As quatro estações de Geraldo Flach

Cynthia e Bethania Flach destacam a obra atemporal e a presença constante do pai, o músico Geraldo Flach. O próximo dia 6 marca o 75º aniversário dele

Para ser lido ao som de Geraldo Flach em Alma

Arte: Gilmar Fraga

Movimento I – Corpo

Ao anoitecer, virada dos anos 70/80, a casa da Alameda Coelho Neto virava ponto de encontro em Porto Alegre e pulsava ao som de muita MPB e jazz. Idealizada sem portas, apenas grandes arcos entre os ambientes de convívio, a casa tinha tudo a ver com o clima de abertura e de efervescência artística e política da época. Por ali circulavam músicos, publicitários, jornalistas, produtores e artistas das mais diferentes áreas conversando, tocando e criando coisas. Misturavam-se novos nomes com alguns já consagrados, oriundos da cena local ou de longe, trocando figurinhas e quem sabe alinhando importantes projetos ali. Jerônimo Jardim, Juarez Fonseca, Ivan e Lucinha Lins, Paulinho e Maurício Tapajós, os irmãos Ramil, os Caymmi, Joyce, Elis, Milton… e por aí vai. Meninas, eu e minha irmã Bethania, costumávamos circular e acompanhar de cantinho esse movimento todo, até um limite de horário, em que seguíamos para o quarto para dormir o sono tranquilo embalado por música e burburinho. Minha mãe, Malu Pederneiras, recebia super bem, e cantava melhor ainda. Geraldo Flach, meu pai, voltava de uma temporada de estudos na Suécia e, nessa época, incrivelmente se desdobrava entre as carreiras de engenheiro eletrônico de dia, e músico e produtor musical nas horas restantes.

Na intimidade de casa, quando tudo estava calmo, o pai tinha o seu cantinho mágico na sala. Em forma de “L” com o piano, sentava-se de costas para o mundo num banquinho baixo, de frente para dois gravadores de rolo sobre uma tábua em tijolos, ligado a enormes fones de ouvido. Ali passava horas, abduzido a outras galáxias. Solitário em uma vida que certamente não era tudo o que tinha que ser.

Da casa sem portas, nós meninas tínhamos nosso espaço de estar: uma saleta acarpetada em desnível, com almofadões e nosso próprio aparelho de som (um toca-discos simples), ao lado dos LPs de trilha de novela. Mas não tocávamos coisa alguma quando ele estava em casa, porque o que mais queríamos era ouvir os seus sons, fosse tocando, fosse falando (muito pouco), ou o que quer que ele botasse para ouvir, se não estivesse abduzido naqueles fones. Tínhamos os nossos favoritos, falo por mim: Tom Jobim, Luiz Eça, Oscar Peterson, Singers Unlimited e Burt Bacharach. Mas em muitos outros sons vindos daquele cantinho dos gravadores, nos perdíamos ouvindo: Chico, Pixinguinha, Edu Lobo, Chet Baker, as divas Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald. Lá de vez em quando, tomávamos coragem de pedir a ele um disco emprestado, prometendo solenemente todos os máximos cuidados. E com data e hora marcados para devolver, com direito a inspeção para confirmar as perfeitas condições. Também havia os finais de semana, que não eram de brincar em pracinhas. O pai amava ir para a serra, e esses passeios eram para nós uma imersão nos sons. Éramos crianças fazendo programa de adulto, e estava tudo certo! Adorávamos adormecer nas cadeiras juntas no Chez Pierre, ouvindo jazz até alta madrugada. Desde lá, a música sempre foi nosso ponto de encontro.

Era daquilo que ouvíamos o pai ouvir que pinçávamos a faixa para a coreografia do Natal (nunca ninguém pediu, mas sim, tinha dancinha sempre). Lá por novembro, eu e minha irmã trocávamos a piscina por ensaios diários, chamávamos duas ou três amigas de fé e dávamos início aos preparativos de todos os detalhes da produção de fim de ano. Tínhamos o nosso show de Natal como um momento solene, de seriedade e entrega, muito mais importante do que a apresentação anual da escola de balé. É verdade que, já na festa, horas antes do grande momento para a plateia de tios, as irmãs Flach davam um jeito de incluir os primos mais dispostos e com algum talento, sem deixar cair a qualidade total, claro. Sabíamos com quem contar. Talvez não de forma consciente, mas as dancinhas especiais do Natal eram um agradecimento pela educação artística que nos era proporcionada, e tínhamos plena consciência de que era diferenciada. Sempre tivemos, quando crianças, aulas semanais de balé e de pelo menos um instrumento musical, entre piano e violão. Assim crescemos brincando de fazer arte, eu e a Bethania, mas entendendo desde cedo que arte é coisa séria. Nós duas, de um jeito ou de outro, trazemos o gosto e o respeito pela arte em geral, pela música em particular, e repassamos isso aos nossos filhos.

