Você pega o trem azul

Morte de Curtis Fuller encerra um rico capítulo da história do jazz, em especial com relação ao trombone

Para ser lido ao som de Curtis Fuller em Blue Train, disco de John Coltrane

Blue Train pode ser considerado o primeiro álbum solo de John Coltrane. Lançado em 1957, o disco revela o talento de Coltrane não apenas como saxofonista mas também como compositor – a única que não é de sua autoria é I’m Old Fashioned, standard de Jerome Kern e Johnny Mercer. Coltrane está à frente de um grupo que reúne Lee Morgan (trompete), Paul Chambers (contrabaixo), Kenny Drew (piano), Philly Joe Jones (bateria) e Curtis Fuller, trombone, último remanescente deste sexteto. Foi na suingante Detroit, cidade com tantos bons serviços prestados à música, que Curtis Fuller despertou para a música no começo dos anos 50, firmando-se nas sete décadas seguintes como um dos grandes nomes da consolidação de seu instrumento: o trombone. Seu último sopro foi no último dia 8 de maio, aos 86 anos. A notícia de sua morte foi confirmada por sua filha, Mary Fuller, sem, porém, revelar a causa.

Curtis Fuller e John Coltrane (Foto: Reprodução da contracapa do disco Blue Train)
Curtis Fuller e John Coltrane (Foto: Reprodução da contracapa do disco Blue Train)

Curtis DeBois Fuller nasceu em 15 de dezembro de 1934, filho de pais jamaicanos que morreram quando ele ainda era criança. Criado num orfanato, Curtis Fuller foi aluno de uma escola pública em sua cidade, a mesma por onde passaram outros grandes nomes do jazz, como Paul Chambers, Donald Byrd, Tommy Flanagan, Thad Jones e Milt Jackson. Com essa parceria, a música foi um caminho natural. O garoto, que num primeiro momento aproximou-se do violino e do saxofone, logo optaria pelo trombone – e não mais o abandonaria.

No começo dos anos 50, assim que alcançou à maioridade, Fuller foi chamado pelo Exército para servir na Coreia. Na mesma época integraria combos ao lado do contrabaixista Paul Chambers e do saxofonista Julian “Cannonball” Adderley. Já em Nova York, em 1957, ampliaria seus interesses musicais com as parcerias como Yusef Lateef e com o já lembrado John Coltrane.

Depois disso, o difícil é encontrar com quem ele não tenha tocado, de Ron Carter a Dizzy Gillespie, de Count Basie a seu mestre J. J. Johnson, do Art Farmer-Benny Golson Jazztet, de quem foi o primeiro trombonista, ao Jazz Messengers de Art Blakey, com quem tocou por quatro anos, sem falar na dezenas de álbuns em que gravou como líder.

Por fim, duas curiosidades. A primeira: Curtis Fuller se casou com Catherine Rose Driscoll em 1980. Ela morreu de câncer de pulmão em 2010; Fuller gravou seu álbum The Story of Cathy & Me (2011) como uma homenagem aos 30 anos em que viveram juntos. A outra, como bem reparou Roberto Muggiati: no disco One More Mem’ry, feito ao lado do saxofonista Benny Golson, a capa do LP mostra os dois músicos sentados em duas poltronas tendo ao centro uma mesa com seus respectivos instrumentos apoiados e uma inexplicável edição do livro Jazz Panorama, de Jorge Guinle, em destaque.

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.