Autorretrato em muitas cores

Com Ah Um, Charles Mingus sintetizou todas referências musicais e culturais que marcaram sua vida

Para ser lido ao som de Charles Mingus em Mingus Ah Um

Foto: Tom Marcello Webster/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commos
Foto: Tom Marcello Webster/CC BY-SA 2.0/Wikimedia Commos

Há exatos 60 anos, Charles Mingus saía do estúdio com sua mais importante obra concluída. Aos 37 anos recém completos, o compositor finalizara Mingus Ah Um. Foram exatos sete dias de gravação, de 5 a 12 de maio, em que Mingus e seu contrabaixo estiveram à frente de um septeto – John Handy (sax-alto e clarinete), Shafi Hadi (sax-alto e sax-tenor), Dannie Richmond (bateria) , Horace Parlan (piano), Booker Ervin (sax-tenor) mais os trombonistas Jimmy Knepper e Willie Dennis se revezando em todas as faixas – e deixaram registros que resumiam sua (já longa) trajetória musical até aquele período além de lançar as sementes daquilo que estaria presente em sua obra pelas seguintes duas décadas, até sua morte em 1979.

Mingus Ah Um era também o resumo de todas as heranças que compunham a complexa personalidade de seu autor, um negro americano nascido quase na fronteira do México e que tinha entre seus antepassados alemães, suecos, ingleses, nativos americanos e negros que haviam sido trazidos da África como escravos. Musicalmente, a maior influência de Mingus vinha de Duke Ellington e seu gosto pelas orquestras. Daí sua escrita musical avançada, que incorporava elementos da música religiosa e dos compositores eruditos. Tudo isso seria ainda mais liquidificado a partir do contato de Mingus com Charlie Parker. Os dois se aproximariam no começo dos anos 50 e o saxofonista seria decisivo na carreira do contrabaixista. Mingus e Parker continuariam próximos até a morte do segundo, em 1955. Foi pela gravadora fundada por Mingus (e pelo baterista Max Roach), a Debut, que seria registrado o antológico concerto de 15 de maio de 1953, em que Mingus se juntou a Dizzy Gillespie, Parker, Bud Powell e Roach para um concerto no Massey Hall em Toronto. Este foi o último registro Gillespie e Parker tocando juntos.

Mingus gostava de trabalhar com formações médias, maiores que os tradicionais quintetos e menores do que as orquestras. Quase sempre eram grupos que reuniam entre sete e dez músicos. Conhecidos como jazz workshops, os grupos tinham como característica a alta rotatividade entre seus integrantes. Mingus mesclava veteranos e jovens com a intenção de formar instrumentistas que se moldassem ao seu estilo e que acompanhassem a sua vertiginosa capacidade de produção musical – num período de dez anos, Mingus gravou 30 discos para várias gravadoras, aí incluídas a Debut, Atlantic, Candid, Columbia e Impulse.

Assim, Mingus chegaria a 1959 como uma força ascendente no jazz – o que não era pouco num ano que teve ainda Miles Davis com Kind of Blue, Dave Brubeck comTime Out e John Coltrane com Giant Steps. Em Ah Um, Mingus mirava o futuro fazendo referência aos antepassados. Goodbye Pork Pie Hat era uma elegia a Lester Young, que havia morrido dois meses antes. Open Letter to Duke é uma explícita homenagem a Duke Ellington, e estrutura-se em três das peças compostas por Mingus anteriormente (NouroogDuke’s Choice e Slippers). Jelly Roll, outra clara referência, homenageia o pianista Jelly Roll Morton e traz uma citação de Sonnymoon for Two, de Sonny Rollins, durante o solo de piano de Horace Parlan. E Bird Calls, que poderia ser uma homenagem a Parker, na verdade – segundo Mingus – faz referência aos pássaros. No repertório, destaque ainda para Self-Portrait in Three Colors, originalmente escrito para Shadows, o primeiro filme de John Cassavetes como diretor, e a engajada Fables of Faubus, um ataque à postura de Orval Faubus, governador segregacionista do Arkansas que em 1957 havia se colocado contra a integração racial das escolas de Little Rock, desafiando as decisões da Suprema Corte e forçando o presidente Eisenhower a enviar Guarda Nacional para cumprir a decisão.

Com Mingus, a música também era uma forma de fazer política.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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