Três divas da pandemia

Roberto Muggiati vê as proximidades entre uma menininha branca de Floripa, uma afro-americana que fez a ponte Dallas-Nova York e uma mestiça da periferia paulistana que despontaram nestes tempos de Covid-19

Para ser lido ao som de: Jazzmeia Horn em He’s My Guy
Maria Luiza e Roberto Menescal em Speak Low e
Juçara Marçal em Delta Estácio Blues
(Não me perguntem por que escolhi justo estas três.
A pandemia não tem a menor lógica.
Mas sua música, ninguém discute, é mais do que instigante.)

Arte: Gilmar Fraga

O título poderia ser também “Meu nome é jazz”.  Na verdade, Jazzmeia Horn, 30 anos, não abusa do scat, ao contrário de Ella Fitzgerald, pioneira dessa técnica vocal. A garota nascida em Dallas ouviu de tudo (ouviu todas, de Sarah Vaughan a Dinah Washington, passando por Betty Carter) e soube fundir essa diversidade de estilos com seu toque pessoal. Para chegar a algum lugar ela precisava iniciar pela Grande Maçã. Foi o que fez, mudando-se para Nova York aos 18 anos. As coisas começaram a acontecer. Aos 23, já cantava pelo mundo afora, Inglaterra, França, Rússia, África do Sul, Áustria. Em 2015, com 24 anos, ganhou a competição do Instituto Internacional Thelonious Monk, que revelou, entre outras, Jane Monheit e Roberta Gambarini (2ª e 3ª colocadas em 1998). Aos 26, Jazzmeia lançou seu primeiro álbum, A Social Call (2017), a canção-título era um jazz standard instrumental de Gigi Gryce com letra do mestre do vocalise Jon Hendricks. Jazzmeia a canta como uma velocista vocal, lembrando a alta octanagem com que o pianista Phineas Newborn Jr estreou tocando jazz standards nos anos 50. A turnê promocional a levaria longe, dos Estados Unidos à Ásia (Macau), passando pela Europa (Londres, Paris e Milão). O álbum foi indicado para o Grammy, assim como o segundo, Love & Liberation. Neste seu aspecto de engajamento social, ela lembra a combativa Abbey Lincoln. A pandemia não foi empecilho para que Jazzmeia desse a virada da sua carreira, com o álbum Dear Love, lançado em setembro de 2021. Nele, ela não só canta e compõe, mas dirigiu e fez os arranjos para uma big band – a sua Noble Force – numa produção feita em estúdio, mas em clima de gravação ao vivo. Jazzmeia admite: “Não foi nada fácil, só consegui terminar depois de seis meses, com uma banda de 17 músicos, sopros, cordas e ritmo.” E detalha: “Pus os saxofones numa linha reta, os trompetes de um lado, os trombones de outro, a fim de que o som convergisse para o centro da sala. Enquanto isso, eu estava em outra cabine com a seção rítmica, na verdade, foi bem simples…”

