Tárik de Souza conta como Ricardo Bacelar, com Maracanós, faz rebrilhar os lendários Airto Moreira e Flora Purim
Para ser lido ao som de Airto Moreira em Maracanós

O papa da percussão multi timbrística está de volta. Aos 84 anos, o catarinense de Itaiópolis Airto (Guimorvan) Moreira ressurge em álbum inédito, Maracanós (Jasmim Music), gravado em parceria com o multinstrumentista (e dono do selo) Ricardo Bacelar, cearense de Fortaleza. A mulher de Airto, a carioca Flora Purim, também de 84, eleita a melhor cantora de jazz por quatro anos seguidos (1974-1977) pela crítica americana, indicada a três prêmios Grammy (ganhou dois em discos alheios) participa de uma das faixas. O álbum faz parte de um projeto de resgate da dupla central, que hoje vive no Retiro dos Artistas, no Rio, e engloba ainda um filme dirigido por Jom Tob Azulay (de Os Doces Bárbaros, com Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil e Caetano Veloso) sob o curioso título de Pecados de um Casamento. Ele documenta as gravações e convivência de Flora e Airto com Bacelar no estúdio deste em Fortaleza, que ainda resultou num outro disco, a ser lançado junto com a estreia do longa. Seu aperitivo, Aqui Oh!, de Toninho Horta e Fernando Brant, foi lançado em single, em setembro do ano passado.
O trio de músicos tem currículos bem diversificados. Ricardo Bacelar (19/7/1967), que já produziu em seu bunker, no estúdio/selo Jasmin, gravações memoráveis de artistas como Roberto Menescal, Leila Pinheiro, Fagner, Toninho Horta, Jaques Morelenbaum, Gilberto Gil, Amelinha, Flávio Venturini, Délia Fischer, Belchior e Ednardo começou no BRock. Aos 17 anos, passou a integrar o grupo Hanoi-Hanoi, e tornou-se sócio de um de seus protagonistas, Arnaldo Brandão, num estúdio que produzia trilhas para teatro, cinema e jingles. Também atuou na gravadora GPA Music como engenheiro de som, músico e arranjador, e desenvolveu uma carreira solo com discos como In Natura, Concerto para Moviola, Sebastiana, Congênito, Andar com Gil, Nós e o Mar. Em paralelo, formou-se advogado, especializando-se nas áreas de Direito Empresarial e Propriedade Intelectual, além de ser Consul Honorário da Bélgica, desde 2018.
Filha de um violinista russo e uma pianista amadora pernambucana, Flora Purim estreou em disco, aos 22 anos, na seara incendiária do samba jazz, com produção, coordenação musical e bateria de Dom Um Romão, seu marido na época. Flora é MPM, com arranjos dos luminares Osmar Milito, Dom Salvador e maestro Cipó, investia numa sigla (“Música Popular Moderna”) inventada pelo crítico Sylvio Tulio Cardoso, logo substituída por MPB, o recheio do disco. Ele trazia parte da trilha do musical Pobre Menina Rica de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, lançada naquele mesmo ano (Sabe Você, Maria Moita, Primavera, Samba do Carioca), composições do então novato Edu Lobo (Definitivamente, Borandá, Reza, com Ruy Guerra), da dupla Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli (A Morte de um Deus de Sal e Nem o Mar Sabia) e até o hit Hava Nagila, em hebraico, por conta de sua origem judia.
Em 1967, ela mudou-se para a Califórnia, onde foi estudar música, e quatro anos depois participava do disco da big band do extraordinário arranjador Gil Evans, Where Flamingo Fly. Com seu novo marido Airto Moreira, gravou, também em 1971, Seeds on the Ground. Eles integraram o grupo Return to Forever, potentado do jazz fusion, ao lado do tecladista Chick Corea, do baixista Stanley Clarke e de Joe Farrel (sax/flauta), de álbuns como o que levou o nome do grupo, em 1972 e Light as a Feather (1973). Neste mesmo ano, a cantora estreou solo em Butterfly Dreams, com o qual foi premiada pela primeira vez como melhor cantora de jazz pela revista Down Beat. Após ter sido detida sob a acusação de porte e consumo de drogas, Flora cumpriu pena de 18 meses, a partir de 1974.
