Flutue como uma borboleta, pique como uma abelha

No dia em que completaria 80 anos, Muhammad Ali merece ser reverenciado como um dos maiores símbolos do esporte, da cultura e do comportamento de todos os tempos

Para ser lido ao som de The Budos Band em T.I.B.W.F.

Márcio Pinheiro

Arte: Gilmar Fraga

O homem que mais ganhou notoriedade no mundo inteiro pela verborragia interminável, pelo discurso estridente e pela virulência de suas declarações atravessou os últimos anos de vida devastado pelo Mal de Parkinson e foi atingido justamente naquilo que era uma de suas marcas: a fala. Nos dias finais, além de mal se locomover, Muhammad Ali – que neste 17 de janeiro estaria completando 80 anos – pouco emitia sons; e aí residia a parte mais cruel da doença que o levou à morte, aos 74 anos, no dia 3 de junho de 2016. O gigante estava mudo.

Porém, muito do que havia feito e dito, desde o começo dos anos 60, quando se transformou num ícone rebelde e irreverente, foi fartamente documentado. Um exemplo é O Rei do Mundo – A Ascensão de um Herói Americano, livro do jornalista David Remnick. Ao contrário de A Luta, de Norman Mailer, originalmente lançado em 1975, O Rei do Mundo não é para ser lido em um único round, pois, já na abertura, Remnick deixa claro que ao mesmo tempo que está exaltando o mito, também está expondo o homem. Trabalho de fôlego e de exaustiva pesquisa, o livro de Remnick acompanha apenas um pedaço da vida e da carreira de Ali (na época ainda Cassius Clay), servindo como um prólogo – e também complemento – ao livro de Mailer. Se Mailer se detinha apenas ao enfrentamento entre Ali e George Foreman – a maior luta do mundo, realizada em outubro de 1974 em Kinshasa, no Zaire, como o ditador Mobutu Sese Seko como anfitrião – Remnick pontua seu relato a partir da descrição de três trajetórias aparentemente semelhantes, mas basicamente distintas: Floyd Patterson é o “Negro Bom”, aquilo que no Brasil seria pejorativamente classificado como “Negro de alma branca”. Nos Estados Unidos, onde os negros questionavam as leis racistas, Patterson se resignava e não forçava a entrada nos locais destinados apenas aos brancos. O contraponto era Sonny Liston, o “Negro Ruim”, jovem com passagens pelos reformatórios, ex-presidiário que fazia serviços para gangsters mafiosos. Liston levava para o ringue a raiva e a revolta das ruas. Assim, Ali seria, ao mesmo tempo, síntese e superação desses estereótipos, de certa forma tão restritos. Sua agilidade e sua capacidade de desferir golpes não se restringia apenas aos ringues.

Ali tinha a noção dos conflitos raciais, desafiava o establishment e se alinhava ao islamismo pregado por Malcolm X (com quem viria a romper) e por Elijah Muhammad, que seria seu guru. Na época, Ali e Malcolm eram “os dois negros mais livres do século 20”, na definição do intelectual e ativista Cornel West, e viviam uma relação intensa, porém curta – durou pouco mais de dois anos. Quando se aproximaram, em 1962, Muhammad Ali, então ainda Cassius Clay, era um jovem fenômeno do boxe, ganhador aos 18 anos da medalha de ouro nas Olimpíadas de Roma em 1960. Malcolm, mais de uma década mais velho, era o mais destacado ministro da Nação do Islã, o principal agrupamento político-religioso dos negros norte-americanos na época.

A amizade terminou em 1964, quando Malcolm X rompeu com o líder da Nação do Islã, Elija Muhammad, e o recém-convertido Muhammad Ali escolheu o lado do líder em detrimento do amigo, que até então era seu principal mentor religioso e político. No dia seguinte ao de sua vitória sobre Liston, o novo campeão mundial revela que teria se filiado à Nação do Islã e passava a adotar o nome de Muhammad Ali. Além de se engajar no combate ao racismo, Ali também afrontaria as forças armadas, se recusando a lutar na Guerra do Vietnã.

Mesmo na adversidade – com a cassação do título de campeão – Ali soube conduzir os fatos conforme seus interesses. Na luta contra Foreman, Ali não hesitou em classificá-lo como “branco”, criticá-lo por ter se enclausurado no hotel e flagrar que seu adversário não parecia disposto a emitir opiniões e causar polêmicas. Se Foreman não se metia em política, Ali lembrava Malcolm X e defendia a criação de um estado negro na Áfria. A estratégia deu tão certo que antes do combate Ali já nocauteava Foreman – como havia feito antes com Patterson e Liston. Muhammad Ali foi o lutador mais completo da história não só pela capacidade insuperável de aliar força e agilidade – “Flutue como uma borboleta, pique como uma abelha” – mas também pela agressividade verbal e pela relação de amor e ódio com a opinião pública.

Muhammad Ali chegou ao terceiro milênio reverenciado como um dos maiores atletas de todos os tempos. Foi lembrado com um filme, em que foi interpretado por Will Smith, recebeu homenagens do secretário-geral da ONU, Kofi Annan, que o nomeou Mensageiro da Paz, e virou tema para dezenas de livros e documentários.

Quando morreu, seu funeral foi dividido em duas partes: a primeira, uma cerimônia islâmica tradicional, com orações em árabe e marcada por discursos que destacaram a trajetória política e social de Ali, realizada na sua cidade-natal, Louisville; e uma segunda, no dia do seu sepultamento. Antes do enterro foi realizado um cortejo fúnebre pelas ruas de Louisville, que terminou no cemitério com uma cerimônia privada para a família. Entre os que carregaram o caixão estavam os lutadores Lennox Lewis, George Foreman e Mike Tyson, além do ator Will Smith. Um dos momentos mais marcantes do cortejo foi a passagem pela rua onde Ali cresceu. Uma multidão se formou nos dois lados da Grand Avenue e gritava “Ali, Ali, Ali”. Sua imensa figura, que transcendeu os limites do esporte e dos Estados Unidos, pode ser entendida com a publicação do livro More than a Champion: The Style of Muhammad Ali, escrito por Jan Philipp Reemtsa, que não é nem americano, nem jornalista – mas alemão e filósofo.

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