O sobrevivente

Sonny Rollins chega aos 90 anos à frente uma trajetória criativa e revolucionária na história do jazz

Para ser lido ao som de Sonny Rolins ao vivo em Viena

Foto: Bengt Nyman/Vaxholm, Suécia/CC BY/Wikimedia Commons

O Sonny Rollins que completa 90 anos neste dia 7 é antes de tudo um sobrevivente. Primeiro por chegar à longeva idade ainda na ativa – embora ainda toque, componha e grave, agora em menor intensidade. Mas só o fato de ter passado por tantas, ter visto tanto, sua sobrevivência já é um milagre. Não vou falar da extensa carreira de mais de sete décadas. Vou me deter em apenas dois episódios, tão específicos quanto simbólicos.

O primeiro é a famosa foto de Art Kane, registrada em 1958 e que reúne 57 entre os nomes mais importantes do jazz. Em A Great Day in Harlem, Sonny Rollins não é a figura central – talvez seja Coleman Hawkins – mas também não é coadjuvante. Já havia colocado seu nome na história do jazz há mais de uma década, quando começou a circular por bares e palcos. Também já havia gravado com Miles Davis, Max Roach, Clifford Brown e Thelonious Monk. Cumprira prisão e se livrara do vício em heroína, inovara ao se apresentar tocando sax tendo ao lado a reduzida parceria de apenas contrabaixo e bateria, e, por fim, naquele mesmo ano de 1958 escancarara seu ativismo político em The Freedom Suite. Hoje, 62 anos depois, dos 57 músicos que participaram da foto restam apenas dois vivos: Benny Golson, de 91 anos, e Sonny Rollins.

Aos 90 anos, Sonny Rollins é ainda o último sobrevivente de uma geração que surgiu à sombra do bebop de Charlie Parker e Dizzy Gillespie e que modificou os rumos do jazz a partir dos anos 50. Ao lado de Miles Davis, John Coltrane, Clifford Brown, Don Cherry e Charles Mingus, Rollins esteve à frente de todas as revoluções musicais acontecidas no jazz nos últimos. Sempre se equilibrou entre a tradição e a vanguarda. Era um músico que reverenciava os saxofonistas dos anos 30, principalmente o mestre Coleman Hawkins, mas que também estava com os ouvidos abertos para as novas tendências. Foi um dos primeiros a aproximar o jazz dos ritmos latinos e ainda ajudou a revelar músicos africanos e orientais.

Inexplicavelmente, quando estava no auge, partiu para um misterioso retiro. Não precisou sair de Nova York – cidade onde nasceu, cresceu e sempre morou – mas afastou-se dos shows e das gravações. Quando queria tocar, ia para a ponte Williamsburg e ficava lá, envolvido com longos solos de saxofone. Da mesma forma que saiu de cena – sem alarde – voltou à música, compondo e gravando de maneira ainda mais intensa.

Rollins também é um sobrevivente em sua própria terra. Ele ainda estava sob o impacto da tragédia do 11 de Setembro quando subiu ao palco na noite de 15 de setembro de 2001 – quatro dias depois do atentado, oito depois de completar 71 anos – para apresentar o show Without a Song – The 9/11 Concert, no Berklee Performance Center de Boston. As Torres Gêmeas faziam parte da paisagem urbana do músico. Ele morava no 40º andar de um edifício a apenas seis quarteirões do World Trade Center. Sonny Rollins foi um dos milhares de nova-iorquinos que, logo após a tragédia, teve o prédio interditado e precisou deixar a casa. O saxofonista decidiu então enfrentar o estado de choque em que se encontrava partindo para Boston, “Exatamente a cidade onde embarcaram os sequestradores dos aviões, e onde muitos passageiros/vítimas viviam”, como explica o jornalista Bob Blumenthal no encarte do disco lançado apenas quatro anos depois. Na época da gravação, Sonny Rollins declarou que algumas pessoas o aconselharam a não se apresentar. Ele preferiu não aceitar o conselho e insistiu em fazer o concerto. “Precisamos manter a música viva”, disse.

Este era o Sonny Rollins coerente e ousado. O mesmo que atravessou os anos 70 e 80 fazendo shows por todo o mundo – no Brasil, esteve duas vezes, na primeira edição do Free Jazz em 1985 e, mais recentemente, em 2008 – e chegou ao novo milênio ainda na ativa, preocupado não apenas com as ideias sonoras mas também com outros temas como ecologia, globalização e a vida nas grandes cidades. O ataque terrorista contra Nova York, deixou Rollins impactado. Mas nem a violência do terrorismo fez com que ele deixasse de ser um revolucionário – e um sobrevivente.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Nenhum pensamento

  1. Prezado Marcio
    em 58 Rollins era sim, já uma figura central do Jazz. três de seus principais discos já haviam sido lançados: “Saxophone Colossus”(1956), “Way Out West” (1957), e “A Night At The Village Vanguard” (1957), e Coltrane ainda não havia estourado, sendo Rollins a principal figura do tenor daquele ano.
    Sua saida de cena foi sim noticiada com alarde pelas revistas de Jazz, assim como a sua esperada volta em 1962, celebrada com o album “The Bridge”.

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