Com Airto, gravou os discos Humble People e The Magicians indicados ao Prêmio Grammy, tal como ocorreu com If You Will, em que comemorou 80 anos, em 2022. Ao longo da carreira atuou com ases como Carlos Santana, Dizzy Gillespie, Hermeto Pascoal, Joe Sample, Gary Brown, Jovino dos Santos, Duke Pearson e José Neto. Em sua extensa discografia destacam-se também Speed of Light (com a filha Diana Purim Moreira), The Colours of Life, Perpetual Emotion, Flora Purim Sings Milton Nascimento, Wings of Imagination, Stories to Tell, Speak no Evil, Three-Way Mirror (com Joe Farrel), Samba de Flora e Flora’s Song.
Na cidade paranaense de Ponta Grossa, Airto aprendeu teoria musical, canto, piano, violino e bandolim. Mas foi estrear como baterista embarcado no bólido do samba jazz paulistano Sambalanço Trio (que além dos próprios discos gravou com Raul de Souza e Lennie Dale), ao lado de Cesar Camargo Mariano (piano) e Humberto Clayber (baixo). Com a saída de Cesar, Hermeto Pascoal tomou seu lugar no grupo, que virou o Sambrasa Trio. Hermeto (flauta, piano) e Airto (percussão) partiram para uma nova formação ao lado de Théo de Barros (violão, baixo) e Heraldo do Monte (viola caipira, violão), o revolucionário Quinteto Violado, que lançou um único disco, reconhecido como obra prima, em 1967. O grupo destacou-se nos festivais acompanhando Geraldo Vandré (Disparada, parceria dele com Theo), e Ponteio (Edu Lobo/ Capinam). Airto já experimentava sua fórmula de diversidade timbrística na percussão, com chocalhos, berimbau, vários tipos de tambores até uma queixada de burro.
O precursor deste tipo de investigação timbrística foi o percussionista e inventor de instrumentos carioca Pedro dos Santos (1919-1993), o Pedro Sorongo, cujo nome artístico deriva do ritmo criado por ele, entre o samba e o batuque. Elza Soares gravou seu Eu Quero É Sorongar, Angela Maria, Ritmo Gostoso, e Baden Powell Sorongaio. Além do berimboca (berimbau de boca) foi um dos criadores. ao lado do futuro baterista do grupo, Helcio Milito, do tambor de bambu, a tamba, que deu nome ao Tamba Trio. Seu único LP solo, produzido por Milito em 1968, Krishnanda, de 1968, virou ultracult. Mas embora ele tenha participado do clássico Rhythm of the Saints, de Paul Simon, em 1990, foi Airto quem projetou a percussão multitimbrística em nível internacional, seguido pelo pernambucano Juvenal de Hollanda Vasconcellos, o Naná Vasconcellos. Por causa da atuação de Airto, em projéteis de longo alcance como Bitches Brew, do revolucionário impenitente do jazz Miles Davis, a revista especializada Down Beat abriu uma categoria específica para a percussão.
Além do supracitado grupo Return to Forever, com Chick Corea, e dos vários discos que dividiu com Flora (como o agraciado com o Grammy, Planet Drum, liderado pelo percussionista do lendário Grateful Dead, Mickey Hart), Airto atuou com Carlos Santana (Borboleta, 1973) Eumir Deodato (In Concert, 1974), Al Di Meola (Soaring Though a Dream, 1985) e Jaco Pastorius (Punk Jazz, 2003). E mais: Keith Jarrett, Dave Holland, Jack DeJohnette, John Mc Laughlin, Joe Zawinul, Stan Getz e George Benson. “O fato de eu ter tocado com esses gigantes é um sinal de que sempre estive aberto para a criatividade”, observa Airto no texto de apresentação do novo disco.
Na sua extensa cartela de solos cintilam entre outros títulos, Seeds on the Ground – The Natural Sound of Airto, Natural Feelings, Free, Fingers, Identity, Promises of the Sun, I’m Fine, How Are You?, Touching You, Touching Me, Missa espiritual – Airto’s Brazilian Mass, Live at Ronnie Scott’s Club, Live in South Africa, 1993, Last Journey e Encounters of the Fourth World (todos com o grupo Fourth World), Killer Bees (com The Gods of Jazz), Struck by Lightning, Viva Airto! Fotografia Sonora.