Movimento II – Alma

Mas foi da ruptura dessa infância ideal, com a separação dos pais, que tomamos consciência de sermos filhas de um grande artista. A Voz do Brasil, de 1980, primeiro grande show de MPB montado no Estado, já tinha saído da nossa garagem para ocupar o palco do Renascença, com grande repercussão positiva no meio cultural. Mas foi o Alma, no ano seguinte – show que virou o primeiro disco 100% instrumental – que marcou a virada de chave, momento de decisão e coragem de um homem só com o seu talento. Geraldo Flach, nos seus 30 e poucos anos, levaria a partir dali a vida como deveria ser para alguém com sua profundidade e talento.

Foi assim, tendo firmado um compromisso inadiável consigo mesmo, que Geraldo Flach iniciou a construção de uma sólida e longeva carreira de músico, compositor, instrumentista, arranjador, maestro, 100% comprometido com sua vocação. O engenheiro eletrônico teve que ceder espaço à potência do artista que surgia ali, comprometido, inquieto e inteiro. O disco Alma, não poderia ser diferente, também foi o ponto de partida de uma trajetória repleta de realizações e sucesso. Como instrumentista, o som do piano chegava ora arrebatador como tsunami, ora como um delicado afago, o que fez surgir um estilo muito único, marcado pelo gosto pelo improviso. O estilo Geraldo Flach traz uma música universal, mas com forte sotaque deste Sul daqui, carregada de influências de jazz, do erudito e MPB, e sabe-se mais o quê.

A contar do Alma, ele deixou 13 álbuns autorais concebidos e gravados – solo ou com quarteto – sendo um com orquestra, mais um póstumo, de gravações com o amigo Ivan Lins. Além desses, são incontáveis os trabalhos dos quais participou, tocando ou produzindo e arranjando. Era imbatível acompanhando grandes cantoras, como Nana Caymmi, Lucinha Lins, Lúcia Helena, Virgínia Rosa (com quem gravou o último CD Voz & Piano, em 2009). Em sua trajetória, além de diversos shows, compôs incontáveis trilhas para dança, cinema, televisão, publicidade, campanhas institucionais, eventos. Não é exagero dizer que foi um dos grandes responsáveis por abrir caminhos para a música contemporânea instrumental gaúcha, conquistando o posto de grande nome nacional.

A cada álbum seu, uma história resultante de processos cuidadosos, incluindo encarte e toda a parte gráfica. O meu disco dele é o Piano, gravado em Nova York, em 1990. Eu estava lá na época da gravação, mas em um contexto próprio, hospedada em outro ponto da cidade na casa de amigos. Esse disco me fala sobre a busca de si mesmo, em um processo se despir de tudo que é desnecessário e avançar limites. Traz a ideia do homem sozinho, seu piano, mais infinitas possibilidades possíveis através da arte. Aos 20 e poucos anos, eu também estava me buscando. E a faixa Moça na Janela diz muito de mim naquele período.

Movimento III – Espírito  

Neste mês de agosto deste ano louco que fez a humanidade parar, meu pai completaria 75 anos. Homem sensível, pai amoroso, artista inquieto e comprometido. Delicado e corajoso. Imenso. Partiu no comecinho de 2011, cheio de planos e vontade de viver. Desses 65 anos, foram muitos dedicados à maior paixão: a música.

Não venho aqui falar da saudade de filha, embora seja esta uma presença absurdamente presente todos os dias, em todos os momentos. Venho falar da obra viva e pulsante deste artista que abriu caminhos para a rica cena da música instrumental gaúcha, com personalidade e a certeza de haver espaço para ela no mundo, sem que fosse preciso perder a identidade deste Sul onde vivemos.

Este foi e é Geraldo Flach. Seu legado está aí, patrimônio nosso, não apenas graças à força, diversidade, organicidade da sua obra, mas também ao trabalho dedicado e incansável de uma mulher: Angela Flach. Seguindo a herança agregadora de anos de convívio com ele, a Angela tem ao seu redor anjos que somam esforços para alguns feitos importantes, talvez o mais emblemático:  a Sala Jazz Geraldo Flach. Esse espaço sagrado de cultivo da boa música festeja seu nascimento junto ao do Geraldo, e está completando cinco anos de funcionamento, com programação especial neste mês. E olha que isso, em tempos de pandemia, não é pouca coisa!

