Feliz aniversário, Mr. Sakamoto

Antônio Carlos Miguel destaca Async, trabalho de Ryuichi Sakamoto, compositor japonês que completa 70 anos neste dia 17

Para ser lido ao som de Ryuichi Sakamoto em Async

Foto: Joi Ito, CC BY 2.0/Wikimedia Commons

Há um ano, em janeiro de 2021, foi noticiado que Ryuichi Sakamoto passou por mais uma cirurgia contra o câncer, dessa vez no intestino. Sete anos após ter tratado e, aparentemente, superado um câncer na garganta. O período de recuperação do primeiro câncer foi de muita produção, incluindo o disco Async (lançado em 2017) e a trilha sonora do filme O Regresso (direção de Alejandro González Iñarritu, que, em 2016, garantiu a Leonardo DiCaprio o Oscar de Melhor Ator). Enquanto aguardamos nova música de Sakamoto, o que produziu em mais de quatro décadas de surpreendente carreira, é sempre inovador. Nesse período ele passeou por progressivo, eletrônica, clássico, bossa nova, experimentalismo. Ryuichi Sakamoto completa neste dia 17 70 anos de idade.

Async, primeiro disco de Ryuichi Sakamoto em oito anos, e criado após o tratamento para um câncer na garganta descoberto em 2014, é abrangente, vai de melodias quase clássicas ao experimentalismo. Piano acústico, órgão, sons eletrônicos, narrações em inglês, espanhol, japonês, italiano e francês se alternam, a princípio sem rótulos definidos, nas 14 faixas – a edição em vinil tem uma 15º faixa, Water State 2. De qualquer forma, dá para cravar que Async está mais perto de seu trabalho em discos e concertos com o alemão Alva Noto do que aqueles com Morelenbaum, com quem ele já fez inúmeros trabalhos, além do tributo a Jobim.

Andata, tema lírico, introduzido por piano solo que remete a muito do Sakamoto, prossegue em órgão solene e bachiano. A faixa seguinte, Disintegration, já no seu título, entrega mais o que predomina, sonoridade que parece sair de um piano preparado, remetendo ao koto (instrumento japonês) e percussão leve.  Por sinal, pianos encontrados submersos após o tsunami que devastou Fukushima estão entre os instrumentos e elementos incorporados à música de Async.

Solari é outro tema com melodia “sakamotiana”, novamente solene. Segundo o material de divulgação no site do artista, Async seria “uma trilha sonora para um filme imaginário de Andrei Tarkovsky”, o cineasta russo que tem na sua carreira o clássico de ficção científica Solaris.

A recente experiência com o câncer deixou marcas. No início do tratamento, Sakamoto mergulhou na criação de Async, apostando no prazer em viver. Na abertura de Fullmoon, ouvimos na voz do escritor e compositor clássico Paul Bowles: “Pelo fato de nós não sabermos quando morreremos, costumamos pensar na vida como um bem inesgotável. (…) Quantas mais vezes você verá o nascer da lua cheia? Talvez 20, e ainda assim tudo parecerá ilimitado”.  Este é o áudio da cena final de O Céu que nos Espera, o filme que Bernardo Bertolucci fez a partir do romance The Sheltering Sky, de Bowles, com trilha de Sakamoto. Música que reflete a vida, dores e prazeres ilimitados.

Em maio de 2017, Ryuichi Sakamoto esteve pela última vez no Brasil, participando, no Auditório Ibirapuera, do concerto de inauguração da Japan House, centro cultural sobre seu país sediado na Avenida Paulista. Na época, tive a oportunidade de entrevistar o compositor e pianista japonês. Abaixo as principais respostas:

“A primeira vez que escutei a música da bossa nova eu tinha entre 11 e 12 anos e fiquei muito surpreso. Era música popular, para as pessoas comuns, mas muito sofisticada, como Debussy ou a música clássica japonesa, mas num formato pop. Desde esse início, amei a bossa nova. Não sei se isso aplica a todos os japoneses, mas, para mim, gosto dos aspectos zen da bossa nova. É uma estética plana, estática, sem muita dinâmica, mas num alto patamar e de uma forma muito intensa e também muito simples, seguindo para sempre. Enfim, também boa para a meditação. Desde o começo, percebi a beleza e a importância das composições de Jobim para essa música que tanto me encantara. Sei da importância de Debussy e de Ravel também para a música de Jobim, e mais ainda do romantismo de Chopin, Schumann…”.

Comecei esse disco (Asyinc) em abril do ano passado e não tinha ideia alguma do que iria fazer. Como um pintor frente à uma grande tela branca, não sabia o que iria pintar. Fiquei olhando para o vazio por algum tempo pensando no que fazer. Antes de começar o disco, eu tinha algumas ideias, alguns rascunhos, mas, quando finalmente entrei no estúdio, joguei todos esses rascunhos fora. Essa sensação de não saber o que fazer é deslumbrante, é um tempo precioso. Então, passei a procurar, a colher alguns sons, gravando os objetos do cotidiano (bate num copo e depois na mesa para mostrar) e também de instrumentos musicais, como cymbals, gongos, guitarras, cellos. E ainda mais sons das ruas e sim, batidas na porta, adoro o som de batidas nas portas.  E, também, Bach, Johann Sebastian Bach, que sempre foi a minha maior influência, desde que comecei na música, ainda criança. Trabalhei em rearranjos para peças para órgão e corais”.

“No meio da gravação percebi que esse álbum seria essa trilha imaginária para um filme de Andrei Tarkovski. Por quatro meses estava experimentando com todos esses sons de objetos e de ruas, tocando Bach, tentando muitas coisas. Fui a Kyoto procurar alguns sons, também numa floresta ao norte de Nova York, Paris… Então, decidi que deveria procurar a direção a seguir para o álbum e cheguei ao conceito do filme imaginário. Sou um grande fã dos filmes de Tarkovski e, assim, após quatro meses, encontrei o rumo a seguir. Eu estava me recuperando quando trabalhei em O Retorno; e, sim, fiz essa relação (entre o drama vivido pelo personagem de DiCaprio e sua luta contra doença). Trabalhar com Mr. Iñarritu é muito pesado. O processo durou seis meses e foi muito intenso. Pensei que, após aquele duro trabalho, o câncer iria voltar, que iria morrer. Mas depois de finalizar a trilha, felizmente, melhorei, eu me senti bem melhor”.

“Fui convidado para atuar em Merry Christhmas, Mr. Lawrence. Então, pedi ao diretor, Sr. Oshima: ‘Sim, aceito atuar, mas, deixe-me fazer a música”. Após Merry Christmas, recebi outra ligação telefônica, de Bertolucci, novamente para trabalhar como ator, em O Último Imperador. Terminadas as filmagens, três meses depois, mais um telefonema de Bertolucci, “Faça a música, para a próxima semana!”. Nesse sentido, virar compositor de trilhas sonoras foi acidental. Não foi a minha escolha, não era o meu objetivo”

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