O jazz à sombra do vulcão

Uma pequena cidade mexicana ao pé de um vulcão ativo foi a última morada de dois geniais jazzistas: Gil Evans e Charles Mingus

Para ler ao som de Cumbia & Jazz Fusion, de Charles Mingus e Paris Blues, de Gil Evans & Steve Lacy
Foto: Jakub Hejtmánek/CC-BY-SA-3.0/Wikimedia Commons
Foto: Jakub Hejtmánek/CC-BY-SA-3.0/Wikimedia Commons

Cuernavaca é uma cidade mexicana, pequena para os padrões do país (com uma população inferior a 400 mil habitantes), e ao pé do Popocatépetl, que fica a apenas 60 quilômetros de distância (nada em termos vulcânicos e sísmicos). O local, cujo nome original era Cuauhnáhuac (“Perto do Bosque”, em asteca) compensa a proximidade com um vizinho tão perigoso com uma série de virtudes: um clima cálido – que lhe garantiu o epíteto de “Cidade da Eterna Primavera”, na definição do barão Alexandre Von Humboldt –, centenas de jardins, a arquitetura asteca e o Museu Etnobotânico.

O aspecto agradável de Cuernavaca atrai milhares de turistas de todo o mundo, alguns inclusive fixam residência, como foi o caso de dois jazzistas.

Um deles foi Gil Evans. Nascido na fria Toronto, no Canadá, Evans ainda jovem mudou-se para a Califórnia e de lá transferiu-se para Nova York, onde viveu e trabalhou a maior parte da vida. Foi decisivo na carreira de Miles Davis, mas teve ainda contribuições paralelas e bem-sucedidas com Gerry Mulligan, Steve Lacy, Helen Merrill e Stéphane Grappelli. Ao longo de uma carreira de mais de cinco décadas, tornou-se um dos mais ativos e criativos arranjadores da história do jazz, à frente de uma orquestra que ajudou a revolucionar os rumos da música do século 20. Aos 75 anos, já muito doente, Evans optou pela cidade mexicana para viver seus últimos dias. Foi lá – aparentemente sem motivo muito claro – que Evans tentou enfrentar a peritonite que o estava consumindo. Sentia dores, mas também sentia-se confortável por estar acompanhado dos dois filhos, de um pequeno teclado e de uma pilha de arranjos aos quais estava se dedicando. Teve uma morte tranquila e serena no dia 20 de março de 1988.

Situação bem diferente foi a de Charles Mingus. Cuernavaca foi a última etapa da via-crúcis de um dos mais geniais músicos da história do jazz. Um longo e arrastado sofrimento que começou no Dia de Ação de Graças de 1977, quando Mingus descobriu que sofria da esclerose lateral amiotrófica, uma doença sem cura e extremamente dolorosa, que iria quebrar os ossos e o ânimo do vigoroso contrabaixista. O desespero e a busca por cura levaram Mingus a Cuernavaca, onde ele chegou já muito debilitado, em cadeira de rodas, no verão de 1978. A indicação da cidade havia sido do amigo Gery Mulligan, que lhe garantira que uma bailarina mexicana fora operada de câncer por um curandeiro local que usava apenas uma faca. A bailarina ficou curada e até voltou a dançar, relatava Mulligan. Mingus entusiasmou-se, foi operado da mesma maneira e até chegou a apresentar significativa melhora por um mês. A partir de então, tudo desandou, mas a temporada cuernavaquiana ainda teve sessões de hipnose, infusões de ervas, banhos de lama e até a ingestão via oral de sangue de iguana – tudo sem resultados. Enfraquecido, Mingus morreria de parada cardíaca nos primeiros dias de 1979, aos 56 anos.

Por fim, Cuernavaca é também o cenário de um dos mais assombrosos romances contemporâneos – que não tem nada a ver com jazz mas tem tudo a ver com jazz: Sob o Vulcão, livro do inglês Malcolm Lowry, recusado por dezenas de editores e finalmente publicado em 1947. Sob o Vulcão é a narrativa de um dia na vida – ironicamente o Dia dos Mortos – do ex-cônsul britânico Geoffrey Firmin (personagem claramente inspirado no próprio autor) e sua caminhada alcoólica rumo a autodestruição. É a lava do vulcão Popocatépetl servindo de metáfora de um inferno muitas vezes enfrentado e quase sempre tão temido.

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Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

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