O melhor é o que não aparece

Tárik de Souza* estreia na AmaJazz recordando uma grande noite com Ron Carter em 1988

Para ser lido ao som de Ron Carter, Tony Williams, Mulgrew Miller e Joe Henderson em The Countdown 

Foto: Daisson Flach

Involuntariamente, em suas entrevistas, Ron Carter comparou a função do contrabaixo à do árbitro de futebol. Para ele, o melhor baixista é o que menos aparece. No trio que trouxe para o Free Jazz Festival, e setembro de 1988, Carter operou no centro gravitacional em relação ao piano carnívoro de Mulgrew Miller (1955-2013) – na época com 33 anos – e a bateria melódica de Tony Williams (1945-1997) – na época com 42 anos. Sisuda figura em seu terno cinza, Carter permitiu-se, naquela noite, apenas curtos solos, um deles em RJ, a única das seis músicas do show assinadas por ele. Foi igualmente econômico em palavras. A comunicação com o público ficou a cargo do roliço Tony Williams, o solitário em mangas de camisa (preta) do grupo. Satisfeito pela primeira exibição brasileira, o improvisado mestre de cerimônias Williams quis saber de carter se ele também estreava no Brasil naquela noite. Recebeu de troco por trás dos empertigados óculos do parceiro um minguado e judicioso “yes”.

Afinal, eles vieram ali tocar e não conversar. O set do trio de Carter destilou um jazz maduro de scotch de 12 anos, devolvendo o pêndulo sonoro ao extremo quase oposto da noite performática anterior de John Lurie e os Lounge Lizzards. Se Carter comportou-se no baixo acústico com escrúpulos primiciais recorrendo apenas eventualmente à duplicação e reverberação de notas, além de imprimir leves beliscões às cordas para obter acordes imprevistos, o batera Tony Williams bateu com força nos couros. Egresso da usina ebuliente de Miles Davis (como o próprio Carter), mentor do eletrojazz do grupo Lifetime ao lado de John McLaughlin e Jack Bruce, ele não chegou a abusar da respectiva cota natural de extroversão. Fez um solo em sua composição Sister Cheryl utilizando apenas os tambores da bateria, sem incorporar o chiado dos pratos. Tirou melodia da cozinha.

Praticamente desconhecido no Brasil fora do universo de aficionados, o pianista Mulgrew Miller estagiou em bandas razoavelmente estridentes como as de Aretha Franklin e James Brown, mas não aderiu ao gênero até porque seu currículo se completa nas refinarias do trompetista Woody Shaw, nos Jazz Messengers de Art Blekey e na big band de Duke Ellington, levada adiante pelo filho Mercer Ellington. Miller, outro sisudão em elegante terno cinza, fez por merecer as loas. Guarda algum parentesco com o fraseado de McCoy Tyner, uma vizinhaça estilística que não é estranha a Carter (tocaram juntos no Milestones Jazzstars, ao lado do sax de Sonny Rollins). Mas tem fala pessoal apoiada numa ondulante mão direita que injeta lirismo substantivo em todos os seus solos, incluídas duas citações da sentimental As Time Goes By, devidamente transfigurada. Sem firulas ou bordados retóricos, tocando apenas o jazz essencial, o trio Carter/Williams/Miller levantou a plateia compenetrada. Mas fiel ao estilo heráldico adotado não concedeu o bis solicitado pelo público.

* Tárik de Souza foi outro amigo que o Free Jazz Festival me deu – amizade nascida nas cadeiras do teatro do Hotel Nacional e que foi aprofundada na redação da Avenida Brasil do extinto JB. Tive a alegria de ter sido colega de Tárik no período entre 1993 e 1994. Um dos grandes nomes do jornalismo musical no Brasil, Tárik começou como jornalista na revista Veja. Trabalhou também no Pasquim, IstoÉ, Show Bizz, Opinião, Coojornal e Jornal do Brasil. Atuou como editor do site CliqueMusic e é pesquisador do programa O Som do Vinil, no Canal Brasil, ao lado de Charles Gavin. Recentemente, com Fabiano Maciel, produziu o documentário Sambalanço – A Bossa que Dança. Tenho com Tárik um convívio que muito me orgulha e que agora se reafirma com a estreia dele no site. Que venham mais e melhores textos! (Márcio Pinheiro)

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