Amigo é coisa pra se guardar

Juarez Fonseca escreve sobre Geraldo Flach: “uma amizade enriquecedora, uma sonoridade única de seu piano, e um modo de conduzir os shows, com rigor e humor, que fazem parte de minha melhor memória”.

Para ser lido ao som de Geraldo Flach em Tom Brasileiro

Geraldo e Juarez: “Juquinha, falamos agora em ti e resolvi ligar pra dizer que te amo” (Foto: Glauco Arnt/Arquivo pessoal)

Na primeira vez que compartilhamos um veraneio, em 1983, alugamos uma casa de “nativos” em Bombas, de frente para o mar de Santa. Uma casinha de madeira sob medida para os dois casais e uma menina de oito anos. Foram dias de longas conversas e jogos de canastra até a boca da madrugada, acordando cedo para comprar peixe direto nos barcos dos pescadores. Depois do café, íamos para a areia. Menos ele. Um quiosque de capim santa-fé, meio distante dos guarda-sóis, seria seu “point”. Sentava ali e ficava apreciando a paisagem, de longe, sem nunca entrar na água. Outros verões, e réveillons, com grupos maiores, viriam em Ganchos, em Capão Novo, em Porto Alegre.

Em Ganchos, para onde o Sid, outro amigo de todas as horas, levava o Umuarama II, seu barco a vela, singrávamos pela baía tendo Geraldo como timoneiro. Sid também era um dos parceiros da Cia. Sanduíches, seu bar predileto, a mesa completada pelo Borghettinho e o Ayrton Patineti dos Anjos. Às vezes atravessavam a noite, com o último garçom, resignado, esperando o dia para vê-los partir. Nessas ocasiões, às vezes ligava para os amigos e fazia declarações de amor pelo celular. Eu em sono profundo e toca o telefone às três da madrugada. “Coisa boa não deve ser”, é o que se pensa. Atendo: “Juquinha (era assim que me chamava), falamos agora em ti e resolvi ligar pra dizer que te amo”.

Na casa dele e Ângela Moreira, em uma rua calma de Ipanema, zona sul de Porto Alegre, a mesa onde sentávamos, com queijos e salaminhos, à espera da picanha, tinha visão direta do piano de cauda na sala ao lado. Às vezes ele ia para lá e tocava coisas lindas, um Tom, uma música nova, improvisos ao sabor da noite e dos espíritos. Mas logo retomava o lugar na cabeceira, onde deixara o cinzeiro e a lata de cerveja. Em dias de jogos do Grêmio ligava o rádio bem baixinho, só dando volume nos gols. Outras vezes nos abastecia de anedotas recém-nascidas, era um exímio contador de piadas. Naquela atmosfera afetiva o tempo passava e nem sentíamos.

Desde a morte do Gegê, em 2011, momentos de convivência como esses, entre tantos, frequentam minha memória. Nos conhecemos em 1968, época da faculdade, quando ele participou do Festival Universitário da MPB, conhecido como o “Festival da Arquitetura”. Mas a amizade funda começou mesmo em 1978, quando fizemos parceria na produção do disco Paralelo 30 (direção musical e vários arranjos dele). Depois, aumentaria e aumentaria, em incontáveis momentos familiares e profissionais. Assisti e comentei a maioria dos shows que ele fez, comentei com grande prazer estético os onze discos que gravou a partir de 1981 – alguns estão seguramente entre os melhores trabalhos instrumentais feitos no Brasil nesse período. Dividiu estúdios e palcos com Ivan Lins (seu amigo desde 1968), Nana Caymmi, Djalma Corrêa, Fernando do Ó, Luiz Carlos Borges, Renato Borghetti, Victor Hugo, Virgínia Rosa, Lucinha Lins, Bebeto Alves, tantos mais.

Frequentemente ligava para comentar algum texto meu. Protestou publicamente quando minha tradicional coluna dos sábados foi interrompida em 1992 pelo novo diretor de redação de Zero Hora. Em dezembro de 2010, já no hospital, quase sem voz devido ao câncer, ligou para dizer que ficara feliz com o que escrevi sobre o CD com Virgínia Rosa. Também fui um privilegiado ouvinte das gravações de seus shows – com Nana e Ivan, por exemplo. CDs exclusivos que me presenteava e que, espero, um dia cheguem ao público. Assim como tive com ele (e a turma que congregava) tantas vivências pessoais inesquecíveis pela amizade enriquecedora, também a sonoridade única de seu piano, e seu modo de conduzir os shows, com rigor e humor, fazem parte de minha melhor memória.

Mas antes desses discos inéditos, um projeto que alimento, e volta e meia aparece em minhas conversas com Ângela e com Roni Barboza, é a produção de uma caixa reunindo os onze álbuns lançados entre 1981 e 2010, mais um livreto sobre as histórias deles e dele – serão 12 se contarmos o póstumo Muito Bom Tocar Junto, gravações ao vivo em duo de pianos com Ivan Lins, lançado em 2016. Estamos nos devendo isso. Roni, grande conhecedor da música brasileira e admirador incondicional de Geraldo desde sempre, o apoiou até o piano – pois já caminhava com dificuldade – no dia da última aparição pública, durante um show de Ivan no Teatro do Bourbon Country. Geraldo já não estava com Ângela havia mais de um ano. Tempos depois, quis o destino, ela e Roni se tornaram um casal e cuidaram dele no hospital. Em 2015, criaram em seu apartamento a Sala Jazz Geraldo Flach, espaço que acolhe a boa música e que vai se tornando icônico como as reuniões do Clube de Jazz Take 5, de dona Ivone Pacheco.

Geraldo Flach é nome de ponta do jazz brasileiro, da bossa instrumental, da música brasileira toda, pianista, compositor e arranjador de múltiplos talentos e recursos. Um dos grandes. Eu sei. Azar de quem ainda não sabe. E ele, nestes 75 anos? Estará olhando o mar, assando uma picanha (que só virava uma vez!), abrindo uma lata de cerveja, indo ao piano para tocar Tom Jobim, Duke Ellington, Astor Piazzolla, Villa-Lobos, ou coisas dele, como Coração BrasileiroO Vôo da Águia e Rancheirinha. A propósito, o piano de cauda, que ocupa quase metade da Sala Jazz Geraldo Flach, foi batizado por ele de Ludovico – homenagem a um de seus ídolos, Ludwig Van Beethoven.

Duas histórias sobre o piano. Em 1983, durante as comemorações dos 80 anos do Grêmio, Geraldo levou o Ludovico para o Estádio Olímpico e, sozinho no grande círculo do gramado, sem público, tocou o Até a pé nós iremos. Em 1996, chegou à festa dos meus 50 anos acompanhado de seu Fender Rhodes. A festa se realizava no Station Grill, restaurante situado no Estádio Beira-Rio. Depois do Parabéns a Você, puxado por ele, Borghetti, Bebeto Alves, Nelson Coelho de Castro e outros amigos, tocou o Hino do Grêmio. Em pleno estádio do Internacional!

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