Para um público cativo e apreciador de viagens musicais que primam pela qualidade, a Sala Jazz Geraldo Flach tem sido um espaço de afeto e de ricas trocas; não só para grandes músicos consagrados, que recriam e homenageiam a obra do maestro que lhe dá nome, mas também por novos jovens talentos inquietos e ousados, como os que meu pai sempre incentivou quando vivo. Com uma curadoria atenta e eclética, sem se ater a gêneros musicais pré-concebidos, já se apresentaram na Sala artistas locais e do mundo, passando por nomes como Joaninha das Canções, Dany Lopes , Paola Kirst, Kiai Grupo, Pedro Borghetti, Luciano Leães, Ayres Pothoff, Earl Thomas, Leandro Maia, Tom Worrel e Marcelo Delacroix, responsável pelo show de aniversário no início de agosto.

Para citar apenas um momento marcante da Sala, de emoção quase mediúnica, lembro de Flachianas, a primeira reunião do Quarteto sem Gerald Flach, em 2015. Os três músicos e amigos de longa data, Fernando do Ó, Ricardo Arenhaldt e Ricardo Baumgarten (falecido em 2018), receberam o jovem intrépido e talentosíssimo (para dizer o mínimo) Cristian Sperandir para tocar o suntuoso Ludovico, piano de cauda que foi do meu pai. Fizeram um tributo arrepiante, em que se pôde sentir a presença do Maestro, mas pelo toque cheio de identidade própria do Christian. Geraldo teria aprovado e vibrado muito, com toda a certeza.

Nesses 10 anos sem Geraldo Flach, muito tem-se lembrado e homenageado, é verdade. O 5º Poa Jazz Festival trouxe o Tributo a Geraldo Flach em 2019, com Cristian Sperandir à frente de seu próprio quarteto, passeando pela obra do autor. A obra está aí para ser revista, tocada, reinventada, diria ele.

Mais um fato a comemorar neste estranho 2020 é a conclusão do minucioso trabalho de catalogação de partituras e documentos deixados por Geraldo Flach. Essa empreitada só foi possível graças ao empenho do querido amigo músico e bibliotecário Luiz Martins, ao longo desses últimos anos. A partir disso, podemos pensar em como disponibilizar esse legado para as gerações futuras, seja on-line ou em espaço físico, quem sabe em forma de songbook. A história continua.

Sempre que chego na Sala Jazz Geraldo Flach, lembro das noites pulsantes em casa no início dos anos 70, e percebo emocionada tudo que está por trás de tudo isso: amor e arte. O espírito agregador e inquieto tão marcante em meu pai se impõe, sua imensa coragem em buscar o sonho pessoal e a capacidade de viver intensamente sua arte; o amor que ele soube plantar nas pessoas ao seu redor. Com ele aprendemos a viver sob a regra da soma dos afetos, o que é – além da obra musical – um legado e tanto. Mais uma grande certeza me toma: Aos 75, Geraldo Flach estaria tocando muito e rompendo barreiras.

Movimento IV – Futuro

Meu pai não conheceu meu filho homem – também músico – adulto. A despedida pegou o Lorenzo quase menino, uma grande lástima. Imagino todos os dias o quanto conversariam, as trocas, as risadas, os churrascos, futebol… Quantos conselhos preciosos que o avô daria ao neto sobre a caminhada profissional – e sobre tantos, tantos outros assuntos. Por outro lado, emociono-me com frequência diante das pequenas grandes descobertas do Lo sobre o avô; seja pela escuta de uma música em especial em determinado momento, ou – como muito acontece – via depoimentos emocionados de quem conviveu com Geraldo Flach, grande profissional e lindo ser humano que foi. Muitas vezes são pequenas passagens que dizem tanto… Sua generosidade e integridade são sempre mencionadas. Sempre. E, embora guardando muito bem as singularidades dos dois músicos da minha vida, seguido me espantam trejeitos e modos semelhantes entre os dois. Sangue não é água. Ainda, tenho certeza de que o vô Geraldo estaria bem orgulhoso do neto diante da dedicação e atitude reverente perante a música, o cuidado com os instrumentos e com as relações, e a ousadia de construir seu próprio estilo e fazer musical.

