Segredos de Chris Connor

Antônio Carlos Miguel fala sobre a voz branca no jazz de estilos que se bifurcam

Para ser lido ao som de Chris Connor em Sings Lullabys for Lovers

Num país de racismo estrutural, nos últimos tempos, cada vez mais escancarado como no Brasil, temos que medir as palavras, sim, quando entramos nessa seara. Então, o branco misturado, mãe brasileira de tantas misturas e pai libanês, confessa que, por um bom tempo, foi preconceituoso em relação a cantoras brancas no mundo do jazz e dos standards. Ligado em Billie, Ella, Sarah, Nina, Carmen, Lena… era difícil encontrar lugar em meu discutível gosto para gente com pouca melanina.

Ainda na adolescência roqueira, era exceção aberta apenas para brancas que cantavam com estilo negro, como Janis Joplin – característica que, quatro décadas depois, marcou também a inglesa Amy Winehouse, esta, colega da texana até no trágico “Clube 27”, o das estrelas na música que morreram tão jovens. Mas, no jazz, no soul e no blues era quase um tabu. E só já marmanjo calejado, na virada do milênio, também virei a chave, acidentalmente, graças à gravação de I’m in the Mood for Love com aquela que é talvez a mais branca cantora (e atriz) de todas, Doris Day.

Porteira aberta, muitas “whitejazzwomen” tiveram vez: Peggy Lee, Anita O’Day, Julie London, June Christy, Blossom Dearie… Esta, virou quase uma obsessão, tanto que há alguns anos, na série de debates Gosto se discute? Batalhas musicais, que dividi-duelei com o amigo Luiz Fernando Borges, escolhi a pianista e cantora de voz infantil para enfrentar ninguém menos do que Lady Day.

Como sempre, saí da rota. Então, retomando o caminho, entrei aqui para saudar outra das branquelas. Há uns 30 anos, o mesmo Borges (que não é sobrinho do argentino Jorge Luis) apresentou-me ao fabuloso Chris Connor Sings the George Gershwin Almanac of Song. Gravado originalmente em 1957 para o selo Atlantic, esse álbum duplo é tão bom quanto o igualmente duplo Ella Fitzgerald Sings the George and Ira Gershwin Song Book (Verve, 1959).

Filha de um músico, Chris Connor estudou clarinete por oito anos até perceber que seu instrumento era a voz. Gravou com a orquestra de Claude Thornhill em 1949 e depois virou a crooner da Stan Kenton Orchestra. Nesta, teve que enfrentar a comparação com duas antecessoras, Anita O’Day e June Christy. E se saiu bem demais.

Chis estava no time das cantoras de jazz brancas, mas, nada racistas. Entrando na terceira década do século 21, deveria ser desnecessário frisar esse ponto, mas, infelizmente, o mundo dos Sapiens engatou a ré na questão. Ignorando o segregacionismo então oficializado nos EUA, em seus discos e nos palcos, Miss Connor cantou, com entre outros black jazzmen, Milt Jackson, John Lewis, Connie Kay, Percy Heath, J.J. Johnson, Milt Hinton, Osie Johnson, Oscar Pettiford, Al Young, Sly Oliver, Ellis Larkin,, Kenny Burrell, Hank Jones, Harry “Sweets” Edison, Frank Foster, Freddie Green, Jaki Byard… Os primeiros álbuns solos de Chris, entre 1954 e 1956, no selo Bethelehem, produzidos pelo então também iniciante Creed Taylor, confirmaram a cantora excepcional, com ótimo faro para repertório e arranjos e instrumentistas. Estão acessíveis em streaming e continuam como ótimas introduções: Sings Lullabys for LoversThis Is Chris,  Sings Lullabys of Birdland e Chris.

Após um período de afastamento, Chris voltou a gravar e a se apresentar a partir da metade dos anos 1970, lançando discos regularmente até 2003. Mas, estes, nunca me interessaram. Até outra obsessão me levar ao irregular New Again, álbum de 1988 (Contemporary) que inclui I Never Meant to Hurt You. Esta é uma balada escrita (e gravada) por Laura Nyro em seu álbum de estreia em 1967 que parece ter saído de mãos e mentes dos grandes compositores dos anos 1930 e 40, Gershwin, Cole, Rodgers & Hart, Arlen… O repertório de New Again mescla standards e material então recente. Entre estes, uma bobagem bem-intencionada de Michael Franks, Antonio’s Song. Estadunidense que flertou com a bossa nova, ele tenta homenagear Jobim, mas, pelo menos no arranjo para Chris, a coisa começa como rumba e a letra tem um quê de bossa do ianque doido citando como referências do carioca do “frevo” ao “Amazonas”.

De 1965, Sings gentle Bossa Nova sugere uma imersão no repertório de Jobim e companhia. Mas, para quem nunca ouviu Chris, também é melhor pular esse disco. Ela apenas troca o cool jazz por um pop bossa para vestir sucessos da época, passando por A Hard Days NightA Taste of HoneyDowntownShadow of your Smile. Ou um insucesso, a esquecida e esquecível Can’t Get over the Bossa Nova (Eydie Gorme e Steve Lawrence). Num de seus últimos álbuns, I Walk with Music (2002), Chris Connor também foi a Jobim, em correta Quiet Nights, bossa eterna que flui bem ao lado de standards como How High the MoonRoute 66 e That Old Black Magic. Mas, novamente, está longe de ser bom cartão de visitas para sua arte. De volta aos anos 1950, melhor mergulhar no vale de fossa (ou torch songs) que é Sings ballads of the Sad Cafe (1959).

E, por fim, outra curiosidade, ou indiscrição, sobre a personagem da vez. O nome artístico adotado tem o detalhe de ser neutro, Chris pode ser tanto feminino quanto masculino. Escolha talvez intencional se pensarmos que, mesmo sem sair do armário, algo impensável para uma mulher nos EUA (e no mundo) dos anos 1940 e 50, Mary Jean Loutsenhizer (o nome de batismo de Miss Connor) foi homossexual. E passou os últimos 47 anos de vida (8/11/1927 – 29/08/2009) casada com sua empresária, Lori Muscarelle. Também não deve ter sido por acaso que, em seus primeiros discos, Chris Connor tenha gravado duas belas canções de Billy Strayhorn com a palavra “gay” em suas letras. Na época, era uma pista decifrada apenas pela comunidade. Mas, não é absurdo supor que já tivesse a atual acepção quando, nos anos 1930, o compositor usou-a no verso I used to visit all the very gay places, que abre Lush Life. Do mesmo período, também vale para os versos Someone who’d take my life/And make it seem gay as they say it ought to be, em Something to live for.

PS: Por falar em Laura Nyro, uma semana após ser publicado artigo sobre ela aqui na AmaJazz, em abril do ano passado (https://amajazz.com.br/2021/04/29/e-quando-eu-morrer/), seus principais discos na Columbia (e mais algumas gravações raras) foram reunidos na caixa American Dreamer. E, em agosto passado, também saiu em LP, CD e streaming o álbum Go find the Moon: The Audition Tape. Este, como o subtítulo entrega, traz a fita que ela gravou em 1966, aos 18 anos, no escritório de dois produtores de Nova York, Milt Okun e Artir Mogull. Apenas voz, piano e oito faixas, entre composições nunca lançadas, conversas com os produtores (que perguntam se ela não poderia cantar algum standard) e dois de seus clássicos, And When I Die e Lazy Susan.

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