Com lançamento previsto também para os mercados de Estados Unidos, Portugal, França, Alemanha, China e Japão, Maracanós chega às plataformas no mês em que Airto é homenageado com o NEA Jazz Masters Fellowship, concedido pela National Endowement for the Arts, o mais alto reconhecimento oficial dedicado ao jazz nos EUA. O álbum viaja por vários quadrantes estéticos. “Quis prestigiar a liberdade e a experimentação muito presentes na música de Airto e Flora. Fiz uma fusão de música acústica com percussões, cordas, texturas eletrônicas, conferindo originalidade e um caráter bastante imersivo ao disco, que foge do modelo comercial comum na indústria da música hoje em dia”, disserta Bacelar. O roteiro (oito faixas, todas parcerias de Bacelar e Airto) abre com o conveniente Pé no Chão, de ritmo agalopado, que pode ser interpretado como um xaxado frenético, adensado pelas cordas do Kalimera Quartet (Luisa de Castro e Tomás Soares, violinos, Daniel Albuquerque, viola e Daniel Silva, cello), com arranjos de Liduíno Pitombeira, membro da Academia Brasileira de Música. Há ainda sobrevoo de flautas de Marcio Resende, pontuação de baixo acústico de Nelio Costa, pulsações intensas da bateria de Pantico Rocha e a percussão flutuante de Hoto Junior e o próprio Airto.
Única faixa com letra (e também um parceiro a mais, Luís Lima Verde), a contraritmada Mestre Novo da Guiné (“aprendi com meu avô/ liberdade não tem cor (…) / a Iúna anunciou/ Oxalá me põe de pé/ Iemanjá me batizou/ na luz de Oxumaré”) retumba nos couros. É atravessada pelos sopros de Márcio Resende (saxes soprano e tenor) e guitarra de Stênio Gonçalves. Bacelar multiplica-se no vocal (com Maria e Sara Bacelar e Eliel Ferreira), mais piano acústico, Fender Rhodes, órgão Hammond, teclados, guitarra, samples e sintetizadores. Em sua única aparição, Flora Purim empresta a voz instrumento à climática e espacial Voo da Tarde, sob teclados semoventes e sopros cambiantes. Ao contrário do que poderia prometer o título, derivativo do folguedo do folclore, Bumbo Meu Boi tem condução suave, com direito a delicada pontuação de clap (Alex Reis) e Airto à frente da bateria, seu instrumento primal.
A faixa título, Maracanós é outra emoldurada pelas cordas do Kalimera Quartet, numa linha mais onírica, alinhavada por flauta e piano, que borda o final com sutileza. Uma batida de fundo, ecoante, cadencia o desenrolar épico de Submersivos, que Bacelar pincela com o timbre opaco de uma ocarina. Já em 3 Minutos de Paz, aberta por sons sombrios, dialogam apenas Bacelar, a bordo de teclados, samples e efeitos, e Airto, na percussão e melismas vocais. Vale lembrar que, como cantor Airto venceu o Festival de MPB, de 1966, da finada TV Excelsior, em duo com a cantora paulistana Tuca, engatando a marcha rancho Porta Estandarte, de Geraldo Vandré e Fernando Lona. Airto elogia o estúdio da Jasmin onde gravaram: “Pude usar bastante a minha voz também. Às vezes canto quando não estou tocando, por alguns segundos. Para mim foi assim como uma cama na qual pude me deitar, criar e descansar ao mesmo tempo”.
Na faixa final, Pau Rolou (“caiu/ foi na mata/ ninguém viu”), de entonação nordestina, cerzida pelo berimbau do percussionista que usou cuíca num disco de Miles Davis, Airto canta bem mais que alguns segundos, a plenos pulmões o mote central. Exibe o destemor que o levou tão alto no pódio dos grandes músicos brasileiros de todos os tempos. “Você tem que confiar nos seus instintos musicais para criar sem atrapalhar ninguém ou se atrapalhar. Sempre confiei nos meus desde criança”, pregou ele.
