Boas vibrações

Antônio Carlos Miguel escreve sobre Milt Jackson, o homem que deu uma nova dimensão ao vibrafone

Para ser lido ao som de Milt Jackson em Sunflower.

O som é meio oco ou aquoso ou vaporoso, vibrações que ecoam e parecem bailar, ondulam pelo ar, quase palpáveis e visíveis. Sim, há algo de delirante nessa tentativa de descrever em palavra escrita algo que nosso sentido auditivo recebe e entende com tanto prazer: a sonoridade de um vibrafone.

Reprodução da capa do disco Sunflower, de Milt Jackson

Talvez seja prudente apelar para o músico, compositor, professor, escultor e inventor de instrumentos Walter Smetak, que cunhou a máxima “Falar sobre música é uma bobagem, fazer é uma loucura”. Regra que o genial suíço-baiano tratou de quebrar cotidianamente, entre os anos 1940 e 70, fazendo as cabeças de muitas gerações em suas classes na Escola de Música da Universidade Federal da Bahia. No entanto, aforismo que é, mais uma vez se aplica. Então, como ajuda à leitura para as bobagens que virão, leitores poderão digitar em seu aplicativo de streaming favorito essas 11 letras: Milt Jackson. Como opção, outras 17, Modern Jazz Quartet, o grupo no qual esse estadunidense de Detroit ficou mais conhecido. Neles temos a mais perfeita tradução jazzística do vibrafone. Milton “Bags” Jackson não foi o primeiro vibrafonista no jazz, nem o vibrafone foi o seu primeiro instrumento. Como tantos afro-americanos, a música entrou cedo em sua vida, ainda na infância, nos cultos religiosos, onde, como costumava contar, descobriu a veia “funky” que viria marcar seu estilo. No ensino médio, começou a tocar bateria, tímpano, violino e a cantar num quarteto de gospel, até, aos 16 anos, ser iluminado pelos sons do vibrafonista Lionel Hampton na orquestra de Benny Goodman.

Hampton, que também entrou em cena como baterista, foi um dos responsáveis pela introdução do vibrafone no jazz, no início dos anos 30. Segundo o livro Jazz: History, Instruments, Musicians, Recordings, de John Fordham (1993), o vibrafone chegou aos Estados Unidos em 1916, após ter se popularizado antes no Caribe e na América Central, através de um antecessor, a marimba (ou xilofone), de raízes africanas. Tocado com duas baquetas, instrumento percussivo, mas com o potencial melódico do piano que o torna tão sedutor e misterioso.

Se, ainda na era do swing, Hampton, Adrian Rollini (este, também saxofonista) e Red Norvo estão entre os pioneiros, Milt Jackson foi o grande vibrafonista do bebop. E, também, principalmente por sua participação no Modern Jazz Quartet, um dos aventureiros pelas trilhas do cool jazz.

Antes do admirável mundo sonoro do MJQ, Milt Jackson, em 1945, foi fisgado por Dizzy Gillespie para seu sexteto. Nesse período efervescente e revolucionário para o jazz, também tocou com Thelonious Monk, Charlie Parker e Howard McGhee. Mas, foi no grupo de Dizzy que encontrou aqueles com quem formaria, por volta de 1950, o Milt Jackson Quartet: ao lado do pianista John Lewis, do baixista Ray Brown (dois anos depois substituído por Percy Heath) e do baterista Kenny Clarke (cinco anos depois trocado por Connie Kay). Em 1952, mantendo as iniciais, o grupo seria rebatizado como Modern Jazz Quartet e, com idas e vindas, manteve-se em atividade até o início dos anos 1990. Lançado em 1994, o último álbum MJQ & Friends: A 40th Anniversary Celebration, foi gravado em 1993, incluindo entre os amigos que se alternam em faixas de estúdio e ao vivo Bobby McFerrin, Take 6, Phil Woods, Wynton Marsalis, Illinois Jacquet, Harry “Sweets” Edison, Branford Marsalis, Jimmy Heath, Freddie Hubbard e Nino Tempo.

Um quarteto jazzístico sem sopros já era novidade e, a partir de 1955, com John Lewis assumindo a direção musical, a trilha original se acentuou, numa aproximação com a música de câmera e a clássica. Pontes com Bach e o barroco estão entre os voos do MJQ, incluindo na discografia, em 1966, Place Vendôme, um inusitado álbum em dupla com o grupo vocal francês Swingle Singers. Este, estreara em 1963 com o espirituoso Jazz Sebastien Bach. A discografia do MJQ é imensa (mais de 50 títulos, de estúdio ou ao vivo), assim como a solo de Milt Jackson, até sua morte, aos 76 anos, em outubro de 1999. A obra solo começa antes do quarteto, prossegue paralelamente e se intensifica a partir de 1974, quando acontece a sua primeira saída, por divergências musicais com Lewis (mais clássico e sereno, enquanto Jackson, sempre foi mais frenético). Ultrapassa 60 títulos, alguns em duplas com outras feras, incluindo o primeiro, em 1948, com Howard McGhee, e ainda Ray Charles, Coleman Hawkins, John Coltrane, Oscar Peterson, Wes Montgomery e J.J. Johnson.

