Ponte sobre águas turbulentas

Antônio Carlos Miguel nunca teve religião, mas é devoto de Billy Strayhorn, a quem perseguiu as pegadas novaiorquinas desse gênio dos bastidores

Para ser lido ao som de Billy Strayhorn em The Peaceful Side

Richard M. Jones, segurança e faz-tudo de de Duke Ellington, observa de Billy Strayhorn, arranjador e faz-tudo musical de Duke Ellington (Foto: Wikimedia Commons)
Richard M. Jones, segurança e faz-tudo de de Duke Ellington, observa Billy Strayhorn, arranjador e faz-tudo musical de Duke Ellington (Foto: Wikimedia Commons)

Nova York, agosto de 2000. Aproveito a rara viagem em táxi dirigido por um local, ramo no qual predominam imigrantes paquistaneses, haitianos, árabes…, para perguntar aonde fica a Chelsea Bridge. “Em Nova York não temos essa ponte”. Insisti, dizendo se tratar de uma música de Billy Strayhorn, que passara boa parte de sua vida na cidade, mas, curto e direito… “Nasci e me criei aqui, em Little Italy, conheço cada palmo dessa cidade. Teu amigo deve ter andado por outras paradas”.

Antes fosse meu amigo, mas, William Thomas Strayhorn morrera muito antes, em maio de 1967, naquela mesma Nova York. Dias depois, um primo estadunidense morador desde a juventude em Manhattan confirmou o que o taxi driver dissera e deu uma pista: “Talvez o que você procure esteja do outro lado do Atlântico, deve ser uma ponte londrina”. Duas décadas atrás, ainda não carregávamos enciclopédias em nossos celulares, e não tinha internet ou computador no micro apartamento alugado por duas semanas onde a companheira e os dois filhos chegando à adolescência quase não parávamos. E ficamos ocupados com outras delícias, museus, subida ao topo do World Trade Center um ano e um mês antes do 11 de setembro, e até um show de João Donato no Blue Note.

De volta ao Brasil, Lush Life, a biografia escrita por David Hajdou (Farrar Straus Giroux, 1996), deu mais pinceladas: a inspiração para esse clássico da orquestra de Duke Ellington teria sido uma pintura de James McNeill Whistler (nascido nos EUA, em 1834, mas, radicado em Londres, onde morreu em 1903). Ou, segundo um biógrafo de Duke, James Lincoln Collier, o quadro inspirador também poderia ser do inglês William Turner (1775-1851), o cara que antecipou o impressionismo. Com um detalhe, nem Turner ou Collier teriam telas retratando a Chelsea Bridge, a hipótese é de que Strayhorn tenha trocado de nome, encantando-se na verdade por outra ponte sobre o Tâmisa traduzida em pintura, a Battersea. 

Independentemente da ponte ou do pintor certo, esse tema impressionista, “mais Debussy do que Ellington” (como bem frisou Hajdou), diz muito sobre a obra e as referências de Billy Strayhorn. Nascido em Dayton, estado de Ohio (em 29 de novembro de 1915), mas criado entre os estados de Carolina do Norte (onde viviam os avós maternos) e Pensilvânia, cedo, ele mostrou talento excepcional para a música. Também era ligado em literatura, na cultura francesa e na culinária. Seus planos de se tornar um pianista clássico foram abortados por um motivo, a cor negra, mesmo sendo o melhor em sua classe no Pittsburgh Music Institute – veto racista que Nina Simone também experimentou, duas décadas depois. Horror, mas, em ambos os episódios, pior para a música clássica, melhor para o jazz.

Aos 19 anos, ele já tinha composto três de seus futuros clássicos (Lush LifeSomething to Live For e My Little Brown Book) e um musical, Fantastic Rhythm. Era um sucesso local, tocando em teatros e clubes, mas, a vida do jovem Billy Strayhorn mudou mesmo logo depois, em 1º de dezembro de 1938, então aos 23 anos, quando, através de um amigo, teve acesso a Duke Ellington. O relato que se segue aguarda roteirista, diretor e atores para virar filme – a trilha sonora já está pronta.

No intervalo da primeira para a segunda sessão, no Stanley Theater, em Pittsburgh, o dandy Duke recebeu-o no camarim, recostado numa cadeira, onde cabelo e bigode eram retocados. Sem se virar nem abrir os olhos, pediu que o rapaz usasse o piano de armário para mostrar o que sabia. Billy tocou, nota por nota, Sophisticated Lady, reproduzindo fielmente o que ouvira momentos antes no teatro. Quando terminou, ao se virar, Duke estava de pé, junto ao piano, perguntando se ele poderia repetir aquilo. Dessa vez com mais testemunhas, incluindo dois saxofonistas da orquestra, Harry Carney e Johnny Hodges, e a vocalista Ivie Anderson, Billy disse que, agora, iria fazer de sua maneira, dando diferente tratamento harmônico ao tema. Conquistado, o compositor e bandleader quis saber mais, qual a sua formação, se também compunha e, por fim, pediu que o procurasse no fim do mês em Nova York. Passou o endereço e as dicas, “ao chegar na Grand Central Station, pegue o trem A para o Harlem”. Semanas depois, Billy bateu no apartamento de Duke e, após as formalidades, pediu licença, sentou-se ao piano e tocou… Take the A Train, composição que preparara enquanto aguardava o compromisso marcado. O resto, como não cansamos de ouvir, é uma história de quase três décadas de uma fabulosa parceria musical. Take the A Train virou o prefixo musical da orquestra e um dos muitos clássicos que Billy Strayhorn entregou a Duke Ellington. Este, 16 anos mais velho, já um superstar do jazz, tratou-o como um filho. Nos primeiros anos, Billy morou com uma irmã de Duke e o filho deste, Mercer, também músico.

