E quando eu morrer

Antônio Carlos Miguel escreve sobre Laura Nyro, a quem muito curtiu nos anos 70 nas vozes de outros mas só descobriu a intérprete fabulosa já na era do CD e até hoje lamenta não ter cruzado com ela naquele Carnaval de 1972

Para ser lido ao som de Laura Nyro em The First Songs

Ao surgir, na segunda metade dos anos 60, ela foi recebida por quem sabia das coisas como uma nova deusa da música. Atraiu artistas de campos antagônicos, como Bob Dylan já em sua fase elétrica e o compositor Stephen Sondheim, o sujeito que conseguiu manter vivo o alto padrão dos standards na Broadway. Ou então, prestes a inaugurar a fase fusion, Miles Davis. Este, ao lado de Billie Holiday, foi uma das grandes paixões musicais da adolescente Laura Nigro, nascida e criada no Bronx (Nova York), fruto do casamento de descendentes de italiano-católico (pai) e russa-polaca-judia (mãe).

Mama e papa tinham conexões musicais – ela, contadora que atendia editoras na Broadway; ele, afinador de piano e obscuro trompetista de jazz –, e, cedo, a menina mostrou para o que vinha. Aprendeu piano sozinha, lia poesia (de Rimbaud a Whitman), se aplicava na discoteca caseira (Nina Simone, Billie, Judy Garland, Debussy, Ravel…) e, com os amigos porto-riquenhos da vizinhança, cantava doo-wop nas estações do metrô. Aos 8 anos, as primeiras composições começaram a brotar.

Laura Nyro (sobrenome artístico que adotou) tinha 19 anos quando foi lançado nos EUA, em fevereiro de 1967, More than a new Discovery (Verve Folkways), álbum que apresentou ao mundo clássicos instantâneos como And when I dieStoney endWedding bell blues e Hands of the man. Como quase tudo que gravou em sua voz, esses registros não fizeram um décimo do sucesso que conseguiram logo depois nos discos de, respectivamente, Blood, Sweat & Tears (que relançou as duas primeiras), Linda Ronstadt, Fifth Dimension e Barbra Streisand. Mas, a original mistura de r&b, soul, doo-wop, jazz, Broadway, blues, pop bateu fundo naqueles muitos fãs influentes e, no ano seguinte, seu passe foi comprado pela poderosa Columbia.

Antes de lançar o clássico dos clássicos em sua discografia, Eli and the thirteenth confession (março de 1968), passou por uma traumática experiência, em junho de 1967, no Monterrey Pop Festival. A sofisticada música de Laura Nyro foi ignorada pela plateia que, com razões e estímulos de sobra, descobria a fúria de, entre outros, Jimi Hendrix, Janis Joplin (então com o Big Brother & The Holding Company), Otis Redding, The Who…

Fiasco que não impediu o contrato com a Columbia (atual Sony Music), onde fez sete originais discos de estúdio, sempre cercada de cobras do jazz, do blues e do rock. Álbuns cultuados por muita gente – Elton John, Joni Mitchell, Todd Rundgren, Elvis Costello, Rickie Lee Jones, Kate Bush estão entre os discípulos assumidos –, mas, com vendas sempre abaixo da expectativa da gravadora. Mesmo que cheios de sucessos. Na última semana de 1969, três canções no Top Ten dos EUA eram dela, mas, nas gravações de Three Dog Night, Fifth Dimension (Wedding bell…) e BS&T (And when I die).

Culpa da cantora? Não, foi uma ótima intérprete. Em 1969, após a saída de Al Kooper, o grupo de jazz-rock Blood, Sweat & Tears convidou-a para assumir o posto de vocalista, mas, o empresário de Laura, David Geffen, foi contra. Em 1971, no seu álbum de maior sucesso comercial, Gonna take a miracle, que gravou ao lado do trio soul Labelle, a voz peculiar, aguda e cortante, brilhou alto, passeando com prazer e autoridade por dez canções que embalaram sua adolescência, obscuros singles de doo-wop, r&b e soul dos anos 50 e início dos 60.

