Para quem acredita em unicórnio

Roberto Muggiati faz uma viagem ao fim da noite com Maurício Einhorn

Para ser lido ao som de Maurício Einhorn em Batida Diferente e Estamos Aí

Foto: Olenca Benaion

Há algum tempo eu não via o grande Maurício tocar. Quando recebi a programação do TribOz não vacilei. Anunciava para sábado 25 de janeiro: “Em sua primeira turnê ao Brasil, o guitarrista novaiorquino, Jake Kelberman, celebra a conexão entre o jazz e a bossa nova, apresentando ao público o quanto esses estilos se influenciaram ao longo da história. Para ilustrar essa união, Jake convida um ícone da bossa nova, Maurício Einhorn, para interpretar Batida Diferente e Estamos Aí (Maurício Einhorn), Celia (Bud Powell) e Autumn in New York (Vernon Duke)”. Além do Maurício, havia a minha canção favorita do Bud Powell, Celia, que conheci no LP da Verve lançado aqui circa 1958 pela Sinter, Um Gigante do Jazz. Não sei por que, associo aquela música ao ponto da Marechal Deodoro esquina com Barão do Rio Branco, em Curitiba, onde esperava o ônibus de volta para casa depois do fechamento do jornal, temas como Tempus Fugue ItStrictly Confidential e Celia rolavam pela minha cabeça.

Parti da minha toca na Real Grandeza, em Botafogo, para a Lapa. Em meu projeto pessoal Transporte Custo Zero, peguei o metrô até a estação Glória, dali fui a pé até o final da Conde de Lages, driblando as traiçoeiras pedras portuguesas da calçada, infestada por camelôs e quiosques. A rua do TribOz, Conde de Lages, na primeira metade do século 20, costumava ser “o ponto alto do grã-finismo do meretrício, seus bordeis servidos por cocotes francesas” como aponta Paulo Sérgio do Carmo no livro Prazeres e Pecados do Sexo na História do Brasil. Vou citar um pouco mais, que cultura não faz mal nestes tempos de “inguinorância” (tuitaria o ministro Weintraub) e de Terra chata (a Terra ficou chata por causa deles.) Em Os Crimes da Rua Conde de Lages, 29, escreve o blogueiro Jorge Eduardo Garcia: “Desconheço como foi o início do meretrício na rua Conde de Lages, mas sei que os bordeis eram considerados muito chiques e caros, havia a casa de Madame Chouchou, em cujas janelas as moças bonitas ficavam para angariar clientela e reza a lenda que o termo ‘chuchu’ para se referir a qualquer bela moça veio daí.” Hoje a região vizinha, limítrofe dos bairros da Glória e da Lapa, é trottoir exclusivo dos travestis, aos quais emprestei a galante alcunha (do árabe al-kunya) de “Damas de Paus”.

O trompetista australiano Mike Ryan transformou um velho casarão na mais charmosa casa de jazz do Rio, a única, aliás, que é realmente uma casa. PhD em Etnomusicologia pela Universidade de Sydney, especializou-se na diáspora Afro-Brasileira e no seu legado musical. A decoração do TribOz tem tudo a ver com isso: máscaras africanas, carrancas, um ambiente ao mesmo tempo exótico e acolhedor. Mike, com quase um quarto de século de Brasil, e doze anos de TribOz em 2020, nomeou diplomaticamente a casa de Centro Cultural Brasil-Austrália. Eu tinha reservado com Jessica, a simpática mulher brasileira de Mike, uma mesa de frente, dois lugares, não me importava em dividir com outra pessoa. Crítico de jazz tem seus privilégios – aliás, detesto este rótulo pomposo. Um dos muitos romances que tenho na cabeça – e ainda vou escrever um dia – é O Crítico de Jazz, um perfil implacável de uma das criaturas mais odientas que já conheci, um retrato composto em que também me incluo.