CODA

Geraldo: presente

Por Bethania Flach

No próximo dia 6 de agosto comemoramos os 75 anos de Geraldo Flach. Tenho dificuldade em usar o futuro do pretérito quando me refiro a meu pai, porque ele é absolutamente presente: sua obra, sua personalidade, sua arte. E não há um dia sequer em que eu não me pegue querendo dividir com ele uma alegria ou uma apreensão do presente. E têm sido tantas…

Ele nasceu no dia em que estourou a bomba de Hiroshima. Não é pouca coisa vir ao mundo junto com a bomba que mudou a história. Ele também mudou o mundo ao longo dos 64 anos em que esteve por aqui. Criou uma música brasileira com identidade, mas sem amarras: universal e atual. Abriu o caminho para a música instrumental no Rio Grande do Sul e aqui permaneceu compondo, arranjando, produzindo e tocando com paixão e sensibilidade.

Meu pai criou e produziu o primeiro grande espetáculo musical do Sul, em 1980. A Voz do Brasil foi uma produção inédita e ousada, que juntou grandes instrumentistas gaúchos e duas cantoras, uma delas, Malu Pederneiras, minha mãe. Eu tinha nove anos e vivi intensamente a criação daquele espetáculo. Os ensaios eram na nossa garagem. E as apresentações foram no Teatro Renascença, o mesmo que, anos depois, o acolheu na despedida.

No ano seguinte, veio o primeiro álbum: Alma. E era possível ver toda sua alma naquele LP. Ele vivia um momento pessoal conturbado: separação, desestrutura, recomeço. ReencontroVilarejoMomentoC&B (duas linhas melódicas bem distintas, minha irmã Cynthia e eu), são músicas cravadas na nossa alma, cuja dimensão só consegui perceber já adulta.

Momento Mágico, de 1985, foi gravado em São Paulo, quando eu passava uns dias lá com ele e a Ângela (Moreira Flach), sua segunda mulher. Férias de verão dentro do estúdio e dormindo em restaurantes. A memória mais recorrente da minha infância é dormindo em duas cadeiras de um restaurante. E música, sempre, que, segundo ele, “não é brincadeira” e devia ser feita e escutada com muito respeito. Porque “se é pra fazer, tem que ser bem feito”. Premissas que ecoam desde sempre e que refletem o compromisso com a sua arte, ao mesmo tempo em que contêm um peso que pode ser limitador.

Foi uma infância-adolescência absolutamente fora dos padrões, dentro do contexto em que se vivia. E que enorme privilégio, hoje eu entendo. Que grande diferença essa “anormalidade” fez na minha formação e nos meus enfrentamentos da vida adulta.

Em Piano, gravado em Nova York, em 1990, Tom Brasileiro, de 1993, Interiores, gravado em 1995, com a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro, e Atitude (1998), gravado em Buenos Aires, eu não estive presente. Aquele distanciamento que se busca no início da vida adulta, para se entender e sobreviver. Hoje, lamento.  

Em Meu Piano, de 2005, já estava de volta. Com filhos (Francisco e Sofia) a gente volta para casa. Enfrenta os medos, se reencontra e resgata o que se perdeu no trajeto.

Ao todo, foram 14 álbuns, o último, de 2017, já foi póstumo, reunindo gravações ao vivo de espetáculos realizados com Ivan Lins.

Me sinto gratificada por ter sua obra. Ao longo do caminho, fui compreendendo a grandeza. E quanto mais caminho, mais quero resgatar aquela sensibilidade que se sobrepunha ao pragmatismo do engenheiro eletrônico. Ah, como eu queria voltar uns tantos anos para estar mais perto dele, sem tantas defesas, de peito aberto, sem medo. Medo que perdi à medida que passei a entender a profundidade da alma.

Ele tinha 64 anos quando partiu. Eu, 39. E eu ainda preciso tanto dele. Preciso dizer o que está acontecendo no mundo, da sua opinião inteligente e ponderada, da visão humanista, da delicadeza, da sutileza. E do abraço grande. O mundo precisa tanto disso.

Sigo buscando meu pai incessantemente por meio da música, universo em que nem sempre nos era permitido entrar. Pelo menos não em toda sua profundidade. Tento superar minhas barreiras, com uma ousadia que não sei de onde vem. Recupereii o piano e comecei a cantar na busca de me conectar, atingir o seu mundo, entrar na sua alma.

Meu pai completa 75 anos em 2020. Esse ano em suspenso, que está mudando o mundo. E que falta ele faz aqui. O mundo precisa da sutileza, da elegância, da delicadeza, da humanidade e da arte de Geraldo Flach. 

3 pensamentos

  1. Lindos e emocionantes depoimentos da Cynthia e da Bethania para este pai que ainda é uma grande referência para elas e para a música brasileira!!!

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