Timbres únicos

Eduardo Osório Rodrigues seleciona alguns músicos cujo som reconhecemos à distância

Existem músicos que para além de tudo o que significaram serão lembrados eternamente pela sonoridade obtida na execução de seus instrumentos. Os mais sutis e refinados, pela entonação límpida e o som melodioso. Os mais enérgicos e vibrantes, pelo som fortíssimo.

Você sabe, por exemplo, que são B.B. King e Chuck Berry tocando quando aquela nota comprida e trêmula ressoa alta como um lamento e aqueles riffs de notas dobradas transbordam em ritmo alucinante do braço da guitarra. Quem ouviu essas joias jamais esquece o nome dos ourives.

No jazz é a mesma coisa. Quando Miles Davis tocou, pela primeira vez, um standard em andamento lento com a famosa surdina Harmon – acessório que diminui o volume e altera o timbre do instrumento – deu o tom sombrio que faltava à música que se tornou a trilha sonora do século 20. Primeiro, ele aproximou a campana abafada junto ao microfone. Depois, com seu talento, alternando a forma como o som se inicia, se mantém e termina ao longo do tempo, criou a atmosfera ideal para os amantes, um tanto melancólica, mas ótima para ser ouvida em ambientes esfumaçados e à meia-luz.

Chet Baker e Harry “Sweets” Edison foram os trompetistas que emularam quase à perfeição o som rarefeito emitido pelo Príncipe das Trevas com o auxílio da surdina. Chet emite som semelhante ao de Miles em I Waited For You, mas na versão com 7’26”. Sem o acessório, o padrão melódico do autodidata de Oklahoma atinge pontos altíssimos em Alone Together e em  I’ve Grown Accustomed To Her. Você ouve as primeiras notas dessas músicas vazando da janela de um bar no meio do quarteirão e sabe que é ele que está no comando das ações.

Selecionei apenas músicos de sopro e guitarristas que tinham, entre suas virtudes, a capacidade de emitir um som diferenciado dos colegas de instrumentos do mesmo gênero musical. A escolha se restringiu a este grupo porque a comparação é mais fácil de ser feita. 

Bateristas, pianistas, contrabaixistas e vibrafonistas também têm estilo e característica próprios, mas é praticamente impossível compará-los devido à característica sonora desses instrumentos e à matéria-prima usada para criá-los.

Além de Miles e Chet, entram nessa lista quatro saxofonistas. Um alto, Paul Desmond (When Joanna Loved Me) e quatro tenores: John Coltrane (Do I Love You Because You’re Beautiful?), Ben Webster (When Your Lover Has Gone), Benny Golson (You’re Mine You) e Stan Getz (The Windows of The World).

Entre os guitarristas, obviamente Wes Montgomery (Bumpin’ on Sunset) e o Grant Green (Hip Funk). As músicas indicadas ajudam a entender o som único que cada músico extraía de seus instrumentos. No caso de Grant, o volume e a potência de seus solos o diferenciam dos demais, inclusive de Wes, que projetou uma sombra sobre a maioria dos guitarristas contemporâneos e os que vieram depois.

Nenhum pensamento

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.