Até morrer, vítima de câncer, aos 51 anos, Billy Strayhorn era os braços direito e esquerdo, e cérebro, espírito e coração daquele que é considerado o maior compositor e bandleader do jazz. Mas, a relação nem sempre foi um mar de rosas. Pessoalmente, sobravam diferenças: Duke, vaidoso, mulherengo, comunicativo; Billy, tímido, gay, introspectivo. Em seu livro, Hajdou aponta alguns traços de exploração por parte do empregador. Não só Strayhorn passou a fazer todo o trabalho braçal e criativo cuidando dos arranjos da orquestra como teria dado parceria ao seu protetor em algumas composições que fez sozinho. A maior sofisticação da música de Duke a partir dos anos 40 tem muito a ver com Billy. Como provam ainda, além das listadas acima, pérolas como Lotus BlossomDay DreamPassion FlowerU.M.M.G.Rain CheckLament for an OrchidBallad for Very Tired and Very Sad Lotus-eatersSatin DollA Flower is a lovesome thing e Your love has faded.

No início dos anos 1950, houve um período de afastamento entre os dois. Mas, em 1956, de volta às “organizações Ellington”, Billy Strayhorn teve um papel fundamental para a apresentação no Newport Jazz Festival daquele ano. O diretor do evento, George Wein, temia que a orquestra soasse como um item nostálgico, em meio ao elenco que incluía gente jovem e então nas pontas dos cascos como Miles Davis, Charles Mingus, Modern Jazz Quartet, Sarah Vaughan. Trabalhando juntos em The Newport Jazz Festival Suite, dividida em três partes, Festival JunctionBlues to be There e Newport Up, Duke e Billy deram uma guaribada no som e no repertório e conseguiram consagradora recepção de público e crítica. O que se repetiu com o disco lançado em seguida pela Columbia, Ellington at Newport – um ao vivo que teve boa parte regravada no estúdio em 8 de julho, um dia após o concerto, para corrigir detalhes. Nessas três décadas, a obra deixada por Billy Strayhorn está ligada a Duke e sua orquestra, espalhada em dezenas de discos. Um único álbum individual pode realmente ser creditado a ele, The Peaceful Side (Capitol, 1961). Foi gravado em Paris, apenas Billy ao piano, com músicos franceses se alternando em algumas faixas: o baixista Michel Goudret em cinco das dez; o Paris String Quartet em duas; e, em três, os vocalises do Paris Blue Notes, fazendo delicados comentários, uhhhhs e ahhhhs e outros gemidos. São versões intimistas, lounge music para um sofisticado piano bar, a partir de, entre outras, Lush LifeTake the A trainDay DreamSomething to Live ForPassion Flower e Chelsea Bridge.

Em 1962, foi a vez, pela Verve, de Johnny Hodges with Billy Strayhorn and The Orchestra, no qual ele atua como arranjador e regente – no piano está Jimmy Jones. Nas últimas décadas, outros álbuns creditados a Billy Strayhorn foram lançados. E, agora, há muito mais disponível em aplicativos de streaming. Mas, em formato físico, completando a legenda para os outros CDs reunidos na foto em que posam com a biografia, ainda estão coletâneas como Lush Life: The Billy Strayhorn Songbook (Verve, com diversos intérpretes), Billy Strayhorn Lush life (Red Baron, gravações entre 1964 e 65, com Billy ao piano, formações de pequena e grande banda ou solo, e ele cantando em Lush Life). E, em outra boa forma de entrar em contato com sua música, gravações das duas últimas décadas: Passion Flower: Fred Hersch plays Billy Strayhorn (Nonesuch, 1996); The Songs of Billy Strayhorn, do cantor Ron Gill (WGBH Radio, 1997); e dois álbuns de The Dutch Jazz Orchestra, direção de Jerry Van Rooijen, Portrait of a Silk Thread (Kokopelli Records, 1996) e You go to my Head (Challenge Records, 2001) – principalmente o primeiro, que inclui composições até então inéditas, enquanto o segundo traz arranjos de Strayhorn para standards. Mas, clássico por clássico, fiquemos com uma canção que ele começou a mostrar aos amigos em 1933, quando completaria 18 anos. Inicialmente batizada Life is Lonely, já tinha o nome de Lush life quando encantou a Duke Ellington naquela noite de dezembro de 1938: “I used to visit all the very gay places/Those come what may places/Where one relaxes on/the axis of the wheel of life/To get the feel of life/From jazz and cocktails…”

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