O que pinçar em meio a essa aglomeração de álbuns? Partindo para o pessoal, o que toca ao fundo enquanto batuco em meu instrumento: Sunflower. É de 1972, lançado por um selo criado em 1967, CTI (iniciais de Creed Taylor Incorporated), que sempre foi odiado por parcela dos críticos enquanto durou por, supostamente, pasteurizar o jazz. Em seu período de atividade, até falir no fim dos anos 1970 e ser absorvida por outra major (seu catálogo está nas garras da Sony Music), a gravadora CTI lançou álbuns de, entre outros, Wes Montgomery, George Benson, Ron Carter, Eumir Deodato, Astrud Gilberto, Freddie Hubbard, Bob James, Antonio Carlos Jobim, Hubert Laws, Stanley Turrentine e Walter Wanderley. Como se percebe, jazz e muitos brasileiros vindos da bossa nova, mas, que então, eram desprezados por radicais e catalogados como música de elevador.

Mas, nada como o senhor tempo para situar melhor muitas coisas. O vibrafone de Milt Jackson vibra e voa alto nos quatro longos temas de Sunflower (que ganhou mais um na edição em CD), acompanhado por Freddie Hubbard (trompete, também o autor da faixa-título), Herbie Hancock (piano), Jay Berliner (guitarra), Ron Carter (baixo), Billy Cobham (bateria), Ralph MacDonald (percussão) e ainda um naipe orquestral de sopros e cordas regido por Don Sebesky.

Em mais um dado pessoal (e que bate fundo em muita gente que, nos anos 70 e 80, viajava nas ondas sonoras), uma faixa desse disco era o tema de abertura do programa Noturno da finada Rádio JB AM. Sem muita certeza (cartas para a redação, por favor!), For Someone I Love (do próprio Jackson), que, agora, já durante a revisão desse texto, ouço em sua primeira versão, em 1963, quando também batizou um álbum creditado a Milt Jackson and Big Brass. Mas, talvez a faixa de Sunflower possa ter sido a evocativa What are you Doing the Rest of your Life?, composição de outro gênio, o francês Michel Legrand, cuja irmã, por sinal, Christine, foi uma das criadoras dos Swingle Singers. Em Sunflower, esta segunda opção é apresentada, claro, sem a letra de Marilyn e Alan Bergman, canção-tema que foi em 1969 do filme The Happy Ending (direção de Richard Brooks), mas a pergunta do título poderia ser adaptada: o que você está fazendo do resto de sua vida além de ouvir rock ou jazz-rock?

Então, aquele jovem roqueiro pouco conhecia de Milt Jackson, mas, embarcava num tapete voador impulsionado pelo tal som meio oco, aquoso, vaporoso. Sem que suspeitasse, também seria a introduzido ao mundo maravilhoso do vibrafone. Que, desde então, retrocedendo e continuando (graças aos discos e, agora, o streaming), permanece, nas mãos de, entre tantos outros, Cal Tjader, Gary Burton, Bobby Hutcherson, Dave Pike, Terry Gibbs, Stefon Harris (este, já atual milênio) e, para terminar, um meio obscuro, que, em outra oportunidade, merece um capítulo à parte, Gary McFarland. Daí que, antes do ponto final, deste, apenas como aperitivo, a recomendação é um álbum de 1963 com um convidado super especial, Bill Evans, The Gary McFarland Orchestra.

Nenhum pensamento

  1. Gary McFarland, inventor do jazz psicodélico, que os puristas de plantão tanto gostam. Aguardo ansioso seu texto sobre ele, e nesse mesmo estilo “Ana Maria Bahiana”, com impressões valiosas sobre a música que se ouve, e não anedotas pessoais que mal interessam ao próprio dono.
    Sunflower é um dos melhores do Milt, embora ele deva ter ficado aborrecido por seu vibrafone ter sido mal gravado; por incrível que pareça, o engenheiro Van Gelder privilegiou o piano de Herbie Hancock (deve ter achado que ele era o titular do disco). Esse deslize foi maravilhosamente corrigido nos discos de Milt com o flautista Hubert Laws, e principalmente em Cherry, com Stanley Turrentine, uma pérola sonora e musical, onde certamente o instrumento de Bags nunca foi tão bem gravado. E tem ainda os vários discos na Verve, onde você encontrará a mais bela versão para If you went away (Preciso aprender a ser só)

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