Inglês macarrônico

Reinaldo Figueiredo explica se é Jázz, Jézz e Paôlo

Para ser lido ao som de um jazz tocado por Paolo Fresu em Que reste-t-il de nos amours?

Desde que comecei a fazer o programa A Volta ao Jazz em 80 Mundos, na Rádio Batuta, muita gente tem me perguntado uma coisa. Na verdade, “muita gente” é força de expressão. Pelos cálculos do Instituto Data Trolha devem ser uns três ou quatro gatos pingados. Enfim, essas pessoas querem saber por que, no programa, eu pronuncio a palavra jazz com o A aberto e não com o sotaque inglês, que seria algo como “jézz”.

Aí eu explico que prefiro usar essa pronúncia “carioca” porque acho que tem mais a ver. Afinal, o programa fala dos vários tipos de jazz que existem pelo mundo afora, e cada país tem o seu sotaque, tanto na língua quanto na música. Por exemplo, em países de língua espanhola, o pessoal fala “Jás” ou até “Yás”, com o sotaque lá deles. Sobre esse tipo de coisa, tem até um caso do escritor espanhol Miguel de Unamuno. Uma vez ele estava dando uma conferência sobre Shakespeare e pronunciava o nome do bardo com sotaque espanhol e não inglês. Aí duas pessoas interromperam o conferencista para dizer que a pronúncia correta não era aquela. A partir daí, só pra sacanear, Unamuno continuou a palestra até o final, mas falando o texto todo num inglês perfeito.

Voltando ao nosso “jázz”, aqui no Brasil essa preferência não é só minha e nem é nova. Esse jeito de falar aparece até numa famosa canção do Djavan, Sina, onde ele rima jazz com a palavra mais: “Pai e mãe, ouro de mina/coração, desejo e sina/tudo mais/pura rotina, jazz”. E tem também a ocorrência do “jázz” naquela composição de Carlos Lyra, Influência do Jazz, que rima jazz com “pra frente e pra trás”. E, mesmo mudando de gênero musical, se eu tiver que falar “rock’n roll”, acho que vou acabar pronunciando “roquenrôu”, como todo mundo faz.

Mas o pior é quando a gente quer falar italiano melhor do que os próprios italianos. Todos os italianos que se chamam Paolo, quando chegam no Brasil, são chamados de Paôlo. Eles não entendem nada, porque lá na Itália não existe esse nome. Eu conheço um italiano que está morando aqui há 15 anos e já desistiu de explicar que o nome dele não é aquele. Mas não tem jeito: vai ficar sendo, para sempre, Paôlo. 

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