Na mesa maior da primeira fila estavam Maurício, sua mulher e um casal amigo. Perguntei logo se ele ia tocar Celia, também era uma de suas favoritas, ele cantarolou a introdução, mas disse: “Não, eu tocava isso quando era mais garoto, exige muita agilidade dos dedos”. Contei-lhe uma história do Bud quando internado em Bellevue, o hospício de nove entre dez estrelas do jazz em Nova York. Aos vinte anos, Bud tinha levado em Filadélfia uma surra brutal de cassetete de policiais truculentos que odiavam negros, quando saiu para tomar um ar na calçada diante do clube onde tocava. Aquilo o deixou lesado para o resto da vida, como pessoa. Mas, como músico, conseguiu preservar a lucidez e sua arte para o resto da vida, que, aliás, foi breve: morreu em 1966, dois meses antes de completar 42 anos. No hospício, Bud ocupava uma pequena cela sem janelas. Mal chegou, desenhou com giz um teclado na parede. Um dia, recebeu a visita de Elmo Hope, um pianista que o idolatrava. Bud foi logo perguntando se ele já tinha ouvido sua nova composição. “Olha só” – e se pôs a dedilhar o teclado desenhado na parede. Claro que Elmo ouviu perfeitamente – e adorou. 

Maurício replica com outra anedota. Certa vez, Bud começou a tocar compulsivamente Celia, só parou quando o levaram numa camisa de força. Lembrei que Maurício também tem um pouco disso, é o improvisador que faz o maior número de citações por canção. Mas, como dizia Polônio de Hamlet, existe um método em sua loucura. Um dos primeiros “cacos” do Maurício é Laura, não deu outra, nesta noite ele a citou logo na primeira música. Outra de suas citações obrigatórias é Holiday for Strings. Antes do show pedi seu e-mail para mandar o link de uma interpretação incrível pela Sinfônica e Big Band de Tbilisi, na Geórgia. Ele me disse que gostava também de outra composição de David Rose, Our Waltz, outra favorita dos jazzistas.

Começa o show com o trio, Jake Kelberman, um menino suave e cool, imaginem o jovem Jude Law tocando guitarra como o Jim Hall – Jake, de Filadélfia, hoje radicado em Nova York, nesta sua primeira viagem ao Brasil fez em São Paulo um show homenageando Wes Montgomery, outra de suas influências. No TribOz, tocou com os brasileiros João Bueno (piano) e Felipe Gianei (baixo acústico), de tão enturmados parecia que tocavam juntos desde criancinha. O trio começa com Like Someone in Love, uma maravilha que inspirou até o título de um filme franco-japonês do iraniano Abbas Kiarostami passado em Tóquio – ah, este mundo globalizado… Depois My Ideal, minha referência pessoal é a gravação do Sonny Rollins com o barítono Earl Coleman. E, fechando, Just One of Those Things, de Cole Porter, da qual tirei meu epitáfio: IT WAS GREAT FUN/BUT IT WAS JUST ONE OF THOSE THINGS. Como não morri e decidi ser cremado, optei por outro Cole Porter para a etiqueta da urna de cinzas: TOO DARN HOT.

Maurício é chamado ao palco. Corcovado, para os gringos Quiet Nights, e desponta logo o “caco” de Laura, o primeiro da noite; seguem-se uma fanfarra de clarins e o tema de CasablancaAs Time Goes By. Do grande Mancini, Days of Wine and Roses, com uma citação recorrente de Flamingo. De volta à bossa, Wave, Maurício surfando altaneiro e saudando Spring FeverAdiós e Estamos Aí.

Fim do primeiro set. Vou exigir uma satisfação de Jake: “Afinal, o programa não diz que vocês vão tocar Celia?” E, para o atônito trio na casa dos trinta: “Vocês sabiam que em 1961 eu ia toda noite ao Blue Note de Paris ouvir Bud Powell com o Kenny Clarke e o Pierre Michelot? O grupo se chamava The Three Bosses?”. Abrindo o segundo set, Jake ataca de Celia, noblesse oblige… O bop de Bud é realmente uma trip incrível, uma rajada de semicolcheias traçando gráficos de alta matemática, a união de uma visão romântica com a complexidade científica de fractais e de física quântica. Por que Celia? Foi o nome que deu a sua única filha, Cecelia June Powell, nascida em 1º de junho de 1948, em homenagem a Santa Cecilia, a padroeira dos músicos. Depois, o clássico Shiny Stockings de Basie, com um swing que traz como sujeito oculto a guitarra rítmica de Freddie Green, João Bueno homenageando o toque econômico dos dedinhos do velho Count. O trio de Jake termina com Estamos Aí e ele chama o autor da música ao palco. Maurício anuncia um standard composto por quatro autores, Body and Soul, e cita os nomes. Na verdade, a música é de um só autor, Johnny Green, e os letristas são Edward Heyman, Robert Sour e o inglês Frank Eyton,

