A canção atrás do arco-íris

Roberto Muggiati relata a gênese de uma das mais belas baladas do cancioneiro americano

Para ser lido ao som de Erroll Garner em Misty

Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA/Domínio público/Wikimedia Commons
Foto: Biblioteca do Congresso dos EUA/Domínio público/Wikimedia Commons

Erroll (Louis) Garner (1921-1977) tinha um ouvido tão privilegiado desde criança que nunca se deu ao trabalho de aprender a ler música. Bastava-lhe ouvir uma vez qualquer peça, por mais complexa que fosse, que ele a aprendia de cor. Já em plena carreira como um dos mais bem-sucedidos e requisitados pianistas do jazz, costumava dizer, quando mencionavam que não sabia ler partitura: “Pô, cara, e quem é que vê se você está lendo música ou não?”.

Garner começou a tocar aos quatro anos, aos 10 já participava de shows na rádio de sua cidade natal, Pittsburgh, e aos 23 anos partiu para dar sua mordida na Grande Maçã. Tocou esporadicamente em grandes orquestras, acompanhou o genial Charlie Parker nas gravações feitas na Califórnia, mas logo se fixou na fórmula individualista que mais lhe convinha: tocar em trio, acompanhado apenas de contrabaixo e bateria e, em certas ocasiões, ao piano solo.

O grande baixista Red Callender dizia que, com sua mão esquerda fantástica, Erroll não precisava realmente de um baixista, apenas o usava como uma espécie de luxo, pelo prazer da companhia. E o baixista de Garner, Wyatt Ruther, confirmava: “Ele era de fato um excelente pianista solo, mas se sentia mais à vontade com baixo e baterista. Era engraçado porque, quando tocávamos juntos e eu não tinha certeza de uma nota do baixo num ponto particular de um tema, Erroll tocava e mostrava para mim”.

Erroll foi um dos raros músicos de jazz a conquistar o grande público como compositor, em especial através de uma canção chamada Misty, que ganhou letra de Johnny Burke, foi gravada pelos principais cantores populares e do jazz, de Frank Sinatra a Sarah Vaughan, de Johnny Mathis a Dakota Stanton. O fascínio dessa canção foi tanto que Clint Eastwood estreou como diretor de cinema com o filme Play Misty for Me (Perversa Paixão), um film noir em cores em que a canção desempenha um papel fundamental.

A gênese de Misty é um exemplo admirável de como Garner sabia explorar sua imaginação. Aparentemente, as sementes de Misty estavam numa canção mal resolvida de Garner intitulada Fancy. O baterista Eugene “Fats”h Heard insistiu para que ele trabalhasse mais no tema e o resultado teria sido Misty. Mas o próprio Erroll garante que Misty lhe foi inspirada por um arco-íris que ele presenciou do alto de um avião durante um voo de São Francisco a Chicago para uma gravação da Blue Note em 1954. Ele contou, muitos anos depois: “Naquela época não havia aviões a jato e tivemos de parar em Denver. Quando estávamos descendo, houve um bonito arco-íris-um arco-íris fascinante porque não era extenso, mas muito largo e com todas as cores que você pode imaginar. com as gotículas nas janelas do avião, que estavam enevoadas, e aquela garoa toda, resolvi chamá-la de Misty. Lembro que a cantarolei no próprio avião e toquei nos meus joelhos até que a melodia completa se formou na minha cabeça. Quando desci do avião, a música estava pronta. Como íamos gravar em Chicago, incluía nova canção no repertório”.

O baixista da sessão de 27 de julho de 1954 em Chicago, Wyatt Ruther, conta: “Erroll nunca dizia aos acompanhantes o que ia tocar. Simplesmente dava a partida e Fats Heard e eu o seguíamos. Nessa sessão, quando terminamos, perguntei a Erroll: ‘De onde veio isso?’ Ele deu um leve sorriso e disse que era algo que vinha rolando há algum tempo na sua cabeça. Achei uma bela balada e gostei dela à primeira audição, mas nenhum de nós imaginou que se tornaria algo tão grandioso, um standard clássico do repertório americano”.

Erroll Garner foi obrigado a tocar Misty pelo resto de sua carreira. Ele mesmo calculou que havia reciclado a peça pelo menos mil vezes por ano. E, com sua rica imaginação, a cada vez “acrescentava uma coisinha”.

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