Deus e o diabo na terra do jazz

Fabiano Canosa estreia na AmaJazz lembrando dias de jazz ao lado de Naná, Gato e Glauber na Nova York dos anos 70

Para ser lido ao som de Naná Vasconcelos em Africadeus

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Arte sobre foto de Gert Chesi (Wikicommons)

Naná Vasconcelos me foi apresentado por Glauber Rocha na ocasião em que ele gentilmente, me convidou para morar com ambos no loft gigantesco que havia alugado na 4 Rivington St., no East Village. Eu era um rookie em Nova York, e Glauber, amigo fiel, foi providencial em me assegurar o canto no loft de onde exerci prazerosamente a tarefa de assistente, correio, cozinheiro e confidente. 

Naná era um encanto, no seu caften GG e sua cabeleira afro, fazendo altos solos de berimbau pela extensão do loft, com um dólar de prata entre os dedos e sua maestria com o instrumento. Essa atividade era o moto-perpétuo do loft, quando Glauber não estava no telefone com Norma Bengell nem também quando não estávamos delirando com o talento de João Gilberto no toca-discos portátil, com seu seminal João Gilberto no México.

Na ocasião, muitos amigos nos visitavam, entre outros Rubens Gerchman, Affonso Beato, Fred Tuten (escritor e professor com muitos amigos no Brasil), mais Dan Talbot, distribuidor da New Yorker Films com vários títulos brasileiros, e pioneiro dos filmes de Bernardo Bertolucci nos Estados Unidos. Logo depois, Talbot se tornaria meu primeiro boss em Nova York, quando fui chamado para trabalhar na distribuidora e dar um help na programação do New Yorker Theatre.

Gato Barbieri veio de quebra, via Gianni Amico que, por coincidência, era um brother de Bertolucci e estava realizando um documento para a RAI Italiana sobre jazz, que incluía imagens do renomado saxofonista argentino, que logo após se destacaria como autor da trilha sonora de O Último Tango em Paris.

Além do núcleo brasileiro no loft do Glauber, havia alguns amigos que convidávamos, sobretudo a turma do La MaMa, fantástico grupo teatral comandado por Ellen Stewart, que vinha de realizar uma longa temporada em Paris. Uma das atrizes do grupo se apaixonou por Naná e o seguiu na sua primeira gig europeia. 

Naná sempre me presenteou com as gravações que fez na Europa, e mais tarde, no Brasil. Num de seus retornos a Nova York, ele foi chamado por Gato Barbieri a fazer parte de sua trupe, mas a parceria durou pouco tempo. Os solos de Naná eram mais longos que a paciência de Michelle e Gato. 

Conheci muitos músicos em Nova York, alguns apenas por uma (e outras) longas noites de drinks e excessos, outros, pela convivência nutrida por amizade e paixões em comum. A lista inclui Miles Davis, Chet Baker, Frank Zappa, Sarah Vaughan, David Byrne, Arto Lindsay, mais os conterrâneos João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rita Lee, Simone, Emílio Santiago, Alcione, Aurora Miranda, Aloysio de Oliveira. Muitos deles frequentaram o meu apê, já depois da partida de Glauber.

Gato e Michelle Barbieri formavam um duo admiravel, sujeito a chuvas e trovoadas com suas presenças mercuriais. Foi através de Michelle e Gianni que Bertolucci conheceu Gato. Michelle havia sido script girl de Prima Della Revoluzione, onde Gianni atuava (“Non existe cinema senza Rossellini”), e conheceu Gato no período em que ele tocava com Charlie Haden. Michelle cobria todos os aspectos da existência do músico, dando-lhe relevância e atuando como uma agente, maternal e possessiva, inculcando em Gato toda sua paixão pelo cinema, de Minnelli ao próprio Glauber. Michelle era a voz de Gato, interpretando e proporcionando-lhe todos os desejos e frustrações. 

Junto ao cinema, a música sempre me acompanhou. Embora não “toque na sinfônica”, meu ouvido musical e minhas preferências são tão inclusivas quanto a minha paixão pelo cinema. Frequentei menos os shows e nightclubs de Nova York do que deveria mas, em compensação, minha coleção de CDs, LPs, cassettes, 78 e 45 rotações supera qualquer estação do planeta, pela variedade e, especialmente, curiosidade pelo que se chama de world-music.

Tinha por Naná uma grande estima mas perdemos o contato. Ele veio ao meu apê algumas vezes nas suas passagens pela cidade, sempre com um novo amor.  Meu último contato com Nana foi para cumprimentá-lo pela trilha de O Menino e o Mundo, onde seu berimbau e seus exaltados brados, mais a universalidade de seu talento, me fizeram fazer uma ligação imediata com Pernambuco, lugar que ele havia escolhido para viver – e morrer.  

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