de tudo”. Então, no estúdio não estavam apenas grandes músicos mas fãs de carteirinha do maestro. O resultado é o que se pode chamar de integração perfeita para a realização de uma obra rara.

Ouro Negro é um dos melhores discos instrumentais já feitos no Brasil. Instrumentais? Não só: para interpretar os poucos temas com letra, Adnet e Nogueira tiveram a adesão de Gil, Milton, Djavan, João Bosco, Joyce, Ed Motta. E as letras são todas do grande Nei Lopes, que deixou de lado os versos originais em inglês para criar coisas com temática afro-brasileira. “Moacir produziu, nos anos 60 e 70, a música popular mais sofisticada e ao mesmo tempo mais enraizada nas tradições afro-brasileiras”, define Nei. “Acho que a vida inteira me preparei para essa parceria”.

Aprovado pelo Ministério da Cultura, com patrocínio da Petrobrás, o projeto Ouro Negro oportunizou uma das raras vindas ao Brasil de Moacir. Ele estivera aqui em 1985, participando do Free Jazz, e em 1992, participando do Projeto Memória Brasileira – Arranjadores. Em fevereiro de 2001, voltou para acompanhar as gravações de Ouro Negro, “dando sugestões e lapidando acordes”. Por causa de um derrame que teve anos atrás, não pôde tocar seu sax. Mas sua voz está presente em algumas faixas.

E agora chovem convites para apresentações ao redor do mundo. O álbum foi lançado (pelo selo Verve) nos EUA, Europa e Japão. Zé Nogueira: “É uma produção cara, mas nossa ideia é levar adiante, mesmo sem a presença de Moacir, que optou por uma vida de reclusão. Seria maravilhoso viajar com ele, sua sabedoria e suas histórias”. E será difícil tirá-lo de sua casa, pois desde que Horace Silver o “descobriu”, no fim dos 60, Moacir passou a ser uma referência também para os músicos norte-americanos.

Márcio Pinheiro

discos de moacir santos
Todas as coisas – e muito mais – de Moacir Santos

Talento múltiplo – referendando a saudação elogiosa feita por Vinicius de Moraes em Samba da Benção – Moacir Santos fez com Coisas, disco gravado para a Forma em 1965 e, durante anos fora de catálogo, um manifesto musical de um dos criadores de maior influência na MPB. Ao todo são 10 faixas, todas batizadas da mesma maneira, com o nome de Coisas, e numeradas de 1 a 10, mas sem obedecer uma ordem no disco. A Forma, gravadora comandada por Roberto Quartin, seguia uma linha muito semelhante à da Elenco, de Aloysio de Oliveira, mas com uma ênfase maior na música instrumental.Os anos de ostracismo não diminuíram em nada a importância do disco e, em alguns casos, serviram até para dar uma dimensão maior a um clássico. Se era desconhecido do grande público (e de certa forma ainda é), Moacir nunca foi estranho a quem se interessa pelo que há de mais original nos sons brasileiros. Compositor, maestro, arranjador, multi-instrumentista, professor, nome das “internas” da MPB, músico dos músicos, Moacir é mestre de uma legião de grandes cantores e instrumentistas – de Carlos Lyra a Alaíde Costa, de Dom Um Romão a Edison Machado, de Baden Powell a Paulo Moura, de Raul de Souza a Zé Nogueira, de Nara Leão a Roberto Menescal.

Como Duke Ellington, o instrumento de Moacir é a orquestra, mas Coisas capta ele também como instrumentista, soprando o seu potente sax-barítono. Está lá também a versão original do seu maior sucesso, Nanã (ou Coisa Nº 5), que Cacá Diegues usou em Ganga Zumba. A partir daí Nanã ganhou letra (de Mario Telles) e recebeu mais de 150 interpretações. Foi também com um filme, Amor no Pacífico (dirigido pelo obscuro Zygmunt Sulistrowski), que Moacir viajou pela primeira vez para os Estados Unidos. Havia ganho do Itamaraty duas passagens – uma para ele e outra para Cleonice, sua mulher – e resolveu partir. A admiração que existia no Brasil se ampliou nos Estados Unidos. O círculo passou a incluir músicos de jazz como o pianista Horace Silver – que o indicou para a Associação dos Professores de Música da Califórnia –, o contrabaixista Ron Carter, além de dois arranjadores de primeiríssimo time: Henry Mancini e Lalo Schifrin.

A opção por se fixar em Los Angeles contraria a biografia desse nordestino, nascido no sertão de Pernambuco em julho de 1926 (“vem de um lugar chamado Flores”, como também lhe homenageou Gilberto Gil em uma canção do CD Sol de Oslo), e que sempre foi um nômade. Órfão de mãe aos três anos (o pai ele nem chegou a conhecer), Moacir acabou sendo adotado por uma madrinha e foi morar em Recife. Na capital pernambucana começou a se interessar pela música, demonstrou facilidade em aprender vários instrumentos e passou a integrar grupos itinerantes que viajavam pelo Nordeste, geralmente acompanhando circos.Em 1946 se juntou à principal orquestra em atividade, a do maestro Severino Araújo e foi como músico desse grupo que chegou ao Rio, em 1948. Moacir foi trabalhar na Rádio Nacional e resolveu se aproximar dos maestros Guerra-Peixe e Claudio Santoro. Aluno de Hans Joachim Koellreutter (também mestre de Tom Jobim), Moacir aliou à formação em orquestras populares, conjuntos de bailes e coretos o gosto pelas composições eruditas. Com Koellreutter descobriu o dodecafonismo, passou a estudar a obra de Bach, Beethoven e Mozart e se consolidou com o autor da mais original mistura de elementos clássicos com populares desde Villa-Lobos. Foi esse interesse pelas obras eruditas que fez com que batizasse muitas de suas composições com o nome de Coisa seguida de um número, como se fossem opus numerados.

Um de seus discípulos, o falecido violonista Baden Powell, disse certa vez que Moacir era um professor sensacional, meio metafísico, que explicava a harmonia, os intervalos entre as notas e as dissonâncias, usando como exemplo as estrelas. O encanto pelo místico e pelo esotérico sempre estiveram presentes na vida e na obra de Moacir. Morando nos Estados Unidos desde 1967, primeiro em Nova York, depois em Los Angeles – a “Cidade dos Anjos”, como gostava de dizer – atendendo a um convite de Sérgio Mendes.

Nos seus últimos anos de vida, por causa de um primeiro derrame, ficou sem os movimentos da mão direita e impedido de tocar qualquer instrumento, em especial o sax-barítono (o preferido entre os tantos instrumentos que dominava ao lado de outros da família das palhetas e também do violão, do banjo e do bandolim) e nem sequer dedilhar o piano (seu instrumento favorito para compor). Antes do segundo e fatal derrame, em agosto de 2006, mostrava-se orgulhoso por despertar um interesse tardio e acreditava que todas as homenagens poderiam se transformar no reencontro de um exilado com suas raízes. De um navegador errante com o porto seguro. Infelizmente, não teve tempo.

>> Leia a entrevista com Zé Nogueira em que ele fala de sua relação com Moacir Santos

 

 

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