Mentes transplantadas

Lucio Brancato lembra Tommy Bolin, guitarrista de vida efêmera mas que, em carreira solo ou ao lado de Billy Cobham, Jan Hammer, Alphonse Mouzon, mostrou novos rumos para o jazz-rock

Para ser lido ao som de Mind Transplant, de Alphonse Mouzon

Foto: Lucio Brancato

A vida do guitarrista Tommy Bolin foi tão curta quanto sua passagem rápida por diferentes grupos. Porém, por onde passou, deixou a sua marca nas seis cordas e um acervo de gravações que foram surgindo anos após a sua morte com apenas 25 anos, em 1976.

Nascido em Sioux City, Iowa, Thomas Richard Bolin, começou, aos 13 anos, a tocar com grupos de rock da sua cidade. Em seguida, muda-se para o Colorado onde forma sua primeira banda chamada Zephyr. Aqui surgem os primeiro registros fonográficos oficiais. Com eles Bolin grava dois discos, Zephyr (1969) e Going Back to Colorado (1971).

Com uma pegada de blues-rock, comum na época, ele não empolgou e teve pouco ou quase nenhum sucesso comercial. Entraram no circuito de shows fazendo a abertura de alguns shows do Led Zeppelin tocando em grandes arenas pelos Estados Unidos. Bolin não se deu por satisfeito, largou a banda no final de 1971 para seguir novos caminhos musicais embalado pelo auge da fusão de rock e jazz do começo da década de 70. Teve na Mahavishnu Orchestra sua principal referência para formar um novo grupo chamado Energy.

Esta aventura durou apenas um ano e nenhum disco foi lançado (os poucos registros deste período saíram apenas no resgate de sua obra que começou a ser lançado na década de 90). Mesmo sem um alcance para o grande público, o trabalho como guitarrista já era assunto no meio musical chamando atenção de outros músicos para um jovem guitarrista que vinha “quebrando tudo” nas suas apresentações. Um deles foi fundamental para uma nova virada na carreira. O guitarrista Joe Walsh (futuro guitarrista dos Eagles) indicou o nome de Bolin para entrar na sua ex-banda, a James Gang.

Com a banda, ele gravou dois discos, Bang (1973) e Miami (1974). Entre os dois discos, ele foi escalado para tocar na gravação do primeiro disco solo do baterista da Mahavishnu Orchestra, Billy Cobham. Lançado em 1973, o disco Spectrum contava ainda com o tecladista Jam Hammer e mostra Tommy Bolin completamente em casa em meio aos improvisos da turma do jazz-rock.

Nos anos seguintes, formaria uma dupla com Jam Hammer em uma série de shows com as mais diversas formações que também surgiram décadas depois para nossos ouvidos. O namoro de Bolin com o James Gang durou pouco. Logo após o lançamento do disco Miami ele resolve sair da banda. Recrutado por outro grande baterista, Alphonse Mouzon, do Weather Report, para a gravação do disco Mind Transplant (1975), Tommy Bolin soma a participação em dois discos fundamentais na história do jazz-rock.

Tanto o disco com Cobham quanto o disco com Mouzon são considerados hoje pilares do que conhecemos como a fusão do jazz com o rock. No final de 1975 ele consegue contrato com uma gravadora e lança seu primeiro disco solo Teaser (1975) em que volta com uma pegada mais rock mas com flashbacks de fusion.

Como tudo na sua vida parecia ser tão rápido, nem deu tempo de divulgar muito seu primeiro disco. No mesmo período foi chamado pelo Deep Purple para substituir o guitarrista Ritchie Blackmore. E lá se vai mais uma vez para mais uma rápida aventura e parte para a Alemanha para gravar o clássico Come Taste The Band (1975) lançado ainda em outubro do mesmo ano.

Logo em seguida, em março de 1976, o Deep Purple resolve encerrar suas atividades e Bolin retoma sua carreira solo formando a Tommy Bolin Band e gravando seu segundo disco Private Eyes lançado em setembro de 1976. A turnê de lançamento do disco foi reforçada com Tommy Bolin fazendo os shows de abertura de turnês do Peter Frampton e do Jeff Beck. E foi num show abrindo para o Jeff Beck, no dia 3 de dezembro, que ele tocou pela última vez. Após o show, foi para o hotel onde foi encontrado morto no dia seguinte.

A causa do morte foi uma típica receita da época: heroína, cocaína e boletas para tentar dormir. Aos 25 anos de idade ele partia no auge do seu reconhecimento entre os grandes guitarristas da época. Desta última noite ficaram dois registros. Sua última foto (sentado ao lado de Jeff Beck no backstage) e a gravação do show, lançada em 2002.

Apesar de poucos registros fonográficos oficiais em vida, é impressionante o número de gravações que foram lançadas desde 1990 pra cá. Uma série chamada From The Archives resgata os diferentes períodos criativos de Tommy Bolin do rock ao jazz. Dezenas de shows e fitas demos fazem a alegria dos fãs que a cada ano são reabastecidos com verdadeiras pérolas encontradas pelo Johnnie Bolin, irmão mais novo e responsável pelo espolio de Tommy Bolin. Boa parte deste material já está disponível nas plataformas de streaming mostrando todo potencial e incrível acervo deixado pelo jovem guitarrista admirado pelos fãs de rock e um recruta de peso para os músicos de jazz-rock.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s