Garantida pela receita dos direitos autorais, Laura Nyro nunca aceitou a pressão de executivos ou produtores musicais, que implicavam com suas composições fora do padrão: introduções como as dos temas da Broadway, mudanças bruscas de andamento, melodias ricas e sinuosas. No entanto, era um prazer para muitos dos instrumentistas que trabalhavam com ela. Mesmo sendo uma intuitiva: durante gravações e ensaios, pedia um tom mais azul, uma levada violeta ou vermelha, as cores eram a sua linguagem musical. Numa entrevista no fim da vida, disse: “Cantar é como voar, é a coisa mais próxima do voo”. E, também, “Compor é criar arquitetura musical”.

Voos e arquitetura que dividiu com instrumentistas como Paul Griffin, Zoot Sims, Joe Farrell, Cornell Dupree, Ralph McDonald, Felix Cavaliere, Duane Allman, Michael & Randy Brecker, John Tropea, Tony Levin, Bernard Purdie…

Outra barreira, segundo os burocratas, seriam as letras. Enigmáticas, poéticas e políticas (pacifismo, feminismo e os direitos dos povos originários das Américas). Mas, entendidas por muitos, incluindo a comunidade gay, que a adotou como um exemplo – a própria Laura, após muitos namoros (incluindo o cantor de folk rock Jackson Browne) e três casamentos héteros, e um filho (Gil, assim batizado em homenagem ao poeta e jazz-rapper antes de o rap existir Gil Scott-Heron), mudou de time já madura, passando a última década de vida casada com uma pintora, Maria Desiderio. Laura morreu aos 49 anos, vítima do mesmo câncer de útero que matou mãe e avó, as duas também aos 49 anos.

Ainda graças ao dinheiro que não parou de entrar e nunca esbanjou, adepta do frugalismo hippie de sua época, Laura adorava comprar passagens de avião e embarcar para destinos exóticos, segundo os parâmetros de uma estadunidense. Extremo Oriente (mais de uma vez no Japão), Oriente Médio e até o Brasil. Como conta-nos em Soul picnic: The music and passion of Laura Nyro a biógrafa Michele Kort (Thomas Dunne Books, 2002), certo dia, em fevereiro de 1972, a amiga Barbara Greenstein recebeu uma ligação de Laura perguntando para onde iriam. A primeira opção era a Rússia, mas, para driblar o frio, acabaram optando por passar o carnaval no Rio de Janeiro. Anônimas, já que, ao contrário de Janis Joplin, que virou notícia dois anos antes e até foi expulsa do Copacabana Palace, quase ninguém conhecia aquela jovem deusa da música. Pior para nós.

Mapa do tesouro sonoro

Quase duas décadas e meia após sua morte, a discografia de Laura Nyro mantém sua arte nos ares. Foram dez álbuns de estúdio e sete discos ao vivo – cinco destes lançados postumamente. CDs hoje raros, alguns apenas em catálogo no Japão, mas, quase tudo rodando solto nas plataformas de streaming. Admiradores e críticos apontam o segundo, Eli and the Thirteenth Confession como sua obra-prima. Mas, talvez a melhor introdução ainda seja o de estreia, More Than a New Discovery, de 1967, e que, comprado em 1973 pela Columbia (Sony), voltou rebatizado como The First Songs, com a ordem das faixas trocadas. Entre o fim dos anos 60 e meados dos 70, suas canções chegaram às paradas nas vozes de muitos outros. Já no século 21, dois tributos fazem jus à compositora, Serious Playground: The Songs of Laura Nyro (Ghostlight Records, 2007), da cantora e atriz de musicais Judy Kuhn; e, principalmente, Map to the Treasure: Reimagining Laura Nyro (Masterworks, 2014), do pianista de jazz Billy Childs, com uma constelação de cantores e instrumentistas, incluindo Esperanza Spalding & Wayne Shorter, Renée Fleming & Yo-Yo Ma, Shawn Colvin & Chris Botti, Rickie Lee Jones, Alison Krauss, Ledisi, Dianne Reeves.

2 pensamentos

  1. Maravilha, Miguel! Conheci Laura naquele disco que, na ilustração, ocupa o canto superior direito. De cara virou cult. É daquelas que o tempo não envelhece, até o contrário, melhora. Abração.

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