Wynton Marsalis que se cuide…

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Nascida em São Paulo há 25 anos e criada em Florianópolis, Maria Luiza chamou a atenção aos 16 anos quando abriu o show na Ilha de Roberto Menescal e Andy Summers, o guitarrista do Police. O encontro promoveu a amizade e admiração mútua entre ela e Menescal, então com 74, superando o gap etário de quase 60 anos. Menescal a convidou para cantar uma faixa de seu novo CD. Maria Luiza o chamou para produzir seu segundo disco, Jazz in Bossa, Bossa in Jazz. Só então os pais-empresários, se deram conta do potencial da menina, com sua voz de três oitavas e meia, timbre suave e a musicalidade exigida para o sofisticado repertorio de jazz, bossa e blues (sem mencionar seu inglês impecável nos standards.) Aos 17, ela gravou seu primeiro álbum, Pequena, lançado em 2015 com músicas que ela mesma compôs em português e inglês. O clima correspondia ao universo adolescente de Maria Luiza, que também trabalhou como atriz na série da TV Globo Malhação Sonhos. Além de ter produzido Jazz in Bossa…, Menescal arranjou as 12 faixas, tocou violão e guitarra e fez dueto com a cantora em Você (1964), uma de suas mais aclamadas parcerias com Ronaldo Bôscoli. O disco tem ainda a valsa Pela Luz dos Olhos Teus (Vinicius de Moraes, 1960) e Preciso Aprender a Ser Só (Marcos e Paulo Sérgio Valle, 1964). A leveza da bossa (e de Maria Luiza) cai bem em canções como Lullaby of Birdland, de George Shearing e The Way You Look Tonight (Jerome Kern e Dorothy Fields, 1936).  Mas não combina com o pathos de torch songs como Speak Low e Body and Soul, cantadas por divas trágicas como Billie Holiday e Amy Winehouse. Seja como for, a exposição maior que o álbum de Maria Luiza alcançou nestes tempos de confinamento veio temperar com um pouco de suavidade e beleza a pandemia nossa de todo dia.

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Ela tem mais do que as idades somadas de Maria Luiza e Jazzmeia Horn e só agora lançou seu segundo álbum solo, Delta Estácio Blues. Juçara Marçal nasceu há 59 anos à beira da rodovia Washington Luiz, num bairro de Duque de Caxias, RJ, que de bonito só tem o nome, Jardim Primavera. Mãe costureira upgraded para funcionária pública, pai cozinheiro da Marinha, ainda na infância se mudou para São Caetano do Sul, no ABC paulista, e depois para São Sebastião, no litoral norte. Batalhando para conseguir um espaço. De volta à região metropolitana de São Paulo, entrou no curso de matemática da USP. Gostava dos números, mas seu negócio era a palavra, “só descobri isso depois.” Mudou para o jornalismo, fez vestibular para letras. Estudou latim, português, fez literatura brasileira, com mestrado sobre Pedro Nava. Ainda não era bem isso, mas já estava mais perto. Nos anos 90 a música entrou na sua vida, com tanta intensidade que tudo mais dançou. Colaborou com Jards Macalé, Emicida, Marcelo D2, participou dos grupos Vesper Vocal, A Barca, lançou seu primeiro álbum individual, Encarnado, em 2014, aos 52 anos. Foi a sorte grande. O disco lhe valeu o prêmio Governador do Estado, R$ 60 mil que, bem administrados, permitiram a Juçara concentrar-se na carreira musical. O segundo álbum teria saído antes, não fosse o atropelo da pandemia. O trabalho com Kiko Dinucci e Thiago França no Metá Metá (incluindo a trilha do balé Gira, do Grupo Corpo) ajudou na gravação de Delta Estácio Blues, antenado com o antirracismo e as religiões afro-brasileiras. Na faixa-título, assinada por Juçara, Rodrigo Campos e Kiko Dinucci, ela faz a ponte entre o Delta do Mississípi e o Estácio: “Robert Johnson escreveu 29 canções /Era um homem medíocre /Tocando violão /No Estácio pagão/Bide, Baiaco, Ismael/Fez trato com três malandros/E desapareceu/Alguns anos no breu/E reapareceu/Delta Blues Mississipi/ Cultua novo Deus”. Juçara admite: “Acho incrível cantar samba. Poderia cantar só samba, que já é um universo maravilhoso. Mas tenho esse bichinho que fica ali perguntando ‘E se eu experimentar?’” Sobre sua Weltanschauung – calma, é só um palavrão (literal) do alemão, referindo-se a “cosmovisão”: “Não sou iniciada no candomblé, mas é o jeito de ver o mundo que, para mim, funciona”.

Finalmente, Juçara Marçal – de Caxias e dos ABCs da vida – vai ver o mundo: com Kiko Dinucci, ela vai passar novembro e dezembro na Europa numa turnê de cabalísticos 33 shows.

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