Porto Alegre hippie

Renato Rosa viaja no tempo para recordar os anos de transgressão com Uma Mordida na Flor

Infelizmente não há o que ouvir. Não sobraram registros do grupo

Na escada: a atriz Nara Keiserman, Renato Rosa, o ator Luiz Damasceno, e os jornalistas Tânia Faillace, Mario Pereira e Sandra Garcia
No palco: a cantora Graça Magliani, o bandleader Wanderley Falkenberg mais Giba Giba, Sant’Anna e Siboney.
Foto: Acervo pessoal/Renato Rosa

Lembrar a criação do grupo musical pop-rock gaúcho Uma Mordida na Flor é uma viagem no tempo/espaço em busca dos talentos que compuseram sua breve e arrebatadora trajetória, desde uma garagem residencial no bairro IAPI até o clímax, a meu ver, de uma temporada de shows na famosa boite de Ruy Sommer, naquela acanhada Porto Alegre do final dos anos 60. Houve ainda a estrondosa participação no show Som Livre Exportação, produção da Rede Globo transmitida ao vivo diretamente do Auditório Araújo Vianna. 

Em ruidosa conversa na tarde do dia da apresentação, Luiz Francisco Fabretti e eu – nós dividíamos as funções de produtores, divulgadores e empresários do grupo – discutimos com os poderosos produtores globais Solano Ribeiro e Walter Lacet. Nossa intenção era fazer com que o grupo ganhasse a honrosa posição para apresentar-se imediatamente antes da entrada das atrações principais. Conseguimos. A estrutura do programa era a seguinte:  comandado por Elis Regina e Ivan Lins, Som Livre Exportação iniciava com uma sequência de convidados e selecionados talentos locais. O último, antes de Ivan Lins entrar, era o nosso grupo. Na noite do show, Elis pediu para ver quem era “esse grupo que vencera” a escala. Abriu-se a porta do camarim coletivo e ela, sem dizer palavra, percorreu o olhar sobre todos e assim como abriu-se, fechou-se a porta. Creio que não existe o tape nos arquivos globais, tampouco nos arquivos das emissoras daqui, que, nos anos seguintes, sofreram incêndios em suas instalações.

O grupo era comandado pelo compositor Wanderley Falkenberg. Com ele estavam: Graça Magliani (cantora), Giba Giba (ritmista), Sant’Anna (guitarrista e compositor), Siboney (ritmista) e Nery Caveira (ritmista). Os figurinos foram criados pela artesã Maria Helena Truda. Eu e Fabretti, como já disse, fazíamos a produção.

A estreia ocorreu num superlotado Teatro de Arena. Além do grande e fortíssimo impacto, o show foi saudado com inédito entusiasmo por toda a crítica musical da época. Havia nesse período cerca de uma dúzia de jornais locais (além das sucursais nacionais) e uma infinidade maior ainda de rádios com programas especiais de músicas. Lembro de ver na plateia lotada com pessoas que foram conferir as músicas de autoria da dupla Falkenberg/Sant’Anna. O êxito do grupo estendeu-se no verão com duas apresentações em Gramado e outra em Capão da Canoa convidados pelo promoter Flávio Carneiro em promoção da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

A duração foi intensa e bastante polêmica. O grupo rompia frontalmente com os padrões da época e trazia mensagens de inspiração claramente hippie além de inegáveis influências de ícones do underground como Janis Joplin e Jimi Hendrix. Uma Mordida na Flor trouxe ao cenário musical um toque surreal, com ironia e deboche. Foi, em síntese, uma receita de transgressão.

* Renato Rosa é marchand, coautor do Dicionário de Artes Plásticas do Rio Grande do Sul e foi produtor, divulgador e empresário do grupo

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