Histórias não contadas

Esboço para um livro que talvez nunca saia 

Para ser lido ao som de Albert Ayler em Ghosts: First Variation

Arte: Gilmar Fraga

A intenção seria fazer um livro para contar a história de personagens pouco conhecidos do jazz e que tiveram trajetórias trágicas. Ser pouco conhecido me pareceu fundamental para a escolha dos personagens já que o jazz está repleto de histórias trágicas (Charlie Parker, Billie Holiday, Chet Baker…). Seriam figuras que quase sempre estiveram à sombra e que mereciam a lembrança.

Seriam eles:

Albert Ayler – grande saxofonista do free jazz que morreu em situação misteriosa no auge da carreira. Próximo de John Coltrane, contemporâneo de Pharoah Sanders,Archie Shepp, Gato Barbieri e Don Cherry, Ayler foi talvez o que levou o free jazz ao ponto mais alto do experimentalismo. Em novembro de 1970. seu corpo foi encontrado no East River 20 dias depois de o músico ter sido dado como desaparecido. Até hoje não se sabe se foi suicídio (pouco provável), acidente (menos provável ainda) ou assassinato (o mais provável, ao que tudo indica jogado n’água por traficantes e/ou mafiosos). Ayler tinha 35 anos.

Frank Rosolino – trombonista que tocou com meio mundo no jazz, de Charlie Parker a Stan Kenton, de Mel Tormé a J. J. Johnson. Na noite de 26 de novembro de 1978, Rosolino atirou em seus dois filhos enquanto dormiam. Um morreu instantaneamente; o outro sobreviveu, mas ficou cego. Rosolino deu um tiro na cabeça imediatamente depois de atirar em seus filhos e morreu. Tinha 52 anos.

Henry Grimes – contrabaixista e poeta, ligado ao free jazz e aos beats. Sem explicação, desapareceu em 1970. Acreditava-se que tinha morrido até ser redescoberto, em 2002, por um assistente social que gostava de jazz. O músico vivia como indigente, ocupando um pequeno apartamento na periferia de Los Angeles, fazendo estranhos trabalhos para sobreviver e sem tocar com ninguém – nem sequer tinha mais o contrabaixo. Nos últimos anos retomou a carreira e seguia na ativa até abril passado quando morreu, aos 84 anos, vítima de coronavírus. 

Autor: Márcio Pinheiro

Jornalista, roteirista, produtor cultural

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.