Outros acréscimos à letra foram feitos com o correr do tempo, era a balada favorita de Billie Holiday e Frank Sinatra (foi a última que Amy Winehouse gravou, em dueto com Tony Bennett, exatos três meses antes de morrer, em 2011, oitenta anos depois de sua criação. Foi também o primeiro solo de saxofone na história, gravado por Coleman Hawkins em 1939). O tema é tão poderoso que Maurício fica com ele, sem esbanjar citações. Na sequência outro standard clássico, Stella by Starlight, novos cacos de As Time Goes By, e, para terminar, Já Era, parceria de Maurício com Eumir Deodato. A harmônica – por favor, não chamem de gaita-de-boca – é um dos instrumentos mais ingratos, você tem de tocar com ela grudada ao microfone de mão, é um desconforto total, e muito da arte fabulosa de Maurício, Toots, Stevie Wonder, entre outros, se deve a essa ginástica postural que, em princípio, nada tem a ver diretamente com a música.

A noite terminou em beijos e abraços numa celebração desta confraria amante do jazz e da bossa que, longe deste insensato mundo, viaja para outras paragens mais amenas nestes raros intervalos de paz. Uma coisa aprendi esta noite. Sentou-se à minha mesa um senhor, sozinho como eu. Enquanto eu já degustava minha primeira dose de uísque – straight, sem água nem gelo, quem morou três anos em Londres não toma outra atitude – ele pedia uma lata de Guaraná Antarctica e um copo do gelo. Com o guardanapo de papel levou cinco minutos limpando meticulosamente todos os interstícios e bordas da tampa da latinha. Não pude me conter e comentei: “Mas e o gelo, de onde vem essa água?” Ele capitulou: “Sim, só pode ser do Guandu…”. As doses de uísque na noite carioca costumam ser inversamente proporcionais ao preço, mas conquistei a garçonete com um papo convincente: “Quando você pede um chorinho num bar de Copacabana, Ipanema ou Leblon, o garçom sempre diz: ‘Lugar de pedir chorinho é na Lapa.’ Como estamos tecnicamente na Lapa, eu peço o meu chorinho chorão”. A moça foi generosa nas três doses que consumi, como a noite estava quente, com três garrafas pequenas de Bohemia – straight and chaser…

Aos poucos o gelo foi derretendo – literal e figurativamente – com meu companheiro de mesa. Descobri que morava num apartamento na Tijuca. Amava música instrumental brasileira, sabia tudo sobre todo mundo, conhecia o trabalho do Maurício de cabo a rabo. Perguntei se tocava algum instrumento, disse que não. “Fui a vida inteira funcionário do Banco Central, depois me aposentei.” Descobri então que existem amantes do jazz e da bossa que não são intelectuais, nem músicos amadores, mas, comuns mortais, são capazes de desfrutar a música de que outros apreciadores – principalmente críticos de jazz e jazzófilos arrogantes – se acham donos exclusivos. E ainda tem mais, uma simpática moça na mesa ao lado conhecia de cor e salteado cada peça do repertório do Maurício e acompanhava cantarolando Estamos Aí e Já Era. Sim, há muito tempo o jazz deixou de ser um Clube do Bolinha, tem cada vez mais mulher conhecendo e amando essa música. Olenca Benaion – o nome dela – ainda foi ultra simpática fotografando no seu celular os amigos Maurício e Muggiati que, neste 2020, somam 171 anos de idade – um número sinistramente cabalístico para mim: 171 foi por muito tempo jornalista, no código das profissões (hoje é músico); e, no Código Penal, estelionatário…

Valeu a nossa noite, Maurício Unicórnio. Muitas outras noites se seguirão, tenho certeza.

Coda

Jazz e gastronomia se dão bem. A cozinha do TribOz é muito criativa, foi dela que me apropriei de uma salada quente de quinoa com camarão que fez grande sucesso nos saraus de jazz em que toquei esporadicamente com minha amiga Regina Lins e Silva, um duo de sax tenor e piano que, defensivamente, batizei de Duo Brancaleone, “os piores do mundo”, com o coaching caridoso da maga Bianca Gismonti. Aqui vai a receita: quinoa em grãos cozida, camarões médios levemente fritos no azeite de oliva extra-virgem, pequenos cortes de aspargos e minicenouras no vapor, algumas gotas de limão siciliano. Meu acréscimo: pitadas moderadas de sal rosa do Himalaia. Bom appétit!

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